Como Mudar o Mundo… em 40 Milhões de Passos

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Prólogo

O Disparo que mobilizou Exércitos

As notícias não tardaram a espalhar-se: um arquiduque e a sua esposa, assassinados. Por um nacionalista bósnio… não, sérvio, mas na Bósnia. O herdeiro de um grande Império, Francisco Fernando, estava morto, caído nas ruas de Sarajevo pela arma de Gavrilo Princip. Com um tiro, tudo começou a desmoronar-se.

Desde os tempos de Napoleão, em 1815, que os grandes poderes da Europa se tinham conseguido entender. Foram 100 anos de relativa estabilidade, ainda que com alguns soluços, com uma guerra aqui e ali. Nada de mais.

Mas desta vez foi diferente. Ao fim de um século, a torre de pedra, erguida sobre a destruição das Guerras Napoleónicas, tinha-se transformado num castelo de cartas. O balanço de poder entre as superpotências tinha-se alterado, um complexo sistema de alianças defensivas estava estabelecido e os desentendimentos começavam a acumular-se. O ambiente no virar do século estava tenso… e bastou um disparo, uma brisa, para trazer tudo abaixo.

Em julho, há 104 anos, uma crise que podia ter sido resolvida, precipitou-se sem igual. A diplomacia e a comunicação empancaram, rivalidades antigas vieram ao de cima, decisões precipitadas foram tomadas… e o dominó começou a cair. As nações europeias foram empurradas para o conflito por uma rede de alianças e manobras políticas. Um mês depois do dito disparo, o mundo, peça a peça, estaria em guerra.

1ª Parte – As Pessoas

Em Frente, Marche!

A Humanidade está habituada à guerra (com g pequeno) desde sempre. Para bem ou para mal, morrer por uma causa maior que nós mesmos, seja um senhor, uma fé ou um país, sempre foi visto como heróico e glorioso. O verão de 1914 não foi diferente - os pelotões e batalhões marcharam para a guerra, motivados, entoando cantigas patriotas, em direção à aventura! Esta visão romântica permeou o início do conflito, aliada a um espírito de orgulho e otimismo. “A Guerra estará terminada pelo Natal”, diziam os líderes em casa e na frente de combate.

Mas foi então que os exércitos pararam… e afundaram em trincheiras. Construíram bunkers, instalaram artilharia e arame fardado. Os avanços tornaram-se escassos, as perdas começaram a acumular-se, o Natal de 1914 veio e foi…

Coloca-te nesta posição: és um jovem idealista em 1915, sentes que precisas de um propósito e queres ser algo mais. Ouves o chamamento para a guerra, e acedes. Com o nacionalismo à flor da pele, no início do século XX, sentes que estás a cumprir o teu nobre dever pelo teu país. Chegas à frente, e que encontras?

A Grande (Des)Ilusão

Uma paisagem cinzenta de nuvens e chuva, e acastanhada de lama. Uma terra de ninguém, preenchida de entulho e cadáveres, entre duas trincheiras, inundadas e frias no inverno e tórridas no verão. O barulho incessante da artilharia.

As batalhas eram ocasionais, com longos períodos de monotonia e desespero entre elas. Quando, finalmente, um setor entrava em ação, a experiência era aterradora – going over the top. Ondas de homens, apavorados e exaustos, tentando atravessar a terra de ninguém, para alcançar as trincheiras opostas, diretamente contra as posições inimigas, por entre o arame farpado, os bombardeamentos, os tanques, o gás venenoso, as metralhadoras, os lança-chamas, os biplanos, as linhas de fogo claras e as paredes de cadáveres sem fim… Mantém-te baixo e talvez não sejas o próximo, talvez sobrevivas para contar isto…

Mesmo parente esta armadilha de morte, os soldados entregavam-se ao destino e reuniam a coragem para saltar a trincheira e correr, fosse por patriotismo, camaradagem… ou pelas pesadas represálias que impunham a obediência, mesmo nestas condições únicas e terríveis, e perante táticas inflexíveis e mortíferas que raramente eram bem-sucedidas.

