TAUROMAQUIA

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A tauromaquia tem-nos sido apresentada como ordem do dia, abrindo jornais televisivos, dando mote a diversas publicações, despoletando diferentes pontos de vista e sendo rastilho para as já habituais ácidas e intolerantes discussões patrocinadas pelas redes sociais.

Acredito que tudo tenha voltado a ser tema de conversa quando, no verão passado, no dia seis de julho, a Assembleia da República chumbou uma proposta do partido Pessoas-Animais-Natureza (PAN) que pretendia a abolição das corridas de touros em Portugal. O projeto teve os votos contra do Partido Social Democrata (PSD), Partido Socialista (PS), Partido Centro Democrático Social- Partido Popular (CDS-PP) e Partido Comunista Português(PCP) e os votos a favor do PAN, Bloco de Esquerda (BE) e Verdes. E o que pensam os portugueses? Entendo que estão divididos, opinião que acaba por ser corroborada através do anúncio dos (diria, caricatos) resultados do orçamento participativo português. Se não, vejamos, como projetos aprovados no concurso de âmbito nacional encontramos a proposta número 433, “Tauromaquia para Todos”, integrado na categoria “Cultura”, representando uma fatia de 50 000 euros, mas, para incitar e alimentar a discussão, também verificamos que foi aprovado o projeto número 761, “Portugal sem Touradas”, no domínio da “Educação, Desporto e Juventude”, com um investimento de 200 000 euros. O primeiro defende “a criação de um programa de difusão de informação e conhecimento sobre a cultura tauromáquica de Portugal”, já o segundo, pretende “desmistificar os princípios em que a atividade se autojustifica e contribuir para a construção de um pensamento crítico face à mesma no seio da sociedade portuguesa”. Sendo o orçamento participativo português “um processo democrático deliberativo, direto e universal”, esta escolha acaba por ser representativa da dicotomia de opinião do povo português e algo que tem por base objetivos que colidem.

A mais recente controvérsia sobre o tema, à data da redação deste artigo (e acredito que esta novela não acabará por aqui), é-me apresentada como mais uma “salgalhada parlamentar”. O Governo, através da proposta de Orçamento do Estado para 2019, propõe a redução do IVA de 13 para 6% para a maioria dos espetáculos, tendo como exceções o cinema, os espetáculos de música ao ar livre e as touradas, para as quais mantém os atuais 13%. O BE e o PAN, por recusarem as touradas, pretendem um IVA mais alto; o PCP, o CDS/PP, o PSD e, pelo menos uma parte, a própria bancada do PS, contrariando a opinião do primeiro-ministro, propõem a redução do IVA das touradas para os 6%. Toda esta “contenda” foi exacerbada quando, no debate do Orçamento do Estado para 2019, Graça Fonseca, atual ministra da Cultura, recusou a descida do IVA incidente sobre a tauromaquia de 13 para 6%, dizendo que “não é uma questão de gosto, é uma questão de civilização”. A juntar a estas polémicas, sendo também curioso mas incongruente, segue-se o facto do Governo manter a taxa reduzida para as prestações de serviços de artistas tauromáquicos e propor, para os ingressos nos espetáculos onde estes intervêm, o IVA a 13%.

Pessoalmente, não consigo conceber a redução do IVA para uma taxa inferior em espetáculos tauromáquicos do que, por exemplo, para assistir a um espetáculo de música ao ar livre, a realização de uma visita ao Jardim Zoológico, a um Aquário ou até a ida a uma consulta veterinária.

Quanto à discussão entre aqueles que defendem e os que recusam a corrida de touros “à portuguesa”, que inclui a atuação dos cavaleiros, pegas e toureio a pé, encontramos, fundamentalmente, como argumentos, por um lado, a defesa das corridas de touros enquanto elemento representativo da cultura portuguesa, a continuação da espécie do touro bravo que é usado quase exclusivamente em corridas de touros, a dinamização económica das regiões onde se promovem estes eventos, a melhor qualidade de vida que é proporcionada aos animais comparativamente aos que estão estabulados e a dignificação do touro, porque acreditam que, assim, atinge como que o apogeu da sua existência ao participar na tourada. Por outro lado, encontramos aqueles que defendem os direitos dos animais, lutando pela erradicação de qualquer atividade que põe em causa o bem-estar animal. Identifico-me com o segundo grupo. É inegável que a tauromaquia representa parte das nossas tradições, mas não me parece que possa ser entendida e defendida como parte da nossa cultura. Manter as touradas com o argumento de preservarmos as nossas tradições, a todo e qualquer custo, parece-me despropositado, assim como entendo que a cultura não poderá estar associada à violência gratuita infligida aos animais.

