POETAS DE ESTETO NA MÃO | Trevo de Quatro Folhas


Se o trevo de três folhas nasce 

Em qualquer hora e qualquer lugar,

Hoje planto um trevo de quatro folhas

Que sou eu que decido quando quero mudar.


Amanhã regarei com o meu próprio suor

Este rebento da terra que traça o meu destino.

Mais ninguém o poderá fazer

Que o sonho é meu, e é clandestino.


A sorte somos nós que a fazemos,

Raramente é ela que nos aparece.

Por isso, hoje planto este trevo

E no futuro tantos mais quantos me apetece.


Trevo de quatro folhas,

Foi hoje que decidi que não és especial.

Foi nesta data que decidi

Que vais ser um de muitos no meu quintal.

Autora: Filipa Dias

Edição de Imagem: Guilherme Luís

POETAS DE ESTETO NA MÃO | Desabafo de uma Feminista

Queria batalhar 

E acabei vencida

Tão iludida!

Nada desejava mais que celebrar

O meu, o teu, o nosso dia!

E acabei a desejar o amanhã triste,

O fim deste dia que já não sentia meu.


Em vez de lutar, sair à rua,

Chorei em casa, confinada.

Em companhia,

Mas no fundo tão sozinha.


Acabei por me esquecer do verdadeiro significado do dia.

A esperança de um dia acordar e ser diferente.

O conhecimento de que não estou sozinha.

O pensamento e memória de todas as mulheres

Que como eu se sentem sem voz!

Silenciadas, mas nunca caladas!

De todas as mulheres que lutaram, que lutam e que lutarão.

E que o único crime, hoje, é desistir.

Acordei feliz, corajosa 

Com desejo de lutar pela história,

Deixar as minhas antecedentes orgulhosas,

Com a urgência de fazer algo,

Contribuir,

Deixar o mundo a sorrir...


O meu desejo ficou por aí:

Um sonho.

Mais um dia em que nada mudou.

Mais um dia em que à espera de entendimento

Encontrei nada que não conflito…

Emburrecimento do espírito.


Saboreei a chapada dos ignorantes, 

Dos mal intencionados,

Dos(as) conformados(as)...

E, por momentos, também eu desisti.


Dececionada fiquei.

Isolada.

Quebrada a bolha de expectativas,

Do entendimento do mundo.

(Que no fundo pensei ser 

talvez absoluto?)

Autora: Sofia Bártolo

Edição de Imagem: Guilherme Luís

ÂNSIA CRÓNICA | Há Vultos Debaixo da Escada

Há vultos debaixo da escada, da escada da minha inconsciência.

Há sombras de memórias que nunca foram, cicatrizes de dores que só pensei, que gritam como gatos, os habitantes de sempre de debaixo das escadas. Das escadas das cidades de outros, cheias de casas com outros, os degraus que nunca calco, degraus de outras escadas, escadas duras, concretas, reais. Cinzentas, como que numa mostra redundante da sua realidade.

Mas esta escada de nada de real só liga o andar do sonho ao do pesadelo. Os seus degraus são feitos da matéria da mente, da que se enrola pelos fundos escuros, que se deixa ficar à margem das vozes dos sensos, bons ou maus, que não se mexe a menos que lhe mexa. E nunca lhe mexo. É cinzenta, mas perde-se no escuro dos arredores. E os ares em redores são de sombra, não de ruas iluminadas, não de passeios calçados, terra corrida por novelos de pés, estradas resmagadas por enredos de rodas. É cinzenta só como o resto da dormência mental. É cinzenta, é. Mas não é real.

Se fechar os olhos por muito tempo, e eles rodarem para trás, de cansaço e desistência, vejo a escada no lado oposto do crânio, parada, à espera de um holofote que a ilumine na sua metáfora. Mas os sítios que não estão nos mapas não precisam de sol, nem de lua, são estrelas de um filme sem graça que se desgraça num cinema de esquina que tresanda a abandono e a passado. Estas são as ruas da nudez, da palidez doente, da morte que ainda respira. E ruas destas não brilham. E ruas destas atingem-nas sangue e balas, recheadas de desprezo e nojo. Mas não fotões.

O passado passa por baixo das minhas escadas, lança mãos decadentes para as ilhargas sós. E quando os vultos debaixo da escada têm fome, os vultos engolem memórias. Depois, os vultos cospem breu e gritam sombras ensurdecedoras. E o som é como um tiro, e abro finalmente os olhos, alerta. Desperta! Se o sono é de medo, desperta!

Alerta, mantenho-me lerda para a lenta morte a que voto a escada, a minha escada. Caíram pedras, o corrimão cedeu. Os abutres voam acima, os vultos escondem-se debaixo. E continuo a sorrir, ignorante, sabedora de que é a única solução.

Que não há procura que volte a transformar o soluço em mais que ar rápido goela abaixo. Seco, poluído, só ar.

Que não há antídoto para que o abraço volte a saber a mais que aperto que vem e vai, deixando uma nódoa negra, de recordação suja. Fraco, frio, só aperto.

Que não há poção, feitiço ou reza que traga beijo ao calor e pressão de outros lábios no frio defunto dos meus. Suado, profano, comprado.

Debaixo da minha escada, vivem vultos.

Debaixo da minha escada, encontram morada interna os infernos de todas as falhas e faltas.

Debaixo da minha escada, está todo o lixo que varri e afoguei. Os átomos que um dia foram animados decaem, as pessoas despedem-se, viajam para expedições no subsolo e não voltam mais. As flores que lhes damos trazem só abelhas. E o lixo que vou sendo traz só vermes.

Ver-me verme, enfim, quando eles, com as bocas viscosas e sedentas, levarem todo o silêncio senil. Ei-la, esta, a vida eterna!

O reino dos réus! 

Quando vieres ressuscitar os vivos e os mortos, eu ficarei com os que não sabem que não sabem decidir!

Autor: Ana Fagundes - 2º Ano

Ilustração: Felipe Bezerra - 4º ano

ÂNSIA CRÓNICA | No Subúrbio da Esperança

Pergunto-me qual será a sensação de ter a Terra a tremer e a única estabilidade que nos mantém fixos a um solo trémulo ser a esperança.

Pergunto-me qual será a sensação de toda uma vida construída ser abanada por um fado atroz.

Pergunto-me como alguém se reconstrói quando perde tudo mas tem a esperança que a Terra não voltará a tremer.

Pergunto-me tudo isso enquanto o Mundo treme... de medo, de incógnitas altamente destrutivas. 

Sinto o Mundo colapsado na revolta e no desânimo. 

Sinto o Mundo exausto e sem qualquer esperança dum futuro com liberdade.

Mas seremos realmente livres? 

Vivemos encurralados num Mundo de preconceitos, de segregações. 

Vivemos num constante subúrbio, em que a Vida está na cidade mas nunca temos coragem de apanhar o comboio para a vivermos realmente então vivemos naquilo que ela nos vai restando. 

E quando tudo acaba, quando a Vida acaba, ficamos como? Ficamos assim.

Autora: Carolina Malta Gomes

Fotografia: Beatriz Francisco

Edição de Imagem: Felipe Bezerra

POETAS DE ESTETO NA MÃO | As Fúrias


Que fúria sinto ao ver o sol se ascendendo perante o céu; lágrimas desbotadas no calor do firmamento! Nos intróitos da memória, encontro um lugar em que o sol me foi triste, mas não tanto. Reencontro nessa terna infância os prazeres de ser-me humano.

Mas a fúria... Oh esta raiva...

Vísceras entornando sobre o solo e nelas vejo o tom vermelho com que pinto a minha ira. Choco versos do topo dos pulmões e atinjo-os na garganta p'ra que morram sem falar. 

Algo nessas ideações me sugere a violência do nascimento, os gritos da mãe no parto. Seus órgãos expandidos ao limite do incompreensível; e como poderia o homem entender essa loucura de ser mãe, de ser um criador de vidas na Literatura da Vida, nomeando seus homúnculos como Adão embebecido, e a espairecer nas nuvens tal a Virgem do Sem-Pecado?

Como poderiam os vórtices do universo

entender o próprio cosmos...

Rege nos sonhos um jazigo de inquietude; e se me levanto de manhã, é para fazer alguma coisa, que a vida jaz finita. As insónias que me atormentam... os prazeres de um desbocado...

que só vive

o seu calor.


Autor: Tiago de Sousa

Ilustração: Inês Hermenegildo

Edição de Imagem: Guilherme Luís

CONTRACORRENTE | Os Extremos Tocam-se?