Materializaram-se alguns momentos singulares de verdadeiro heroísmo, mas a labuta diária do soldado raso tinha pouco de inspirador… e que há de heróico ou glorioso em carregar diretamente contra uma metralhadora, ser esmagado por um tanque, adoecer com a gripe espanhola, a febre das trincheiras ou sufocar em agonia num mar de gás mostarda?

O Inferno ascendido à Terra

Não apenas na frente ocidental, pelos campos da Flandres e de França, onde este tipo de combate se tornou a imagem da Guerra, mas também na gélida Rússia, nas montanhas dos Alpes, ao sol da Palestina, nas costas da Turquia e nos confins da Macedónia se fizeram sentir estes e muitos outros horrores.

A morte e o sofrimento sempre fizeram parte da guerra. Mas na Guerra, a Grande, a (infelizmente) 1.ª, o matar tornou-se mecânico, industrial... cruel. Tanto em casa, com economias de guerra desenhadas para produzir equipamento em massa e focar todos os trabalhos do país no conflito em jogo, como na frente, onde estes mesmos equipamentos foram utilizados para aniquilar, indiscriminadamente, ondas e ondas de… carne. Cannon fodder.

Assim foi para todos, igualmente: britânicos, franceses, russos, italianos, sérvios, belgas, americanos, canadianos, australianos, neozelandeses, portugueses, gregos, romenos, japoneses, albaneses, montenegrinos… e alemães, austríacos, húngaros, búlgaros, turcos, eslovenos, eslovacos, checos, croatas, polacos…

Pela primeira vez, os elementos do progresso e da revolução industrial foram aplicados de uma forma brutal e criativa. O avanço tecnológico posto à mercê do desenvolvimento de novos métodos de destruição. A vida humana descartada, atirada sem pudor para as lamas de Verdun, de Ypres e do Somme. Tudo por umas milhas de avanço…

Mas, eventualmente, a corrente mudou. Os alemães fraquejaram, vieram americanos, e os avanços aumentaram. Em todas as frentes, os Aliados começaram a progredir, e os Impérios Centrais não conseguiram dar resposta. Falou-se em rendições, armistícios… estaria para acabar?

Not With a Bang…

Acabou. Não com um estrondo, uma vitória decisiva ou uma batalha gloriosa, mas com um soluço, quase secreto, na floresta de Compiègne. À 11.ª hora do 11.º dia do 11.º mês de 1918, as bocas de artilharia calaram-se, após 4 anos, 3 meses e 14 dias de conflito. No vagão de comboio do marechal Ferdinand Foch, um delegado alemão assinou uma folha de papel, cabisbaixo, derrotado, ressentido…

O mundo saiu de um pesadelo. Uma nova realidade havia descido sobre o mundo e nada voltaria a ser o mesmo. O terror e miséria que muitos experienciaram não poderiam ser desfeitos, nem tão pouco esquecidos.

Cerca de 20 milhões não voltariam a acordar… e para outros 20 milhões, o pesadelo continuaria no resto das suas vidas. A Guerra deixaria marcas indeléveis, feridas na alma que alguns conseguiriam, com o tempo, deixar sarar. Outros não teriam essa sorte…

Perdidos nos Campos da Flandres

Os jovens que atingiram a idade adulta no período da Guerra pertencem a um grupo chamado de Geração Perdida. Com a caixa de Pandora aberta, e o fatalismo produzido pela experiência marcial, não podiam, senão, sentir-se sem direção.

Muitos dos que regressaram da Guerra foram recebidos como alienígenas, numa sociedade repleta de preconceitos e incapaz de lidar adequadamente com a saúde mental dos retornados. Incapazes de se reintegrar, acabavam assombrados pelos danos físicos, e especialmente psicológicos, da sua experiência nas trincheiras.