Sobre o argumento relativo à manutenção da espécie, admito que poderá ser difícil, mas se é tão característica do nosso povo, porque não promover a sua divulgação e valorização como achado autóctone? Desse modo, conseguir-se-ia mitigar ou contrariar as dificuldades económicas das regiões tipicamente tauromáquicas. Já quanto à qualidade de vida animal, não podemos escudar o fim miserável que é dado ao mesmo pela simples justificação da sua sobrevivência. Discutindo a alegada nobreza da luta entre os vários intervenientes das touradas, simplesmente não posso concordar que se trate de uma luta em que os opositores se encontram em pé de igualdade. Com efeito, o animal, naturalmente e por vontade própria não estaria ali, não lutaria e, certamente, não passaria por uma apertada, forçada e muito discutível forma de seleção artificial, onde são testadas tanto as qualidades de transmissão genética das fêmeas como a virilidade dos machos, entenda-se resposta agressiva a estímulos provocados por humanos.

A tourada não é um duelo, é uma luta desigual. Não é crível que o touro entrasse de livre e espontânea vontade dentro de uma carrinha transportadora, quisesse ser espicaçado ou ter os seus chifres embolados, bem como atravessar um corredor que, curiosamente, tem apenas uma saída, enfrentar uma arena ruidosa e luminosa (ou não), para depois ser enganado, provocado, espetado, magoado, esgotado e, possivelmente, abatido. Para mim parece-me óbvio o sofrimento do animal, sobrepondo-se este a qualquer outro argumento contrário. Vivemos no século XXI, num país com tantas e tão bonitas tradições das quais, enquanto Povo, podemos e devemos nos orgulhar, sendo, na minha opinião, dispensável e descabida a continuação desta tradição nos termos e condições em que se realiza atualmente.

Ora, como considero que nada melhor do que apresentar uma história verdadeira para poder ser representativa do ponto de vista de quem a defende, apresento-vos a minha. Quando criança, tinha por hábito ver, em família, sobretudo com o meu avô, as touradas que passavam na televisão. Ficávamos durante horas a fio entretidos, aproveitando para observar e comentar a prestação dos cavaleiros, forcados e de todos aqueles que participavam no que, à época, eu considerava ser um empolgante espetáculo. Com o avançar da idade, cresci e, claro, desenvolvi o meu sentido crítico, podendo dizer que hoje não compactuo com a manutenção do que se considera serem touradas “à portuguesa”, nas condições atuais. Por conseguinte e em coerência, defendo que aquelas devem ser erradicadas da televisão portuguesa. Não porque entenda que com o espectáculo se proporcione o aliciamento das crianças para a esfera tauromáquica, mas porque, ao contrário, podem ferir a sua sensibilidade e, sobretudo, pelo facto de, atualmente, não encontrar quaisquer argumentos que justifiquem o tratamento a que se sujeitam os animais.

Julgo que a realização das touradas à portuguesa, nas condições atuais, não se coadunam com aquilo que defendo como identitário do nosso Povo. Ainda assim, gostava que esta minha história pudesse servir de reflexão e discussão acerca do tema, como acontece dentro da minha própria família, mas nunca enquanto pretexto para alimentar o ódio, como, lamentavelmente, já o temos testemunhado entre quem defende e combate as touradas. Ou seja, também sobre este tema, é preciso mais tolerância.

Já agora, outro testemunho, após a reunião em que ficou decidido que escreveria um texto sobre a tauromaquia, rumei a casa. Era já hora de jantar. Durante a refeição, aproveitei para conversar com as minhas colegas de residência sobre como tinha corrido o meu dia e escutei o que me diziam sobre o seu. Já no final do jantar, deu-se uma grande coincidência, para quem acredita em coincidências, ou acasos, para os que neles não acreditam, quando uma das minhas colegas perguntou se podia mudar de canal televisivo, “passar para a RTP1”, porque ia dar a tourada. Fiquei perplexa com o pedido e manifestei-me contra as touradas organizadas nos moldes atuais. Revelei-lhes que, a propósito, iria escrever um texto sobre a tauromaquia. Trocámos ideias sobre o tema, designadamente o método de escolha das ganadarias, a eventual manutenção das touradas mas noutros moldes que não impliquem o sofrimento e morte do animal, manter a pega dos forcados, acabar com a lide a cavalo ou alterar a forma como é realizada atualmente. Sugeri, escutei, discordei e concordei. No final, as opiniões de umas não se impuseram às demais e, curioso, não chegámos a mudar de canal.

Quanto ao futuro, se me perguntarem se acredito que as corridas de touros irão acabar, respondo que não sei mas espero que sim, defendendo a minha perspetiva. Aliás, se em 1836 as touradas foram proibidas em Portugal, por Decreto, com o argumento de serem “um divertimento bárbaro e impróprio das nações civilizadas, que serve unicamente para habituar os homens ao crime e à ferocidade”, não vejo porque não poderão voltar a ser banidas.