SIM

 

Na política, um partido encontra-se algures no eixo esquerda-direita. De modo geral, a direita política defende autoridade, hierarquia, ordem, dever, tradição, religião e nacionalismo; baseia-se no passado e exige responsabilidade individual. Do outro lado, a esquerda luta por liberdade, equidade, fraternidade, progresso e internacionalismo; foca-se no futuro e defende a liberdade individual.

Após os crimes hediondos contra a humanidade na 2ª Grande Guerra, os regimes de extrema-direita são apontados como o pior exemplo da espécie humana. Além disso, os partidos de extrema-direita que sobreviveram ou nasceram desde então são comuns e bastante vocais, disseminando uma retórica baseada em xenofobia.

Os partidos de extrema-esquerda, por sua vez, são mais aceites pela população em geral no mundo ocidental, porque a sua retórica defende os direitos do povo, os 99%, que são esquecidos pela classe governativa.

Porém, em ciência política, há uma teoria que defende que os 2 extremos esquerda-direita estão mais próximos um do outro do que estão do centro. Assim, o espectro político não é um eixo, mas sim uma ferradura. 

Os extremos, pela sua própria natureza, são aceites apenas por uma minoria da população e a sua implementação implica obrigatoriamente autoritarismo. Porém, o autoritarismo que permite a aplicação de políticas extremas permite também abuso de poder sobre a população, que se manifesta de maneiras semelhantes quer em regimes de direita e esquerda.

Os governos de extrema-esquerda são na sua maioria governos autoritários, que têm grande oposição, e recorrem a violência para chegarem e manterem o seu poder. A União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS) e República Popular da China, os regimes comunistas mais extensos, têm uma história sangrenta que se prolongou pelo século XX, e que atualmente ainda tem repercussões extensas não só nos países que governaram, como nas nações vizinhas.

Além das mortes diretamente causadas por supressões, alguns historiadores culpam alguns regimes pelas crises de fome que ocorreram durante a sua governação. Destacam-se a grande fome Chinesa (1959-1961), com mais de 15 milhões de mortes (1); a fome na Coreia da Norte (1994-1998) (2); e a fome na União Soviética (1932-1933), com cerca de 7 milhões de mortes (3). Esta última vitimou maioritariamente ucranianos (3 milhões) (4), e foi reconhecida em 2006 como genocídio (Holodomor) (5).

Por último, a situação atual que se passa na China com a etnia Uigur (6,7) é francamente arrepiante. Apesar de ser em menor escala em comparação com o Holocausto, é assombroso ver que algo que devia ter ficado para trás na História está a ser repetido. Durante a 2ª Guerra, o próprio povo alemão não sabia tudo o que se passava nos campos de concentração, e o que sabemos atualmente deve-se à vitória dos Aliados. Para os Uigures não haverá 27 de janeiro.

Na prática, regimes que seguem ideologias extremistas resultam sempre em morte e sofrimento. Numa sociedade humana que se quer justa e livre não há lugar para governos com ideologias extremas. 


Autora: Ana Santos

Edição de Imagem: Felipe Bezerra

NÃO

A extrema-esquerda pode ser definida como uma ideologia anticapitalista de índole revolucionária com a pretensão de estabelecer o socialismo ou comunismo. Em Portugal, são erradamente considerados de extrema-esquerda partidos como o PCP ou BE, ignorando o quão bem estão integrados na democracia burguesa e cujas práticas e objetivos não vão além da social-democracia.

Muitos tentam comparar o socialismo e o fascismo, afirmando que os extremos políticos se tocam. Este sentimento é mais prevalente no centro e na direita política e é reflexo da hegemonia cultural anticomunista, a qual tem razões históricas e geopolíticas de origem complexa para este texto que se pretende breve. 

Mas será que aqueles que ousam esta comparação não são mais próximos da extrema-direita do que aquilo que pensam? Estes “centristas iluminados” ou até autoproclamados liberais e os seus regimes estão historicamente ligados ao apoio a ditaduras. Alguns exemplos disso são o apoio de Margaret Thatcher (ex-primeira-ministra britânica pelo partido de centro-direita Partido Conservador) a Augusto Pinochet (ditador chileno) (1), o apoio de Friedrich Hayek (economista liberal) a António de Oliveira Salazar (2) e ao regime de Pinochet, (2,3) a apologia do fascismo feita por Ludwig von Mises (economista liberal) (4) e o facto de ter sido membro do governo fascista de Engelbert Dollfuss (ditador austríaco), (5) a aliança entre o Partido Liberal Italiano (partido de centro-direita) e o Partido Nacional Fascista de Benito Mussolini (ditador italiano) (6) ou os elogios de Milton Friedman (Nobel da economia liberal) a Pinochet (3).

Em Portugal temos o exemplo do PSD, de centro-direita, não ter problemas em aliar-se ao partido de extrema-direita Chega. Miguel Albuquerque, presidente do Governo Regional madeirense e líder do PSD/Madeira defendeu mesmo uma aproximação do PSD ao Chega, com o objetivo de derrotar a esquerda (7). Outro exemplo foi o acordo entre o PSD e o Chega para ser viabilizado o governo dos Açores (8).

As razões que levam a esta aliança histórica entre os “centrismos” e “direitas moderadas” e a extrema-direita passam pelos interesses de classe burgueses na busca da manutenção do seu papel na sociedade contra as ameaças (leia-se, reclamar direitos para os trabalhadores) que a esquerda faz. Preferem proteger ditaduras, principalmente em alturas de contestação social decorrentes da exacerbação das contradições do capitalismo.

Qualquer defesa de proximidade entre a extrema-esquerda e a extrema-direita é iliteracia política, histórica e filosófica. A denominada extrema-esquerda está ligada à luta pelo fim do colonialismo, pelos direitos das minorias raciais e pelos direitos das pessoas LGBTQI+. Isto está em oposição com a extrema-direita que nestes assuntos toca, outra vez, muito do centro e da “direita moderada”. A título de exemplo, temos Nelson Mandela (o mais poderoso símbolo da luta contra o regime segregacionista do apartheid) que pertenceu ao comité central do Partido Comunista Sul-Africano (9) e nomeou até Joe Slovo (marxista-leninista sul-africano) para Ministro da Habitação do seu governo (10). Ou até Martin Luther King Jr. (reconhecido mundialmente pela luta contra a segregação racial nos EUA) que era anticapitalista (um extremista de esquerda para alguns) (11) e chegou mesmo a escrever estar desapontado com os “brancos moderados” por estes preferirem a “ordem” à justiça (12).

Vamos deixar de comparar as pretensões ideológicas de Saramago (13) e Einstein (14) com as de Ventura e Hitler?

Autor: José Vicente Castro

Referências:

NÃO:

  1. Thatcher stands by Pinochet. disponível em http://news.bbc.co.uk/2/hi/uk_news/304516.stm

  2. A União Europeia, as políticas sociais, e os fundamentos: de Hayek para Salazar, até aos liberais autoritários. disponível em
    https://www.esquerda.net/dossier/uniao-europeia-politicas-sociais-e-os-fundamentos-de-hayek-para-salazar-ate-aos-liberais

  3. Neoliberalism in Chile and the cost of human life. disponível em
    https://moderndiplomacy.eu/2021/02/19/neoliberalism-in-chile-and-the-cost-of-human-life/

  4. Liberalism: In the Classical Tradition. disponível em
    https://mises.org/library/liberalism-classical-tradition/html/p/29

  5. Meaning of the Mises Papers, The. disponível em https://mises.org/library/meaning-mises-papers

  6. Italian Fascism, 1915–1945 disponível em
    https://srisa.org/rw_common/plugins/stacks/armadillo/media/PhilipMorganItalianFascism19151945SecondEditionTheMakingoftheTwentiethCentury2004.pdf

  7. Miguel Albuquerque defende aproximação do PSD ao Chega. disponível em
    https://rr.sapo.pt/2020/08/06/politica/miguel-albuquerque-defende-aproximacao-do-psd-ao-chega-e-fundamental-que-o-centro-direita-se-junte-para-derrotar-a-esquerda/noticia/202629/

  8. Chega anuncia acordo com o PSD nos Açores. disponível em
    https://observador.pt/2020/11/06/chega-anuncia-acordo-com-o-psd-nos-acores/

  9. SACP statement on the passing away of Madiba. disponível em
    https://web.archive.org/web/20160303223354/http://www.sacp.org.za/main.php?ID=4151%20

  10. Funeral de Joe Slovo. disponível em https://arquivos.rtp.pt/conteudos/funeral-de-joe-slovo/

  11. The 11 Most Anti-Capitalist Quotes from Martin Luther King Jr. disponível em
    https://www.commondreams.org/views/2019/01/21/11-most-anti-capitalist-quotes-martin-luther-king-jr

  12. Martin Luther King, Jr. Letter from a Birmingham jail. disponível em
    https://www.africa.upenn.edu/Articles_Gen/Letter_Birmingham.html

  13. "Soy un comunista libertario". disponível em
    https://elpais.com/diario/2004/04/24/babelia/1082763550_850215.html

  14. Einstein, Albert. Why Socialism? disponível em http://monthlyreview.org/2009/05/01/why-socialism/

SIM:

  1. Smil, V. (1999). China's great famine: 40 years later. BMJ, 319(7225), 1619-1621. doi:10.1136/bmj.319.7225.161

  2. Noland, M. (2004). Famine and reform in North Korea. Asian Economic Papers, 3(2), 1-40. doi:10.1162/1535351044193411

  3. R.W. Davies and S.G. Wheatcroft, The Industrialisation of Soviet Russia, volume 5. The Years of Hunger: Soviet Agriculture, 1931-1933 (Basingstoke: Palgrave Macmillan, 2004. Pp. xvii+555. 49 tabs.) 