O shell shock surgiu na altura para designar uma série de condições relacionadas com a perturbação de stress pós-traumático. Refere-se aos bombardeamentos de artilharia constantes, no panorama da Guerra. A ansiedade e o desamparo que a artilharia produziu nos soldados acabava por se manifestar, a longo prazo, sob a forma de condições físicas e psiquiátricas incapacitantes.

Uma condição particularmente chocante é o thousand-yard stare, um olhar distante e desapegado, uma manifestação da apatia e dissociação revelada pelos soldados, como mecanismo de defesa contra o terror vivido diariamente.

Terrível Inspiração

Mas talvez seja mais produtivo e iluminador ter um relato em primeira mão do que uma descrição em segunda. Muitos artistas que combateram na guerra conseguiram recanalizar a sua dor e sofrimento, produzindo obras que relatam as suas experiências e exprimem as suas emoções.

Sejam as perturbadoras pinturas de Otto Dix, as arrepiantes memórias de Louis Barthas ou Ernst Jünger, as gritantes fotografias de Ernest Brooks, ou os arrebatadores romances de Erich Maria Remaque, Stratis Myrivilis ou Ernest Hemingway (tendo este último popularizado o termo Lost Generation).

Até mesmo o famosíssimo John Ronald Reuel Tolkien foi um combatente na Guerra, tendo muito do que viveu influenciado a sua obra-prima: The Lord of the Rings. Entre os paralelos que se parecem estabelecer nesta obra, temos o próprio Frodo que, regressado ao Shire, depois da experiência traumática que foi a viagem para destruir o One Ring, se vê incapaz de recuperar a sua antiga vida e rotina.

Admirável Mundo Novo

Apesar de toda esta tragédia, a Guerra também produziu profundas mudanças positivas na sociedade. O hiper-patriotismo e o fatalismo do final da Guerra, acoplados a extenso desenvolvimento económico e tecnológico, produziram uma onda de dinamismo cultural e social, e fascínio pelo novo e moderno, com grandes alterações nos estilos de vida e nas normas culturais.

O cinema, o teatro e o jazz tornaram-se populares, o consumismo e a praticidade tornaram-se a norma em todos planos da sociedade, as mulheres ganharam o voto… os Roaring Twenties tinha chegado… e acabariam em 1929, um ano mais cedo, com o Crash de Wall Street e a Grande Depressão.

A devastante queda económica mundial que se seguiu teve um profundo impacto social, e em alguns países contribuiria para a ascensão de certas correntes mais extremistas… mas já nos estamos a adiantar.

Radicais e Radicandos

Ainda a propósito de artistas, há também outros dois muito relevantes, talvez mais famosos do que qualquer um dos anteriores… que fizeram das suas experiências de guerra uma motivação que os levaria a enveredar por, e depois definir, a retórica do nacionalismo extremo, da intolerância e do ódio.

Um jornalista pacifista e socialista, e um pintor pacato, ainda que falhado. Radicalizados pela guerra, fizeram dos seus escritos Manifestos, e criaram uma nova e perigosa ordem política. Benito Mussolini e Adolf Hitler.

O que motivou estes dois, e muitos dos que os seguiram, foi, acima de tudo, o ressentimento (o mesmo que aquele delegado alemão no vagão de comboio sentiu ao assinar uma folha de papel, 100 anos atrás). Uma sensação de raiva e injustiça… e um desejo de vingança. Vingança que se materializaria 20 anos depois… os ecos da 1.ª Guerra Mundial, sentidos na sua irmã mais nova. Mais catastrófica.

Ainda restam muitas Questões…

O que radicalizou estes e outros homens? De onde veio tanta raiva e ressentimento? Fascismo, comunismo, anarquismo… estas e outras ideologias tornaram-se proeminentes após a Guerra – o que contribuiu para a sua ascensão? E o que podemos aprender com tudo isto?

António Velha, 3º Ano

Ilustração por Eduarda Costa, 5º ano

(continuação da 1ª parte a lançar na próxima sexta-feira dia 16 de novembro)