Raquel Morgado, 2º ano

Ilustração por Carolina Daniel, 4º Ano

Transformers - Realidade ou Ficção

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Assim que soube que o Dan Brown tinha publicado um novo livro, apressei-me em arranjar forma de o ler. Sendo um dos meus autores preferidos, com uma capacidade fora do comum para criar suspense, elaborar plot twist inesperados e abordar temas controversos, Dan Brown tem uma enorme capacidade para nos prender às suas histórias e nos deixar a ler até altas horas da madrugada.

Sendo sincera, A Origem não é o melhor dos seus livros. Sendo ainda mais sincera, fiquei até ligeiramente desiludida com o mesmo. Contudo, aborda uma temática muito interessante: tecnologia vs espécie humana. A história retrata um super computador, Winston, com capacidade de pensar por si próprio e tomar decisões, entre inúmeras outras caraterísticas algo assustadoras para um computador. O criador de Winston, Edmund Kirsch, apresenta-nos ao longo do livro a sua fantástica teoria futurista que demonstra que, daqui a poucas dezenas de anos, irá acontecer uma de duas coisas:

  1. Ou a tecnologia irá eliminar a espécie humana…

  2. Ou a tecnologia e a espécie humana irão fundir-se numa só.

Fiquei a pensar nesta teoria futurista e pareceu-me algo ridículo que não houvesse outras opções para além destas duas. Certamente, a espécie humana pode imaginar um futuro sem a tecnologia… Ou não?

Entretanto, em meados de Outubro, saíram os resultados do estudo “Happy Kids: Aplicações Seguras e Benéficas para Crianças” do Católica Research Centre for Psychological, Family and Social Wellbeing (CRC-W), da Universidade Católica Portuguesa. Segundo este estudo, com 1986 respostas consideradas válidas dadas por pais, 51% das crianças com menos de 8 anos de idade utilizam aplicações. Para além disto, o estudo afirma que “As crianças mais jovens (0-2 anos) são as que mais usam apps, sobretudo porque estas são um valioso recurso para os pais as manterem entretidas fora de casa (ex. no restaurante) ou quando precisam de trabalhar em casa ou de fazer tarefas domésticas.”

Comecei a considerar tudo isto mais seriamente. Eu tenho primos mais novos a viver em Nova Iorque e em Moçambique que com 2 anos já sabem utilizar o skype e ligar aos meus avós. Eu presencio as chamadas que às vezes fazem, à revelia dos pais. No pouco que convivo com os meus primos americanos, vejo que são completamente viciados em jogos no tablet e que, aos 2 anos, sabem utilizar este instrumento melhor que eu, que tenho 10 vezes a idade deles. Como será que irão os meus primos evoluir no futuro? E as restantes crianças?

Nas últimas décadas, temos assistido a uma evolução  da tecnologia acompanhada de melhorias na nossa qualidade de vida como nunca antes se tinha assistido. Todavia, a nossa dependência pela tecnologia no dia a dia não só aumentou exponencialmente como o fez de forma sorrateira. Aos poucos, estamos a viver em simbiose com a tecnologia e nem nos apercebemos. Será que a teoria futurista de Edmond Kirsch não é tão ridícula assim? Irá a tecnologia vencer-nos? Ou seremos nós a juntar-nos a ela?


Inês Abreu, 4º ano

Ilustração por Sofia Pessoa Jorge

De Cigarro Aceso

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Vejo-a sentada na mesa do canto do café e sei que me vou apaixonar. Está com um caderno à sua frente, a escrevinhar alguma coisa que anseio ler e, de vez em quando, levanta a cabeça e encosta-se à cadeira para pensar. Na realidade, não parece pensar em absolutamente nada, parece apenas pausar um vazio para se ocupar de outro.

Não quero que repare que estou aqui há mais tempo do que devia, pelo que saio e volto a entrar, dirigindo-lhe um aceno casual, ao qual imediatamente me responde com um sorriso e um aceno da mão que segura gentilmente o cigarro aceso. Desta vez não me convida para sentar, pelo que pego no copo e saio.

Ainda me lembro quando me prometi que não ia ceder aos seus encantos… quando ma apresentaram, só conseguia concentrar-me nos seus olhos e no quanto desejava perder-me neles, sabendo que seria um erro. Mas, em vez de ouvir a voz da razão, lá me deixei cair no poço interminável que é a paixão.

Não a percebo. Talvez por isso ela me tenha na palma da sua mão.

Quando chego a casa, pergunta-me porque não me juntei a ela, mas há uma semana fi-lo sem convite e limitou-se a virar a cara e a mandar-me embora…

Mais um dia, combinamos encontrar-nos no sítio habitual. Chego à margem do rio uns minutos antes, porque sempre gosto de a ver chegar. Cabelo ao vento e a olhar para o chão, apaga o cigarro mas prepara logo o seguinte. Detesto que o faça. Olho para as costas dela e vejo uma mochila, pelo que sei que trouxe vinho a mais, como sempre, mesmo que lhe tenha pedido que pare de o fazer.