  4. Applebaum, A. (2019, November 12). Holodomor. Encyclopedia Britannica. https://www.britannica.com/event/Holodomor.

  5. Worldwide recognition of the holodomor as genocide. (2021, February 09). De https://holodomormuseum.org.ua/en/recognition-of-holodomor-as-genocide-in-the-world/, consultado a 22/03/2021.

  6. Nebehay, S. (2018, August 10). U.N. says it has credible reports that China holds million Uighurs in secret camps. Retrieved March 22, 2021, from https://www.reuters.com/article/us-china-rights-un-idUSKBN1KV1SU

  7. Dutch parliament: China's treatment of Uighurs is genocide. (2021, February 25). Retrieved March 22, 2021, from https://www.reuters.com/article/us-netherlands-china-uighurs-idUSKBN2AP2CI

BULA MEDICINAL | Estamos entregues aos animais?

Estamos entregue aos animais? 

Era uma vez um País que habitava o ramo mais ocidental da Europa. Dominou o Mundo, as suas terras, os seus mares. Colonizou os 4 cantos do Mundo.

Fomos conhecidos por ter feito uma revolução sem um único disparo, já possuímos um dos melhores Serviços Nacionais de Saúde do Mundo, já tivemos propinas a valores simbólicos, mas isso parece ser cada vez mais história de um livro qualquer que dão agora no apoio à telescola.

E o que nos resta? Bem, resta-nos um País com uma das áreas costeiras maiores do Mundo, com um valor incalculável, com um dos climas mais propícios ao desenvolvimento das mais diversas espécies, seja ao nível de fauna e flora, e ao turismo. Sabemos servir bem, acolher bem, dominamos o inglês de praia melhor que ninguém (que o diga o Zezé camarinha), o portunhol, ou o “avecês” (e até nisto temos talento a saber troçar de quem muitas vezes nos mete de joelhos quando visitamos o seu País).

Não, fazer de Zé Povinho, colocar as mãos nos bolsos, suspirar ainda mais que os estóicos suspiram, aceitar o Fado que cantam os Lusíadas e rezar uma avé Maria em busca de um milagre não pode ser solução nem ninguém o poderá aceitar.

Portugal já foi o maior dos maiores, já foi apenas um sítio neutro nos filmes de Hollywood e passava pelos pingos da chuva (quem não?), mas agora bate os maiores recordes, os recordes negativos...

Segundo um estudo recente o Botswana atingiu níveis de crescimento, democracia e corrupção ao nível de Portugal, sim ouviram bem, de Portugal

Somos empáticos, sabemos desenrascar-nos, somos polivalentes, somos poliglotas. Contudo, cada vez menos dominamos as bases de uma ferramenta útil - a língua da verdade. Não é curioso que criamos as línguas de gato, fabricamos as línguas de veado, desenvolvemos as línguas da sogra, mas esta língua sem dúvida que está fora do menu…

Criticamos o socialismo, aquele conceito aterrador que devemos dividir o dinheiro equitativamente por todos, criticamos os Robin Hoods que querem tirar dos ricos para dar aos pobres, mas quem rouba a todos já é crescimento económico!

Mas pior que isto é mesmo quem acha que ser ladrão e cavalheiro/a é a virtude de cidadão em terras lusitanas.

Para vos dar um exemplo, recentemente, foi noticiado (e comprovado) que alguns de nós distribuía vacinas aos amigos, como quem distribuiu o arroz doce ou o bolo de laranja em tupperwares para os vizinhos. Assume-se como erro, mas quem erra muitas vezes e para o mesmo lado, pode ficar surpreendido quando descobrir que tudo pode ser um padrão. A Sra. Ana Rita Cavaco chamou a isto "fura filas, fina flor do entulho". Provavelmente faltou uma boa quantidade de chá de camomila e cidreira à bastonária, mas faltaram ainda mais memofantes a quem está no poder…

Vergílio Ferreira escrevia que a verdade é um erro à espera de vez

Mas eu diria melhor, num mundo cheio de mentiras universais, e lugares comuns, dizer a verdade até parece ser revolucionário…

Por isso me pergunto – Estaremos entregues aos animais? Seria um insulto dizê-lo. Que venha o Capitão Iglo e que nos salve disto tudo


Autor: António Lopez

POETAS DE ESTETO NA MÃO | O Soneto do Olho

Um dia dissequei-me os olhos,

Pois na busca por uma alma

Supus neles a serena calma 

De quem nos corre p'lo Infinito;


E cansar no circular do sangue

O fulgor do pensamento, essas

Ideações que apenas desgraças

Nos confundem o entendimento,


Somente me levou à angústia

De saber, que bem lá no fundo,

Só nos habita o fim do mundo,


E que em abismo de azares só

Assim floresce, voz que já

Não esquece, o teor da alma humana.


Autor: Tiago de Sousa

Ilustração: Ana Catarina Manaças

Edição de Imagem: Felipe Bezerra

XXXII Edição | Crónica

Nunca ninguém está à espera. Não parece real. E, de repente, ocupa a nossa vida, domina-a até. Os restaurantes fecham, os cinemas fecham, os estudantes vêm ter aulas para casa e os miúdos aprendem pela televisão. Paro e penso se isto está mesmo a acontecer. Num segundo sinto a emoção de estar a viver um momento histórico, no segundo seguinte pergunto-me o que é que isto significa a longo prazo. É este o nosso destino? Sermos escravos de uma rotina inevitável: do quarto para a cozinha, da cozinha para a sala e de volta ao quarto. Sair da cama é mais difícil. O sítio de estudo é o mesmo sítio dos convívios com amigos. É tudo uma mancha, onde os dias se misturam com as noites e não sabemos se é fim-de-semana ou não. Estamos presos dentro destas 4 paredes, mas tudo parece ruir lá fora. Somos estudantes de medicina. Chegámos até aqui porque queremos ajudar, queremos marcar a diferença. Mas chega o momento e não há nada que possamos fazer. Porque a melhor forma de protegermos aqueles que amamos é ficar em casa, por muito que nos custe, por muito que nos faça sentir impotentes.  

Vivemos uma altura onde a distância é uma forma de amor. Mas tenho saudades do abraço. Qualquer abraço. Ver os meus amigos na chamada zoom e não poder chegar a eles. Ver a avó e não poder apertá-la. Lembrar os abraços de capa negra e os momentos descompensados no Egas. Parece tudo uma realidade diferente. Noutra vida, em que tínhamos liberdade para tudo e nem sabíamos. Tudo se desvaneceu tão rápido, sem termos uma palavra a dizer.

E agora aqui estou. A única coisa que me resta é lembrar. Porque quanto mais fechada me sinto fisicamente, mais a minha cabeça viaja. Por tudo aquilo que pode vir, por tudo aquilo que passou, por todas as memórias queridas que guardo no coração. E, inevitavelmente, desejo voltar. A este mundo sem quadradinhos zoom, sem máscara, sem gel desinfetante na bolsa da mochila, sem cotoveladas em vez de abraços e sem 2m de distância.  É quase impossível não pensar naquilo que poderia estar a viver, mas não estou, porque chegou um vírus que decidiu pôr em pausa a vida. Mas o tempo não para, não faz pausa. E isso é frustrante.

Mas ao menos vivo na certeza de que, quando podermos voltar à normalidade, sair de casa e carregar nos botões do elevador sem ter de desinfetar as mãos, os abraços vão ser mais apertados. Quando podermos voltar à normalidade, entrar na faculdade sem usar uma máscara, os sorrisos vão ser mais bonitos. Quando podermos voltar à normalidade, ver os nossos avós sem barreiras, o amor vai ser mais genuíno. E agarro-me a isto. 


Autora: Leonor Carola

XXXII Edição | Público ou Privado: Qual a melhor solução para um sistema de saúde para todos?

COMENTÁRIO

“A saúde constitui um dos direitos fundamentais de todo o ser humano, sem distinção de raça, religião, credo político, condição económica ou social”. Este é o ponto de partida para uma discussão que, atentando na realidade portuguesa, conclui que o SNS tem qualidade, universalidade, equidade e solidariedade no acesso a cuidados de saúde.

Um ano volvido e numa atualidade pandémica que já não esconde a deficitária economia as autoridades políticas estão mais atentas à importância colossal de um SNS bem financiado para dar resposta eficaz às necessidades da sociedade. Porém, e num tempo de saturação das fileiras públicas, a cooperação com o setor privado adquire destaque neste debate de longa data. A própria Lei de Bases da Saúde refere que “de forma supletiva e temporária podem ser celebrados acordos com entidades privadas...” e, este ano, o governo aprovou o alargamento da ADSE.

Estarão estas medidas a folgar “a joia da coroa portuguesa" para termos um Sistema de Saúde robusto ou é este o princípio do fim da saúde equitativa, justa e solidária...

GRANDE REPORTAGEM | Público ou Privado: Qual a melhor solução para um sistema de saúde para todos?

Em 1946, foi aprovada a Constituição da Organização Mundial de Saúde (OMS), na qual podemos ler: Gozar do melhor estado de saúde que é possível atingir constitui um dos direitos fundamentais de todo o ser humano, sem distinção de raça, de religião, de credo político, de condição económica ou social. Tanto o Banco Mundial como a OMS designaram a cobertura universal de saúde como um objetivo primário.

Atualmente, a discussão no panorama político português tem sido marcada por diversas propostas antagónicas de remodelação da Lei de Bases da Saúde, legislação que estabelece o quadro do sistema nacional de saúde e, particularmente, do Serviço Nacional de Saúde (SNS). Contudo, o debate rapidamente cedeu a simplificações e dicotomias, nomeadamente a do público vs. privado. Surge na opinião pública a perceção de que estamos perante uma bifurcação e que só podemos tomar um de dois caminhos.

DIFERENTES SABORES DE SISTEMAS DE SAÚDE

O que é um sistema de saúde? Genericamente, corresponde ao conjunto das organizações que prestam serviços médicos (hospitais, centros de saúde, etc.) e que providenciam o seu financiamento (governos, comunidades locais, companhias privadas de seguros, etc.). Dada a sua enorme variedade, os sistemas de saúde podem ser agrupados de várias formas:

1) Modelo Beveridge – baseado num serviço nacional de saúde, de acesso universal, providenciado e financiado pelo governo através do Orçamento de Estado; não exclui a existência de prestadores de saúde privados, que podem ou não receber financiamento estatal (ex.: Portugal, Reino Unido, países escandinavos, Espanha, Nova Zelândia, etc.);

2) Modelo Bismarck – baseado na segurança social, nomeadamente através de seguros obrigatórios (que revertem para “fundos de doença”, que qualquer contribuinte usa com base nas suas necessidades); o Estado vigia um sistema de contratos entre utentes, fornecedores de serviços e seguradoras (ex.: Alemanha, França, Bélgica, Holanda, Japão e Suíça);

3) Modelo nacional de seguro de saúde – inclui elementos dos anteriores: os prestadores de cuidados são privados, mas o financiamento vem de um programa de seguro gerido pelo Estado, para o qual todos contribuem; não há objetivos lucrativos nos seguros (ex.: Canadá, Taiwan, Coreia do Sul, etc.).

4) Modelo out-of-pocket – não há um sistema de garantia de acesso universal a cuidados de saúde, sendo estes pagos diretamente pelos utentes; apresenta tendencialmente maus outcomes e é característico dos países em desenvolvimento (ex: África, Índia, China, América do Sul, etc.)

5) Modelo Semashko – diretamente controlado pelo Estado, que é proprietário de todas as infraestruturas, financiador de todos os procedimentos e alocador dos serviços à população (ex.: Rússia, Bulgária, Polónia, República Checa, etc.) Relativamente à natureza do financiamento dos sistemas de saúde, encontramos uma panóplia de métodos que inclui fundos governamentais, seguros de saúde ou sociais obrigatórios (financiados de forma pública, privada ou ambas), seguros de saúde voluntários (privados), fundos pessoais, ONGs e até corporações. No geral, cada país aplica vários destes métodos, diferindo na sua dominância relativa.

E EM PORTUGAL?

Segundo o relatório Health Systems in Transition, em 2010, a tendência de crescimento dos gastos públicos, que se verificava desde os anos 90, inverteu-se e deu lugar a um aumento da despesa privada.

Em 2014, o setor público contribuía para 66,2% dos gastos em saúde (menor que a média europeia: 76,2%), e o setor privado para os restantes 33,8%, dos quais 5,4% provinha de seguradoras e 27,5% de gastos out-of-pocket (taxas e co-pagamentos cobertos diretamente pelos utentes em produtos farmacêuticos, exames laboratoriais e imagiológicos ou, controversamente, taxas moderadoras) - este último está entre os mais altos a nível europeu e constitui um grave fator de inequidade.

No geral, o SNS oferece cuidados universais e compreensivos aos cidadãos e contratos com privados permitem ao SNS, como financiador, alcançar as necessidades dos utentes em testes laboratoriais, imagiologia, diálise e reabilitação. No entanto, os tempos de espera elevados permanecem um problema major, com impacto no acesso, equidade e proteção financeira (os utentes procuram no setor privado respostas que não alcançam no SNS), e poderão constituir a explicação para a magnitude de pagamentos sob a forma de gastos out-of-pocket. Recentemente, estes e os do setor privado têm aumentado, apesar da oferta de serviços no SNS não ter diminuído, o que sugere que cidadãos com maiores rendimentos se têm virado para os cuidados privados devido à insatisfação com o SNS.

OS CAMINHOS ADIANTE

Segundo o relatório Um Futuro para a Saúde, da Fundação Calouste Gulbenkian, o SNS é financiado de três formas principais:

1) receita de impostos;

2) co-pagamentos e taxas pagas pelos utentes;

3) subsistemas e sistemas privados de seguros de saúde.

Segundo o relatório, há um consenso geral na população a favor da manutenção do financiamento do SNS pelos impostos, e da sua acessibilidade de forma equitativa e universal. A adoção de um sistema totalmente privado teria benefícios incertos e uma implementação excessivamente dispendiosa. A margem para aumentar os impostos gerais é reduzida, pelo que se sugere aumentar os impostos sobre os produtos pouco saudáveis e criar incentivos para comportamentos saudáveis. Quanto aos co-pagamentos, reconhecem-se as suas desvantagens: evidências indicam que reduzem a utilização dos cuidados de saúde, tanto os inadequados como os necessários, tendo um efeito negativo sobre os mais desfavorecidos. Além disto, quando elevados, requerem isenções para os grupos mais vulneráveis e levam os utentes com mais meios a optar por um seguro privado. Dada a sua natureza regressiva (ignoram os rendimentos do pagador), implicam um maior risco de famílias e cidadãos com menores rendimentos se confrontarem com custos incomportáveis.

Os subsistemas de saúde (sendo o maior a ADSE, subsistema voluntário e pago, para funcionários públicos e os seus familiares) têm como principal vantagem a possibilidade de recorrer diretamente ao setor privado pagando uma reduzida quantia, sem aprovação prévia do subsistema. Isto resulta em maior utilização de recursos ao invés de melhor qualidade dos mesmos. Pela sua natureza, os subsistemas apenas estão ao alcance de pessoas com garantia de emprego, deixando tendencialmente de parte os mais idosos e os mais pobres, que comportam os maiores problemas de saúde e poderão não ter emprego. Dada a sua condição, também não conseguem comportar os planos de seguros privados, apenas disponíveis para quem tenha meios suficientes. Desta forma, o alargamento da ADSE é frequentemente apontado como potencialmente adverso para a sua sustentabilidade.