Senta-se ao meu lado, sem uma palavra, e abre a primeira garrafa. Quando ma oferece, já vai a meio. Reparo nas nódoas negras nas pernas dela e tento não dar a entender que me preocupo, porque sei que ela não gosta. Quer que a deixe ser um furacão em paz.

Tem os olhos vermelhos, de novo. Esteve a chorar. Mas sorri quando vê o fumo branco sair da sua boca e segue-o com o olhar. Tão simples.

Pergunto-lhe o que estamos ali a fazer, mas ela manda-me calar num sussurro e deita-se a olhar o céu.

Toco-lhe no cabelo. Não diz nada, pelo que continuo. A minha mão desliza pela pele dela e demora-se em cada recanto. Repouso-a no seu pescoço. Continua sem dizer nada, pelo que continuo. Sinto a seda do seu casaco e afasto-o do caminho, deixando os meus dedos envolver-lhe a cintura. Aproximo-me e obrigo-a a encarar-me. Reparo nas flores brancas que saem da mochila, mas não ligo. Deixo a minha mão sentir a pele dela e sinto a sua respiração mais forte, impaciente.

Sem aviso, puxa-me para ela e beija-me como se nunca mais me fosse ver. Sinto o calor dela junto a mim e prendo-me a este momento. Sinto o sabor a vinho e incomoda-me, mas não digo nada, bem como finjo não cheirar o tabaco. Nenhum destes vícios me pertence, porque o meu único vício é ela.

Afasta-me repentinamente e senta-se de costas viradas para mim. Já sabia. Murmura qualquer coisa e levanta-se. Eu limito-me a sentar-me, calmamente, e a reparar que a garrafa já está vazia. Reparo que começou a chorar e sei que quer que me vá embora, mas não vou. Abraço-a com força, combatendo a sua vontade de me bater até ela se agarrar a mim e se esconder no meu casaco. Parou de chorar claro, nunca choraria à minha frente. Não lhe pergunto se está bem, porque sei que me vai ignorar, por isso limito-me a ficar ali até ela me virar costas e ir embora.

Vejo-a a afastar-se e, por um momento, desejo decifrar o enigma que ela é, mas depois recordo-me que não me importo de ser usado por ela e que talvez um dia ela faça sentido. Bem sei que amanhã a vou ver sentada no café e me juntarei a ela, quer ela me convide ou não, e sei que ela estará a fumar para morrer.

Mas o que eu não sei é que foi a última vez que a vi. O que eu não sei é que devia ter prestado atenção às flores.

Por tudo isto, limito-me a murmurar:

“Até amanhã, Alaska.”


Raquel Moreira, 2º ano

Ilustração por Susana Xu, 3º Ano

Europa e as Migrações: Um conto Medieval

Longe vai o tempo em que se celebrava o resgate de pessoas no mar e se chorava pelas vidas perdidas. Agora, 5 anos depois do naufrágio que matou 368 pessoas em Lampedusa e que gerou indignação geral, o mundo olha indiferente para as mortes que a europa está a provocar no alto mar.

Naqueles tempos não existiam tantas missões de salvamento, por isso o choque de Lampedusa levou o Governo italiano a lançar a Operação Mare Nostrum. Durante o ano de 2013, 150 mil pessoas foram resgatadas pela marinha italiana, que tinha aeronaves e navios de guerra à sua disposição. Mas a operação era demasiado custosa para um só país, e os restantes membros da União Europeia não quiseram fornecer o apoio financeiro para a manter. Assim esta grande e bem sucedida operação de salvamento foi substituída em 2014 por outra, cujo orçamento era 3 vezes menor. Reduzida a área operacional, aumentou dramaticamente o número de mortos.

Como resposta a esta negligência total por parte dos países da união europeia, várias Organizações Não Governamentais (ONG), reuniram esforços e recursos, compraram embarcações e fizeram-se ao mar com uma missão em mente: salvar vidas.

Desde 2015 estas pequenas organizações, que funcionam à base de doações privadas e de serviço voluntário, conseguiram resgatar cerca de 110 mil pessoas. A título de exemplo, a organização Jugend Rettet criada por jovens de Berlim conseguiram comprar um navio de pesca, o Luventa, e adaptá-lo para missões de salvamento; a Sea Watch outra ONG alemã possui 3 embarcações e um pequeno avião para realizar vigilância aérea; a Proative Open Arms, uma ONG espanhola que começou por resgatar refugiados na Grécia e que agora tem embarcações no Mediterrâneo Central para além de realizar campanhas de sensibilização para os perigos das migrações nos países de origem e finalmente o Aquarius, da SOS MEDITERRANEE que em parceria com a Médicos sem Fronteiras, salvou perto de 30 mil refugiados e imigrantes desde que iniciou as operações no início de 2016.

Infelizmente a história não acaba aqui, em 2017 o governo italiano estabeleceu um acordo polémico com a Guarda Costeira Líbia para que estes intercedam todas as embarcações antes de estas chegarem às águas internacionais. No entanto, a Líbia não é um país seguro para alguém regressar nem a guarda costeira é competente para lidar de forma humana com os refugiados. Todos os dias chegam relatos cada vez mais negros do que se passa nos campos de detenção líbios, onde pessoas são obrigadas a telefonar aos familiares a exigir dinheiro para pagar a sua liberdade, ao mesmo tempo que são agredidas e violadas, como forma de chantagem. Homens, mulheres e centenas de crianças encontram-se nestas condições. Os que não conseguem arranjar dinheiro, sofrem torturas intermináveis e são vendidos como escravos para fazer todo o tipo de trabalhos forçados e eventualmente lá morrerem. Uma reportagem da CNN em 2017 filmou um destes leilões de tráfico humano, mostrando uma realidade que a União Europeia, embora já tivesse conhecimento dela, nada fez para a combater, antes pelo contrário são os Estados-Membros que financiam a manutenção destes campos de detenção. É preciso entender que pagar a criminosos para que mantenham os migrantes em condições desumanas é a política de eleição da União Europeia para lidar com o influxo migratório dos refugiados. O objetivo é muito simples, colocar as maiores humilhações nos ombros dos migrantes e dos refugiados, de forma a impedir que eles tentem cá chegar. Criando assim à nossa volta um escudo da vergonha, ou seja, enviamos milhões de euros para países periféricos, como a Turquia, o Egipto, a Líbia e Marrocos, para aumentarem a vigilância e a repressão junto das fronteiras europeias, e não nos importamos se isso causa abusos e violações de direitos humanos.

Curiosamente esta política também inclui medidas dentro da própria Europa. Por exemplo como é que se explicam as condições miseráveis a que os refugiados, sírios, afegãos, iraquianos estão, ainda hoje, sujeitos nos campos de refugiados na Grécia? Como é que é possível na Europa, o continente mais rico e desenvolvido, se permita a existência de um campo de refugiados que leva crianças com 10 anos de idade a tentarem o suicídio? Como é que um campo de refugiados no Uganda tem melhores condições de vida que o de Mória na ilha de Lesbos? Subitamente a Europa não tem dinheiro para fornecer alguma dignidade a estes refugiados em específico? Acabou-se o dinheiro? Não, claro que não. A questão fundamental é em o que é que nos tornámos? Nós decidimos colocar pessoas, já fragilizadas pela guerra, pela perseguição e pela miséria, e que pediram a nossa ajuda, em condições ainda mais traumatizantes, como se elas tivessem cometido algum crime. Isto demonstra uma tremenda falta de solidariedade e empatia, representando apenas o ódio e o desprezo que temos pelos outros.

Mas pior ainda que não ajudar as pessoas é impedir que outros o façam. E isso leva-nos de volta ao mar Mediterrâneo, onde está em curso uma nova campanha de dissuasão da migração, que será ainda mais violenta que as anteriores. Tudo começou com notícias falsas e teorias de conspiração que diziam que a ajuda humanitária favorecia a migração ilegal. Isto é completamente falso e perigoso, falso porque as pessoas continuam a vir mesmo sem alguém lá para as salvar e, perigoso porque coloca a possibilidade de deixar morrer as pessoas no mar. Mas, alguns políticos europeus não vão de mão dada com os factos e muito menos com os direitos humanos, por isso decidiram usar os migrantes e aqueles que os salvam como bodes expiatórios dos seus problemas só para ganharem votos facilmente. Iniciaram uma purga às Organizações Humanitárias que trabalham no Mediterrâneo, em Itália com um processo judicial contra o Iuventa e os seus tripulantes incluindo um voluntário português e, na Grécia com a prisão de voluntários da Emergency Response Centre Internacional. Aqui e ali surgiram processos legais contra diferentes ONGs forçando-as a parar operações. O próprio Aquarius viu a sua bandeira ser retirada por Gibraltar e pelo Panamá, alegadamente por pressões italianas, impossibilitando futura navegação marítima. Como refere e bem Nelke Manders, diretor geral da MSF que operava o navio Aquarius - “Não só a Europa falhou em providenciar recursos de busca e salvamento, como também sabotou ativamente a tentativas de outros de salvar vidas.” Chegou ao ponto de os abandonar depois de serem salvos, como o Sea Watch que está à espera há 17 dias no mar alto que um país europeu se decida a acolher as 49 pessoas que tem a bordo. São atitudes cobardes e vergonhosas como estas, defendidas abertamente pela extrema-direita de Mateo Salvini e Victor Orban mas silenciosamente aceites pelos restantes estados-membros da União Europeia, que estão a matar os migrantes no Mediterrâneo.

As Nações Unidas referem que a taxa de mortalidade no Mediterrâneo é agora tão alta como no pico da crise em 2015. Tendo chegado a morrer 2242 pessoas que tentavam chegar à Europa por mar em 2018.