Quanto ao setor privado, a concorrência pode melhorar a qualidade e os tempos de espera nos serviços, desde que cumpridos uma série de pré-requisitos respeitantes à liberdade e informação do consumidor e à regulação do setor, apesar de se levantarem questões acerca da continuidade de cuidados e colaboração entre prestadores. Em 2010, a OMS recomendou a Portugal que se esclarecesse e regulamentasse o papel do setor privado “através de um enquadramento político coerente”. O relatório da Gulbenkian sugere, assim, a adoção de uma abordagem pragmática, fazendo participar este setor, com fins lucrativos e não lucrativos, na sua missão de proporcionar serviços de qualidade, exigindo transparência e respeito pelos mesmos valores que o setor público. Na base desta iniciativa estará a criação de um Acordo Público-Privado que defina esse quadro legal, visando o benefício da população e dos doentes e não apenas do setor privado.

Finalmente, o relatório adverte contra alguns pontos fulcrais:

• O fenómeno de “procura motivada pela oferta” – criar novos serviços aumentará a procura, sejam necessários ou não.

• Os modelos de pagamento por ato praticado – que incentivam atividades em vez de outcomes, aumentando os custos.

CONCLUSÃO

Em 1979, foi fundado em Portugal o SNS, estabelecido como um sistema universal do tipo Beveridge. Segundo o relatório Um Futuro para a Saúde, apesar das falhas que motivam a discussão sobre a reformulação da Lei de Bases da Saúde, reconhece-se que temos um SNS funcional, com padrões elevados e profissionais qualificados, baseado na universalidade, equidade, solidariedade e no acesso a cuidados de saúde de qualidade. Existe, assim, uma base sólida para construir um sistema mais adaptado aos desafios presentes e futuros.: novas tecnologias, envelhecimento da população, aumento da incidência de doenças crónicas, alterações climáticas, resistências aos antimicrobianos, agravamento das desigualdades económicas, etc.

Neste contexto, é relevante considerar o desgaste da crise financeira de 2008 sobre a robustez do nosso serviço de saúde. Até agora, demonstrou extraordinária resiliência, não tendo sofrido decréscimos nos rankings de eficiência. No entanto, um relatório recente elaborado para o Gabinete de Conselheiros de Política Europeia prevê que as desigualdades crescentes (em parte consequência da crise financeira) se tornarão o maior desafio a enfrentar pela Europa, à medida que a fase aguda da crise se dissipar.

Não existe um modelo ideal para um sistema de saúde. Dependerá sempre do contexto nacional mas, genericamente, os modelos europeus baseados na solidariedade apresentam os melhores outcomes, conforme a última avaliação do Commonwealth Fund.

A arquitetura financeira não garante a viabilidade do sistema de saúde, mas uma deficiente arquitetura financeira pode destruí-lo. As reformas na saúde deverão antecipar as desigualdades entre os cidadãos, e ser implementadas de forma progressiva, avaliando outcomes e impactos sobre todos os envolvidos.

Autores: António Velha & Vasco Lobo

Comentário: Catarina Monteiro

XXXII Edição | Encarcerados Livremente

Portas, escadas, paredes. Procurei-me. Perdi-me. Perdi-me. Procurei-me. Andava eu na subida infinita, decidido na chegada ao topo, nem perto nem longe deste, quando se fecharam portas, ergueram-se paredes nunca vistas que já existiam, deu-se a quarentena. Até essa data já tínhamos por hábito viajar, íamos juntos, eu e ela. A partir daí, portas, escadas, paredes. Não me esgotou saber que não sabia o que iria acontecer, não me esgotou saber que era o início de uma época diferente para todos nós, esgotou-me ela, com a sua incessante mania de viajar livremente por caminhos que não exigem sair à rua, os caminhos escuros do meu ser. Esgotou-me a falta do falar e de me aproximar das pessoas que mais perto adoro ter. Esgotei-me eu. Ao início não me apercebi o quanto me poderia afetar esta nova forma de existir. Comecei por refugiar-me nos meios de comunicação digital, não eram suficientes, dediquei-me totalmente aos estudos, erro meu. Passou um terço do ano em que tudo o que vi foram portas, escadas, paredes. Sei que o mais certo teria sido arranjar formas de evadir, livros, filmes, música, mas a questão continuava, faltava o toque que pensei não precisar, até que me agoniei pela sua falta. 

Como se não bastasse ter-me perdido enquanto estava encarcerado com ela, assim que as portas voltaram a abrir e deixou de haver tantas paredes, talvez por estar fragilizado por um período que me trocou as voltas, deixei-me levar pelas doces palavras dele, eram fáceis de perceber, aconchegantes de se ouvir, reconfortantes. Cheguei ao ponto em que confiaria nas suas ideias de forma cega, até que eventualmente a vida nos acorda para a vida e percebemos que nem sempre o que pensávamos ser seria. As portas estavam finalmente abertas, mas o meu coração desta vez queria ser encarcerado, apenas com o dele. Magoei-me. Recuperei? 

Apesar de tudo, as portas não se abriram completamente, abriram-se aos poucos, da mesma forma que, aos poucos, fui retomando a liberdade. Sair da quarentena foi quase como recuperar uma parte de mim que ficou não esquecida, mas suprimida. Reencontrar quem ansiava ver, voltar a ter a possibilidade de ansiar por conhecer alguém, experimentar coisas novas, ser livre. Mesmo assim, sinto e sei que continuamos todos encarcerados, uns com os outros, livremente, porque pouco importa se há quarentenas ou não para estarmos juntos. Eu sou eu, ela é a minha mente e ele, um amor perdido que reservou uma cicatriz no meu coração. Somos um. Graças a este período, complementei partes de mim que nunca entenderia tão rapidamente noutras circunstâncias. Consigo, agora, não só imaginar, mas compreender que todos nós temos o nosso ela e ele encarcerados no nosso ser, mas isso não nos impede necessariamente de ser livres. Tornei-me mais sábio. Depois de tudo isto continuo sem estar perto ou longe do topo que todos buscamos, mas pode ser que esta sabedoria me leve mais perto. Uma coisa sei, eu sou eu e o topo é a felicidade.

Autor: André Vares

XXXII Edição | O Que Continua a Ressoar

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Num período extremamente atípico e inédito nas nossas existências, a revista RESSONÂNCIA decidiu “pausar” o mundo e recordar alguns dos artigos que marcaram a revista e a nossa comunidade estudantil nos últimos anos. 

Procurámos comparar o mundo pré-COVID com a atualidade, mantendo um espírito crítico sobre o que o futuro nos espera.

Assim, esta XXXII Edição (re)publica os artigos que mais se destacam pela sua pertinência atual e inclui um pequeno comentário sobre o que mudou e o que permaneceu igual desde a data de redação dos mesmos. 

Fica aqui o convite para acompanhares o que continua a ressoar.

De que estás à espera?

XXXII Edição | Os Media Como Educador Médico

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Comentário

Mais que reflexivo e intemporal, o artigo escrito por Joana Cabrita, em 2016, faz todo sentido diante do cenário pandémico enfrentado no último ano, onde nos deparamos com uma grande quantidade de informações disseminadas numa alta velocidade que mudavam constantemente, consoante o conhecimento científico avançava, o que nos faz repensar a importância da confirmação da veracidade de notícias que consumimos e partilhamos no nosso dia a dia. Cabe aos Media, bem como a toda população, a responsabilidade de veicular notícias fidedignas, de acordo com as diretrizes científicas, que promovam corretamente a literacia em saúde.

Os Media Como Educador Médico 

Assistimos ao papel crescente dos meios de comunicação na sociedade em geral, sobretudo no que toca a conteúdo de rápida apreensão, como o que é veiculado através da internet. Contudo, para além do mundo online, também o tradicional “pequeno ecrã”, a rádio, as revistas e jornais são responsáveis por muito daquele que é o nosso conhecimento em determinadas matérias. A saúde não é exceção. Se, no passado, grande parte do que os utentes dos serviços de saúde conheciam acerca das doenças e seus tratamentos era fornecido pelo contacto com profissionais da área, nomeadamente médicos e enfermeiros, atualmente o panorama mudou. A medicina paternalista deu lugar à medicina partilhada. Cada vez mais o profissional de saúde é confrontado com informação prévia pesquisada de forma autónoma pelo doente. E aqui surgem diversas questões: 

Qual a veracidade do conteúdo que o utente encontra? Que impacto pode ter na relação médico-doente essa informação, quando não corresponde à prática médica mais correta e efetiva no contexto atual?

Em 2007 foi publicado na Acta Médica Portuguesa um artigo da autoria de Silvina Santana e A. Sousa Pereira, que procurava analisar a forma como os cidadãos portugueses utilizavam a internet para questões de saúde ou doença, as características dos utilizadores e os efeitos reportados pela sua utilização no relacionamento com os profissionais de saúde.

Através da aplicação de questionários a uma amostra populacional, os investigadores perceberam que, em vários dos utilizadores da internet, a informação encontrada os levou a colocar perguntas ao profissional de saúde. O artigo concluía que “apesar de não contestar a importância do profissional de saúde enquanto fonte de informação, a Internet começa a tornar-se uma importante fonte de informação nesta área para os Portugueses, sendo de prever um aumento na procura de serviços de saúde disponíveis na Internet, o que provavelmente terá implicações na relação médico-doente”. Para além disso, deixava em aberto o seguinte: de que modo se poderá saber como cidadãos com diferentes capacidades e experiências educacionais utilizam a informação obtida na Internet?

Uma tese de mestrado desenvolvida em 2006 (por Lídia Ferreira, do ISCTE-IUL) fez um levantamento de perceções dos médicos portugueses face a esta temática. Debruçando-se sobre a influência da internet no utente, a autora enumera os vários fatores que levam à necessidade de informação pelo mesmo, nomeadamente: o reconhecimento de um problema; o interesse na procura de solução; a avaliação das soluções possíveis; a experiência relativa a uma das soluções; e a adoção de uma solução.

Já nesta altura se compreendia que o utente exige cada vez mais informação sobre o seu estado de saúde, bem como a sua participação na decisão do processo de tratamento. Este estudo concluiu que a troca de informação entre médico e utente parece ter-se tornado mais ampla, uma vez que o conhecimento do utente é mais abrangente, o que parece originar uma aproximação informal na relação entre ambos. Esta alteração pode ter consequências ao nível da relação de confiança, uma vez que pode parecer que o utente está a confrontar a autoridade do médico. De acordo com os resultados deste estudo, o utente deveria ser reeducado, de forma a compreender que a informação na Internet pode ajudar a contextualizar ou a ter uma noção da sua patologia, mas nunca deverá este meio ser utilizado para o tratamento de uma doença. O autodiagnóstico e automedicação resultantes da interpretação da informação seriam dois riscos a eliminar com esta reeducação.

Num artigo publicado em 2015, no Expresso, é ainda relembrado o fundamental no meio de tantos porquês: a importância de saber pesquisar, ou seja, a literacia em saúde. Está provado que doentes bem informados têm melhores resultados clínicos e menos complicações. Contudo, se olharmos para resultados de inquéritos de literacia em saúde recentes, facilmente se percebe que grande parte daqueles que procuram informação não o faz da forma mais correta. 

Apesar dos benefícios inerentes à utilização dos media pelos cidadãos, importa relembrar que os riscos são reais e incluem a propagação de informação errada, desatualizada e que constitua motivo de alarme para o utente. Porém, existe algo que é indiscutível – o médico da atualidade tem que ser capaz de lidar com os vários aspetos relacionados com a propagação de informação sobre saúde pelos media, quer sejam positivos ou não.

XXXII Edição | A Grande Pandemia: Alterações Climáticas

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 Comentário

 A ironia de um texto intitulado “A Grande Pandemia”, publicado no início de dezembro de 2019, não passa despercebida. Há 13 meses, a vida era diferente, com uma leveza inalcançável para a maioria de nós neste momento. Porém, mesmo quando o sol brilhava, existia uma grande nuvem cinzenta a ameaçar-nos: as alterações climáticas. Num ano marcado por algumas boas notícias, como a intenção do presidente dos Estados Unidos da América de regressar ao acordo de Paris, ou o ligeiro decréscimo momentâneo das nossas agressões ao planeta durante o confinamento de março, é importante relembrar que a luta não acabou. Desde mais refugiados, a novas doenças infeciosas, a consequências graves na nossa saúde, a mudança do clima tem um impacto tão grande em nós como nós temos no clima. E, perante a indiferença de quem mais podia fazer a diferença, para lidar com esta crise não podemos esperar por um novo Estado de Emergência.

 

 A Grande Pandemia: Alterações Climáticas

Ondas de calor. Dengue. Ciclones. Asma. Vagas de frio. Melanoma. Secas. Depressão. Incêndios. Cancro do pulmão. Desnutrição. Malária. Enfarte. Cataratas. Acidentes. Diarreia. Alergias. Inundações. Refugiados. Estes são apenas alguns exemplos de consequências das alterações climáticas que afetam a saúde a nível global.

O planeta sempre sofreu mudanças no clima, mas nunca estas foram tão rápidas e tão dependentes da atividade de uma única espécie. A temperatura aumenta, os glaciares derretem e os padrões meteorológicos adulteram-se, originando desastres naturais que provocam a morte a 60 mil pessoas por ano, a maioria em países em vias de desenvolvimento

e com fraca resposta sanitária e humanitária, um número que quase triplicou desde 1960 (1). No momento em que esta reportagem é escrita, chega a notícia de que a Índia declara Estado de Emergência de saúde pública na capital, Nova Deli, devido à poluição atmosférica. Foram distribuídos 5 milhões de máscaras na cidade e estima-se que 700 milhões de indianos vivam expostos a níveis tóxicos de poluição (2).

Ar puro. Água potável. Alimentação saudável. Abrigo seguro. Os principais determinantes de saúde ambientais e sociais estão em risco. O que podemos esperar desta Pandemia? A seguir, uma breve exploração de alguns dos maiores desafios das alterações climáticas à saúde das populações.

 

Ondas de calor

Segundo a World Meteorological Organization uma onda de calor é um período superior a 5 dias em que a temperatura máxima registada ultrapassa a temperatura máxima esperada por mais de 5ºC. Com as alterações climáticas as ondas de calor tornaram-se mais frequentes e mais intensas por todo o mundo. Apesar do aumento da temperatura ser global, as populações menos preparadas são as dos países temperados, onde as infraestruturas são principalmente desenhadas para reter calor durante o inverno (3). 

Os verões europeus têm se tornado cada vez mais severos, sendo registados recordes de temperaturas máximas na Europa Central durante o verão de 2019 (4). Contudo, após a onda de calor de 2003, com mais de 70.000 mortes atribuídas por toda a Europa, tem havido uma maior preocupação dos governos em informar e proteger a população (5). Os mais afetados são os idosos, as crianças e pessoas dependentes nas atividades de vida diárias. De um ponto de vista socioeconómico, as pessoas que vivem isoladas ou com poucas condições, sem equipamentos de refrigeração, estão em maior risco de sofrer consequências negativas durante uma onda de calor (3).

Durante as ondas de calor há maior afluência aos serviços de urgência, tanto por descompensação de doença de base, como por casos de insolação e desidratação em adultos saudáveis e ativos (como exemplo desportistas ou trabalhadores da construção civil) (3). Os sintomas de insolação mais frequentes são sudorese, alterações de estado de consciência e síncope; são sintomas inespecíficos que podem ser desvalorizados, especialmente pela população mais ativa.

Além das altas temperaturas, as ondas de calor são ainda responsáveis por aumento das concentrações de poluentes atmosféricos, dos quais se destacam O3 e PM10 (partículas inaláveis de diâmetro inferior a 10 micrómetros) (6). Estes poluentes têm ação independente no agravamento de doenças respiratórias e vasculares, facilitando estados pró-inflamatórios e pró-trombóticos (7). Porém, durante ondas de calor e especialmente nos grandes centros urbanos, atuam sinergicamente com as temperaturas elevadas e a desidratação no aumento de sintomas tanto em pessoas saudáveis como em doentes.

A Península Ibérica tem sido relativamente poupada das ondas de calor das últimas décadas, protegida pelas massas de água que a rodeiam. Todavia, Portugal tem uma população cada vez mais envelhecida, isolada e carenciada. Além de emitir alertas nos dias de maior perigo, a Proteção Civil cria também abrigos temporários de livre acesso em zonas mais carenciadas.

 

Poluição Atmosférica e Alergias

O atual aumento exponencial nos casos de reações alérgicas não é, de todo, independente das alterações ambientais das quais o nosso planeta é vítima. Com efeito, pensa-se que é esta a principal causa do emergente número de casos de alergias, bem como do agravamento das mesmas (8). 

Uma alergia é uma resposta exagerada do sistema imunitário a estímulos benignos externos do meio, mediada por imunoglobulinas E. Dentro do grupo das alergias mais frequentes, é de ressaltar a asma brônquica, doença que atinge cerca de 300 milhões de pessoas em todo o mundo (9). Esta patologia caracteriza-se por uma inflamação dos brônquios, que leva à diminuição do seu lúmen e que se manifesta clinicamente por tosse, pieira e dispneia (10). 