As soluções são complicadas, mas devíamos exigir o regresso de grandes operações de resgate como a Mare Nostrum, ou no mínimo deixar as agências humanitárias fazerem o seu trabalho, que é de louvar. Fundamental seria mesmo promover a existência de rotas seguras, pontes aéreas, visas humanitários, para que as pessoas não precisassem de correr riscos desnecessários para procurar asilo. Devíamos também investir nos países de origem promovendo a segurança, a estabilidade, a paz, criando assim oportunidades para os seus habitantes, em vez de lhes vender armamento, construir muros cada vez mais altos e pagar a criminosos para vigiarem violentamente as nossas fronteiras.

Podíamos fazer isso tudo mas para o alcançar precisamos de votar nas eleições Europeias e Legislativas deste ano, e exigir dos governantes eleitos a defesa incondicional dos Direitos Humanos. Agora uma coisa é certa, se começarmos a achar que a morte em massa de minorias indesejadas é algo aceitável, então podemos estar a caminhar para um futuro semelhante a um passado que foi extremamente violento para a Europa e para o mundo. Mas acredito, e espero, que agora que somos livres não voltaremos atrás.

Ricardo Sá, 4º Ano

Ilustração por Ricardo Sá, 4º ano

Referências Bibliográfica

https://www.nytimes.com/interactive/2018/12/26/opinion/europe-migrant-crisis-mediterranean-libya.html

https://www.msf.org/aquarius-forced-end-operations-europe-condemns-people-drown

https://www.euronews.com/2018/07/04/european-migrant-rescue-ngos-stuck-on-dry-land-amid-political-crackdown-

https://fumaca.pt/miguel-duarte-esta-investigacao-e-absolutamente-politica-o-objetivo-nao-e-prender-nos-e-parar-o-resgate-maritimo/

http://missingmigrants.iom.int/region/mediterranean

https://pulitzercenter.org/reporting/libya-nearly-there-never-further-away

https://www.euronews.com/2019/01/04/we-are-not-fish-migrants-stranded-at-sea-grow-frustrated

Sobre os ombros destes gigantes, o fim da violência sexual estará mais próximo

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5 de Outubro de 2018, o dia em que o  Comité de Oslo atribuiu o Prémio Nobel da Paz ao médico congolês Denis Mukwege e à activista iraquiana Nadia Murad «pelos seus esforços para acabar com o uso da violência sexual como arma de guerra e conflito armado», dado o seu papel crucial tanto na consciencialização como no combate a tais vis crimes.

Dados os rumores da possibilidade de se ter incluído uma terceira pessoa ligada ao movimento #MeToo nos premiados, e sobre o timing desta escolha, visto que Denis Mukwege é presença assídua na shortlist de nomeados ao Nobel, Berit Reiss-Andersen, Presidente do Comité, justificou a sua decisão com o assinalar dos dez anos da assinatura da Resolução 1820 do Conselho de Segurança das Nações Unidas. Sim, é mesmo verdade, só há uma década é que se considerou pela primeira vez o uso da violência sexual como arma de guerra, um crime de guerra.

Desde 1901 (o primeiro ano que se entregou o Prémio Nobel da Paz), e após 106 premiações (em 19 ocasiões não foi entregue), foi a vigésima segunda vez que se laurearam duas pessoas, mas apenas a quinta vez em que essa dupla foi um homem e uma mulher. Mas quem são mesmo estas duas figuras? Comecemos pelas senhoras.

Nadia Murad é membro da minoria étnica Yazidi, uma minoria que habita o Norte do Iraque. Nadia tinha o sonho de ser cabeleireira. Vivia com a sua família na remota vila de Kocho quando, em Agosto de 2014, aos 21 anos, foi raptada pelo Estado Islâmico. Na altura, o Islamic State of Iraq and Syria (ISIS) tentava exterminar os «infiéis» Yazidis da face do Mundo. Grande parte das vilas no distrito de Sinjar foram massacradas, e os poucos que sobreviveram, crianças, mulheres, como Nadia, foram raptados e mantidos em cativeiro como escravos sexuais.

Nadia foi repetidamente violada por membros do grupo. Frequentemente ameaçada com a execução se não se convertesse a esta versão mais negra do Islão. Esta era a estratégia por parte destes soldados, no sentido de a transformar numa arma contra os seus, ou contra outras minorias religiosas. Estima-se que Nadia Murad foi uma das 3000 Yazidis que foi vítima de abusos por parte do Estado Islâmico, até aos dias de hoje.