A poluição, nomeadamente a atmosférica, tem como causa relevante a emissão excessiva de gases resultantes da queima de combustíveis. Como exemplo significativo, distinguem-se as Diesel Exhaust Particles (DEPs), partículas derivadas da combustão do Diesel dos veículos motorizados. Estas partículas são constituídas por um carbono elementar central, que incorpora uma variedade de substâncias, nomeadamente hidrocarbonetos policíclicos aromáticos, cetonas, álcoois, cicloalcanos, bem como aerossóis de origem orgânica que, por si só, já detém um carácter alergénio considerável (7). Agregadas às DEPs, estas substâncias químicas orgânicas, como as partículas em suspensão no ar (pólen), formam macromoléculas com potencial alergénio acrescido, tendo consequências consideravelmente piores do que aquelas que as partículas orgânicas isoladas, relativamente ao desencadeamento de reações alérgicas.

 

Doenças Infecciosas

A transmissão de doenças com origem hídrica e alimentar é largamente dependente das condições climáticas, uma vez que a precipitação influencia o transporte e disseminação de agentes patogénicos, enquanto a temperatura afeta a seu crescimento e sobrevivência. Também a ação humana, através da descarga imprópria de resíduos, contribui para potenciais ameaças à quantidade e qualidade da água e alimentos, comprometendo a segurança alimentar (11,12). 

O clima é ainda o grande responsável pelo perfil de distribuição das doenças infecciosas transmitidas por vectores. É provável que o período sazonal de transmissão e a distribuição geográfica de determinadas doenças alargue, como já ocorre na China com a Schistosomíase (1), uma parasitose dos climas quentes. A malária continua a ser um grande problema de saúde pública, matando mais de 400.000 pessoas por ano, sobretudo crianças africanas com menos de 5 anos. No Brasil, os casos de dengue aumentaram sete vezes em 2019. Estas são duas doenças transmitidas por mosquitos, Anopheles e Aedes, respectivamente, cujo ciclo de vida é extremamente sensível às condições climáticas, especialmente à temperatura e precipitação (1,11).

 

Desastres Naturais

As inundações e ciclones causam devastações que se traduzem em danos materiais e perda de vidas humanas, com um aumento significativo de casos de afogamento, trauma, acidentes e ansiedade generalizada (12). 

Metade da população mundial vive a menos de 60 km do mar (1). O aumento do nível médio das águas e a escalada de eventos extremos de natureza meteorológica destruirão casas, infraestruturas sanitárias e outros serviços de assistência às populações (1). As comunidades serão forçadas a migrarem, criando os chamados refugiados climáticos. Surgem assim riscos associados à aglomeração de populações deslocadas e stress psicossocial (11).

 

 

Concluindo, entre 2030 e 2050 as alterações climáticas serão responsáveis por 250.000 mortes adicionais por ano, 38.000 nos idosos por ondas de calor, 48.000 por diarreia, 60.000 por malária e 95.000 por desnutrição infantil (1). É urgente não só a criação de políticas, mas também tomar decisões individuais que visem suportar uma resposta global de saúde pública perante esta pandemia que poderá ser a última que a Humanidade enfrentará.

 

 (1) WHO (2019) Climate change and health. Consultado a 2 Novembro 2019, https://www.who.int/news-room/fact-sheets/detail/climate-change-and-health; (2) Público. (2019). Poluição: estado de emergência de saúde pública declarado em Nova Deli. https://www.publico.pt/2019/11/01/mundo/noticia/nova-deli-distrubui-cinco-milhoes-mascaras-devido-niveis-toxicosar- 1892166; (3) Kovats RS, Kristie LE. Heatwaves and public health in Europe. European Journal of Public Health 2016 Dec; 16 (6); 592–599; (4) Baker, Sinéad (25 July 2019). Europe is battling an unprecedented heat wave, which has set records in 3 countries and is linked to at least 4 deaths".Business Insider. Insider Inc.; (5) Robine JM, Cheung SLK, Roy SL et al. Death toll exceeded 70,000 in Europe during the summer of 2003. C. R. Biologies 2008; 331; 171–178. (6) Analitis A, Michelozzi P, D’Ippoliti D et al. Effects of Heat Waves on Mortality. (7) Epidemiology 2014 Jan; 25 (1); 15-22. (8) Anderson JO, Thundiyil JG, Stolbach A. Journal of Medical Toxicology 2012 Jun; 8 (2); 166–175. (9) Clark, T. (2000). Asthma. 3rd ed. London: Arnold. (10) Takano, H., & Inoue, K. I. (2017). Environmental pollution and allergies. Journal of toxicologic pathology, 30(3), 193–199. doi:10.1293/tox.2017-0028; (11) DGS (2019). Consultado 27 Outubro 2019, em https://www.dgs.pt/em-destaque/ dia-mundial-da-asma-3-de-maio-pdf.aspx; (12) WHO (2019). Climate change and human health - risks and responses. Summary.Consultado a 2 Novembro 2019, em https://www.who.int/globalchange/summary/en/index5. html; (13) Tavares, António. (2018). O Impacto das Alterações Climáticas na Saúde. Acta Médica Portuguesa. 31. 241. 10.20344/amp.10473.


DATAS ESPECIAIS | Sonho de Mulher

O homem sonha,

mas Deus não quer.

Onde está a obra?

Pior ainda se for mulher.


De rosto estafado

e olheiras sem fim,

trabalha por turnos,

mas diz que é mesmo assim.


Esforça-se em dobro,

para ter metade de tudo.

E o devaneio

que lhe ilumina os olhos

fica num canto, mudo.


“Talvez um dia”,

como quem diz:

“quem sabe se ainda

não vou ser feliz”.


Vai-se logo a esperança,

com a noite a cair.

A obra fica esquecida

e no meio desta vida

será difícil surgir.


O amanhã aparece,

e mais um dia qualquer.

Fica tudo igual, 

e assim permanece

porque ela nasceu mulher.


Autor: Beatriz Francisco - 3º Ano

Ilustração: Guilherme Luís - 5º ano

POETAS DE ESTETO NA MÃO | Médicos (In)completos

Na incerteza dos tempos que vivemos,

São várias as alterações que sofremos.

Ó estudantes de medicina,

O quanto da nossa experiência isto nos elimina?


Preparar-se para sair de casa deixou de ser,

Hoje, acordar 5 minutos antes da aula é o que nos faz mover.

Ainda bem, não temos de acordar tão cedo,

Mas até que ponto compensa todo este novo enredo?


Ligaram-se computadores, desligaram-se emoções

O que seremos nós, médicos das próximas gerações?

Seres humanos intitulados de Doutores

Formados entre os seus e outros horrores.


A aluna que se tornou mais cínica,

O rapaz que nunca aprendeu a fazer história clínica

E outro que já não será tão empático

Pudera, as suas férias ficaram em isolamento profilático...


Evita-se o trânsito, os atrasos, o stress matinal

E aquela chuva que já não faz mal.

Nos dias de hoje, a preocupação é achar o link da aula

Cabeça aberta a matéria, corpo dentro da jaula.


Perdemos muito do contacto com os doentes

Através de tecnologias, vemos os docentes

Assim como, alguns colegas, que mais não serão

Pois, não há oportunidade de conexão...


As horas de estágio perdidas

Poderão alguma vez ser substituídas?

Ó estudantes de medicina,

O quanto da nossa experiência isto nos elimina?


O pior é que vai para além do mundo profissional

Ofende as nossas necessidades de animal...

Socializar era algo que fazia parte

Atualmente, é quase uma obra de arte

É curioso se pararmos para pensar:

Que seria de nós sem uma pandemia a assombrar?

Seríamos igualmente estudantes,

Com sentimentos que se tornariam relevantes.




A rapariga que hoje está em casa fechada

Poderia estar apaixonada

E o jovem que se sente tão sozinho

Conheceria pessoalmente o seu sobrinho


Sentimentos afundados nas adversidades,

Enquanto fantasmagóricas ficam as cidades.

Sair das aulas e lanchar juntos num café?

Resta sonhar para voltar, resta ter fé.


Antes conheciam-se pessoas em conjunto,

Na nova realidade, só trabalhos como assunto.

Seremos um aglomerado de médicos satíricos,

Que socializarão apenas por métodos empíricos?


O mundo silenciou-se num anonimato,

Agora parecemos um mero substrato

Cujo produto final é o desconhecido,

Outrora o que foi quente está arrefecido.


Desta situação retiram-se alguns pontos positivos,

Poucos e fracos perante os negativos...

Por agora teremos de viver neste formato,

Quem não tem cão, caça com gato.


Ao mesmo tempo que todos lutam pela sanidade

Nós lutamos para prosperar na universidade.

Respirem, leiam este hino da saudade, 

Sabendo que no futuro haverá mais felicidade!


Por fim, ficarão sempre algumas questões:

O que seremos nós, médicos das próximas gerações?

Seremos (in)completos?

Fortemente moldados por solitários trajetos?

Autor: André Vares

Ilustração: Felipe Bezerra

DATAS ESPECIAIS | Alegoria de Carnaval

Costuma-se dizer na gíria popular que “a vida são dois dias e o Carnaval três”. Foi preciso chegar a 2021 para entender o estonteante significado por detrás da expressão. 

Na pré-pandemia creio que o povo se desfaria em animação durante três dias seguidos. Desfiles com carros alegóricos, mascarados de tudo e mais alguma coisa, festa e diversão eram ritual anual em muitas localidades portuguesas dedicadas 100% à festividade. Pessoalmente não me diz muito. Há uma vida atrás era a desculpa para um fim de semana festivo dedicado à “feira das tradições e atividades económicas” da terra natal onde o foco estava no cartaz artístico que iria animar as noites e o desfile escolar. No meu último desfile era uma “Branca de Neve” sem anões, não sei bem porquê já. Ao fim da segunda rotunda já me tinha fartado da ocasião. “O que é demais também enjoa”, um ditado popular que também se coaduna face à situação atual.

Então, mas que raio de matemática é essa em que o Carnaval dura mais que a vida? Bem, a verdade é que entre máscaras mais assim ou assado, já lá vão dois confinamentos e quase um ano onde a máscara passou a ser adereço obrigatório nos escassos desfiles à rua e mais além. Máscaras salva-vidas estas que chegaram até ao Carnaval de 2021! Há ainda quem não ache piada ao disfarce e se recuse a alinhar na seriedade, entre outros atentados às normas de saúde pública, acabando com a parada de respeito pelos que lutam contra toda esta realidade atroz. Os profissionais de saúde têm “o privilégio” de se disfarçar da cabeça aos pés todo o santo dia. Esses sim vivem um Carnaval infinito que teima em acabar. Afinal, dura muito mais que três dias até. E o mais aterrador é que para muitos, a vida teve mesmo duração inferior a este impiedoso Carnaval. 

O contador nacional mostra já mais de 15 mil vidas desaparecidas em alegoria (muitas mais pelo mundo fora) e talvez teria sido tudo diferente se a folia tivesse sido encurtada, pois, no futuro, há sempre três dias para se celebrar o Carnaval, mas nem sempre há dois dias para viver. 

Autor: Catarina Monteiro - 5º Ano

Ilustração: Guilherme Luís - 5º ano

ENTREVISTA | Dr.ª Patrícia Costa Reis

No âmbito do Dia Internacional das Mulheres na Ciência, que se assinala a 11 de fevereiro, a Revista Ressonância traz aos seus leitores uma entrevista com a médica pediatra, investigadora e Professora da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa (FMUL), Patrícia Costa Reis

Laureada em 2019 com o Prémio “Mulheres na Ciência” e nomeada ao Prémio “Mulheres Inspiradoras 2020”, nesta entrevista a Professora levanta temas importantes, como o percurso na investigação científica, e reflexões sobre a representatividade feminina na ciência.

RevR: Se tivesse de descrever o seu percurso académico em 3 palavras, quais escolheria e porquê?

PCR: Escolheria Paixão, Resiliência e Partilha. Paixão porque ser médico, professor e cientista são atividades verdadeiramente gratificantes para mim e é a paixão que dá a energia para vencer os obstáculos. Resiliência porque é preciso ter força, perseverança e muita capacidade de trabalho para seguir este percurso. Partilha porque é o que dá sentido a tudo. Muito aprendi com os meus professores e orientadores e muito espero transmitir às novas gerações. Há ainda a partilha da descoberta conjunta em equipa, o que é um enorme prazer.

RevR: Contrariamente ao panorama mundial, Portugal destaca-se no número de mulheres que estudam áreas relacionadas com a ciência. Segundo a OCDE, Portugal encontra-se acima da média, comparativamente aos outros países que integram esta Organização. Que fatores acha que contribuem positivamente para este cenário? 

PCR: Gostaria de analisar os números de uma forma diferente, uma vez que são muito elucidativos. Mundialmente estima-se que apenas 30% dos investigadores sejam mulheres. Nas posições de liderança em Ciência, este número é ainda menor. Por exemplo, menos de 5% dos galardoados com o Prémio Nobel em Química, Física ou Fisiologia/Medicina foram mulheres. São inúmeros os factores que podem contribuir para esta disparidade, incluindo factores estruturais da sociedade, culturais e educacionais. A Ciência e a Academia espelham o que se passa na Sociedade. Felizmente, em Portugal o número de mulheres dedicadas à Ciência é maior do que noutros países. Em Portugal 62% dos doutorados em Ciências Naturais, Matemática e Estatística são mulheres. Contudo, a proporção de mulheres em altos cargos académicos e executivos é de apenas 30% em Ciências Naturais e 11% em Engenharia e Tecnologia. Temos ainda um longo caminho a percorrer. Contudo, nas últimas décadas, há exemplos de mulheres cientistas de grande valor nas mais diversas áreas e em posições de liderança, que serão certamente exemplos que marcarão as próximas gerações, como é o caso de Maria do Carmo Fonseca, Maria Manuel Mota e Mónica Bettencourt-Dias. O futuro tem certamente muitos obstáculos, mas é promissor.

RevR: Se tivesse de escolher uma figura feminina que a inspire (cientista célebre, professora, colega, aluna, etc), quem escolheria e porquê?

PCR: Escolheria a Cláudia Faria, que como sabem, é neurocirurgiã no Hospital de Santa Maria, professora na Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa e cientista no Instituto de Medicina Molecular. A Cláudia é profundamente inspiradora. Dedica-se muitíssimo aos seus doentes e faz investigação de grande qualidade sobre os mecanismos moleculares que estão na origem dos tumores cerebrais, particularmente os pediátricos. Além disso, fomenta a paixão pela Ciência nos alunos de Medicina e em crianças de todas as faixas etárias. É muito desafiante e árduo ser um médico-cientista em Portugal e a Cláudia mostrou-me que é possível seguir este percurso no nosso país.

RevR: O que diria, se pudesse voltar atrás, à Patrícia com 18 anos acabada de chegar à faculdade? E à Patrícia no momento em que acabou o curso?

PCR: À Patrícia acabada de chegar à Faculdade diria para fazer Projectos GAPIC e conhecer melhor os excelentes grupos que fazem investigação no Instituto de Medicina Molecular. 

À Patrícia que acabou o curso diria para aproveitar todas as oportunidades para fazer estágios clínicos e/ou de investigação em centros de excelência pelo mundo fora. São grandes ocasiões de aprendizagem não só técnica, mas também sobre modelos de organização de cuidados de saúde e formas de prestar cuidados aos doentes. São também momentos únicos em que se criam redes de investigação e profundos laços de amizade. Tive a oportunidade de fazer vários estágios que me marcaram e que foram determinantes para a minha aprendizagem. Diria também que é fundamental ter um bom equilíbrio entre a vida profissional e a vida pessoal, o que é algo particularmente difícil na nossa profissão.

RevR: Por último, gostaria de deixar aqui algum conselho ou palavras de incentivo às jovens investigadoras ou a quem pretenda ingressar no mundo da investigação?

PCR: É um prazer enorme fazer ciência. 

Como médicos cuidamos de doentes com determinadas patologias e da observação destes doentes surgem dúvidas e hipóteses que queremos testar. Ter a possibilidade de ir para o laboratório e tentar responder a estas dúvidas e tentar avançar com o conhecimento num determinado campo é fascinante. Um médico não se deve afastar da produção de conhecimento, porque a sua experiência diária e o seu entendimento dos doentes é enriquecedor para a atividade científica e pode guiá-la no sentido de se encontrarem novas formas de diagnóstico e de tratamento, que podem melhorar a qualidade de vida dos doentes. Fazer ciência é uma extensão da Medicina.

As três características fundamentais para um bom investigador são: ser curioso; ser resiliente e ser apaixonado pela Ciência. Se este for o vosso caso, não desistam e construam o vosso próprio percurso, escolhendo sempre bons mentores que vos guiem e ajudem ao longo do caminho que terão de desbravar. 

Autor: Anamélia Almeida

Ilustração: Ana Paula Martins

Edição de Imagem: Guilherme Luís