Três meses depois do rapto, conseguiu fugir para um campo de refugiados, e daí foi para Estugarda, na Alemanha, num programa de asilo para Yazidis. Desde então, tem sido a porta-voz dos mesmos, e partilhado com o Mundo a sua dor, a dor de muitos. O relato de muitas noites de terror pode ser lido numa entrevista dada em 2016 ao Jornal Expresso. O seu trabalho como activista de alertar para o problema da violência sexual como arma de guerra tem sido fulcral. Em Setembro de 2016, apenas com 23 anos, foi nomeada “Embaixadora da boa vontade das Nações Unidas para a defesa da dignidade das vítimas de tráfico humano”. Vale a pena ler seu livro “Eu serei a última” e ver o documentário biográfico “On her shoulders” dirigido por Alexandria Bombach sobre a sua vida.  Foi galardoada com o Prémio Sakahrov em 2016.

Nadia Murad, a décima sete mulher na história a receber o Nobel da Paz. A mulher que «recusou-se a aceitar os códigos sociais que exigem às mulheres», que afirmou que «se receber o Nobel, recebê-lo-ei de coração partido». A mulher que teve a bravura, a coragem, de não ficar calada, pela vergonha, e que conseguiu contar a sua história e falar em nome de outras vítimas

Seguimos para Denis Mukwege. É importante realçar que o Dr. Denis Mukwege foi apenas o terceiro médico, na História, a ser galardoado com o Nobel da Paz, depois de John Boyd Orr (1949) e Albert Schweitzer (1952). Contudo, não é de só menos referir que algumas instituições como os Médicos Internacionais para a Prevenção da Guerra Nuclear (1985) e os Médicos Sem Fronteiras (1999) também foram laureadas. Voltemos à história deste médico ginecologista.

O Dr. Denis Mukwege passou largos anos da sua vida a ajudar mulheres que foram violadas em grupo no seu país, a República Democrática do Congo (RDC), um infeliz fenómeno recorrente desde o início da Segunda Guerra do mesmo. A RDC é um dos países mais perigosos no Mundo para se ser mulher, tendo sido apelidada pelas Nações Unidas de “capital da violação”. Estima-se que são violadas 48 mulheres por hora, desde 2011. No Hospital Panzi, fundado por Denis, mais de 50 mil mulheres vítimas de violência sexual foram tratadas desde 1999. Este, chegava a fazer 10 cirurgias por dia.

O Dr. Denis tem vindo a condenar e criticar, repetidamente, o seu governo, o governo Congolês, mas também o de outros Países pelo clima de impunidade que os violadores vivem e pela inércia no combate a estes crimes sexuais. Um dos seus princípios basilares é que «a justiça deve ser uma preocupação de todos, e não só de alguns». A sua resiliência tem sido admirável, pelo que Mukwege é considerado «o símbolo mais unificador, tanto nacional como internacionalmente, no combate à violência sexual na guerra e nos conflitos armados». Já foi galardoado com os prémios Olof Palme (2008), Sakharov (2014) e Calouste Gulbenkian (2015).

Os premiados do Nobel da Paz deste ano espelham firmemente os critérios expostos no testamento de Alfred Nobel - o Dr. Denis Mukwege e a ativista Nadia Murad colocaram em risco sua segurança pessoal de forma a combater corajosamente os crimes de guerra, procurando justiça para as vítimas dos mesmos; promovendo desta forma a fraternidade das Nações através da aplicação dos princípios do direito internacional.

Quem é forte com os fracos, acaba por ser fraco com os fortes, mas não eles. Mukwege e Murad ficarão na história não apenas pelo Prémio Nobel, mas pelo que fizeram, como agiram, dia após dia. Deram a todos nós um grande exemplo de humanismo e de bravura, travando duras batalhas contra os poderes instituídos, contra a ignorância opcional, enfim, contra o pior lado do ser humano. Desta forma, e tal como Brecht escrevia, “tornaram-se imprescindíveis, através da sua incessante luta, e isso é o que os fará imortais”…

António Lopez

Ilustração por Valentim Rodrigues

Referências bibliográficas:

https://www.nobelpeaceprize.org/The-Nobel-Peace-Prize-2018 (consultado dia 15/10/2018)

https://observador.pt/seccao/cultura/premio-nobel-cultura/nobel-da-paz/ (consultado dia 18/10/2018)

http://visao.sapo.pt/actualidade/mundo/2018-10-05-Nobel-da-Paz-para-medico-e-ativista-pelos-seus-esforcos-para-acabar-com-a-violencia-sexual-nos-conflitos-armados (consultado dia 18/10/2018)

https://observador.pt/2018/10/05/se-receber-o-nobel-recebe-lo-ei-com-o-coracao-partido-nadia-murad-a-jovem-yazidi-que-partilhou-a-sua-dor-com-o-mundo/ (consultado dia 18/10/2018)

https://observador.pt/2018/10/08/nobel-da-paz-nadia-murad-insta-comunidade-internacional-a-juntar-se-a-sua-luta/ (consultado dia 18/10/2018)

https://www.nytimes.com/2018/10/18/movies/on-her-shoulders-review.html (consultado dia 18/10/2018)

https://observador.pt/2018/10/05/este-nao-e-um-problema-so-das-mulheres-e-um-problema-da-humanidade-denis-mukwege-o-medico-que-sara-os-corpos-e-tenta-aliviar-as-almas/ (consultado dia 20/10/2018)


Gestão e Saúde: duas realidades sobreponíveis?

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Contextualização: introdução da problemática

Com quase 40 anos, o Serviço Nacional de Saúde tem vindo a mostrar o seu valor na oferta de cuidados de uma forma universal. Contudo, existem muitas questões que se prendem com a sua acessibilidade e equidade. É neste sentido que se torna de maior importância a sua gestão equilibrada através de políticas de saúde e, de uma forma mais particular, a gestão adequada das instituições de saúde e do seu financimento.

Tomando isto como ponto de partida, apercebemo-nos das perspetivas divergentes que podem surgir neste contexto. De um lado, existe o Estado como entidade reguladora, função à qual acresce a responsabilidade pela alocação de recursos que permitam um olhar para o futuro, para uma população com melhores indicadores de saúde. Num outro, as Administrações das Unidades de Saúde, que pretendem eficácia e eficiência, procurando gerir o seu orçamento na tentativa de prestar melhores cuidados. Por último, a população, que é a razão pela qual todos iremos trabalhar, e que muitas vezes acaba por ser esquecida, que pretende ver as suas expetativas satisfeitas, independentemente dos gastos que estas representam.

Sendo assim, este texto surge como uma tentativa de consciencialização para a realidade vivida na saúde em Portugal, contexto este que teremos de enfrentar a partir do momento em que passarmos a constituir uma equipa clínica ou, de forma alternativa, encararmos esta temática de um ponto de vista mais macro, por via da saúde pública.

Níveis de gestão

Em saúde, distinguem-se três patamares de gestão: Políticas de Saúde, Unidades de Saúde e Clínica.

Com certeza, percebemos a diferença que podemos fazer ao nível da clínica. Melhores decisões logísticas e terapêuticas terão de ser tomadas no sentido de garantir um benefício individual para o doente que se encontra diante de nós. Ainda assim, não podemos obliviar as necessidades de todos os outros doentes que esperam por tratamentos semelhantes. Assim, a nossa obrigação é ter conhecimento, do ponto de vista financeiro, do que representa cada ato médico, e ponderá-lo cada vez que o prescrevemos (embora se possam questionar se isto não nos desvia da conceção puramente médica da medicina).

Contudo, numa alternativa não muito explorada, existe a possibilidade de fazer a diferença a um outro nível. Os cargos de administração hospitalar tendem a ser ocupados por profissionais com formação de base em gestão. Todavia, é clara a falta da componente médica nos seus currículos. Neste sentido, perguntamo-nos (ou eu pergunto-me) de que forma pode existir gestão em saúde sem o conhecimento do valor do doente, das suas necessidades reais.

Por outro lado, o mesmo seria contestado se um médico ocupasse estes lugares sem que tivesse em sua posse conhecimento dos princípios básicos de economia ou gestão.

Masters in Business Administration (MBA) como formação complementar

É desta forma que introduzo uma possibilidade no percurso académico de um estudante de Medicina.

Nos Estados Unidos da América, são cada vez mais as universidades com esta preocupação, e é com isto que justificam a criação de um double-degree que combina, ao longo de cinco anos, o curso de Medicina e um MBA.

A ideia por detrás deste conceito não seria que os médicos se afastassem da prática clínica. Ao invés disso, seria uma tentativa de capacitar o profissional de saúde a lidar com os aspetos económicos que se relacionam com a sua carreira. Ainda assim, muitos são os que decidem subir na escada de tomada de decisão e procurar um lugar no executivo das instituições de saúde.

Infelizmente, um entrave é colocado no contexto português. Não existe nenhuma instituição que ofereça esta formação conjunta, o que obriga à difícil tarefa de conciliar os dois cursos ou, em alternativa, a sua realização em diferido. Apesar de tudo, esta é uma decisão que vem a ser tomada por um crescente número de profissionais de saúde, que veem esta possibilidade como um meio de alcançar novas oportunidades no mundo do trabalho.

Perspetivas e Considerações Finais

A admissão do médico na gestão é um passo importante e com ele espera-se uma modificação nos princípios de organização e gestão dos serviços em saúde, colocando o doente como ponto central de um sistema, atualmente focado em números e no retorno do investimento.

Embora esta atitude possa parecer um desfoque do papel estritamente médico, os estudos que têm vindo a ser feitos apontam para uma melhoria dos cuidados de saúde quando as cadeiras nos conselhos de administração são partilhadas com médicos-gestores. E é com esta perspetiva que iremos avançar, de forma a tornar o Serviço Nacional de Saúde um sistema cada vez mais eficaz, almejando a perfeição inatingível que caracteriza a sempre insatisfeita espécie humana.

Miguel Palas, 4º Ano

Ilustração por Ricardo Sá, 4º ano