A cultura do desperdício no século XXI

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Manhã de domingo, um dia de sol e calor na cidade do Porto.

Pós-jogo na Rua O Primeiro de Janeiro, rua à qual o Estádio do Bessa chama casa.

Entre ir do ginásio a casa de carro, ou desfrutar do pedacinho de verão a meio de Maio, aprontamo-nos para caminhar 10 minutos até casa.

Ao som de Joy Division, com as caras suadas e as pernas moídas, percorremos a rua e, apercebemos ao longe uma sombra deambulando pela estrada. Aproximamo-nos. De perto, a sombra toma a forma de um saco do lixo abandonado. Infelizmente, visto ser tão comum, ignorar é o primeiro instinto. Não seria um dia vulgar, se ao vaguear pelas ruas não se se deparasse com uma garrafa de plástico no chão, um papel de embrulho, um pacote de cigarros... Já nem parece depravado, é só mais um dia numa cidade portuguesa.

A minha reflexão é interrompida pelo movimento brusco da minha irmã a dirigir-se em direção ao saco e querer colocá-lo no lixo. Pelo menos nela, o instinto passou a ação.

Num flash, passa pela minha mente uma publicação que tinha visto dias antes.

Um colega que resolveu passar à ação: deixar discursos bonitos de parte e pôr “as mãos na massa”. Depois de um dia de aulas, decidiu tornar um caminho rotineiro, num pequeno passo em direção à mudança. Tomou uma atitude que não implicou nada mais do que tempo e determinou-se a recolher tudo o que era resíduo do chão, entre a escola e sua casa. Chegou ao final de um percurso de 10 minutos com 3 sacos de lixo industriais cheios de detritos abandonados à mercê da degradação indeterminada. Numa perspetiva de alastrar o valor de responsabilidade ecológica, e de fomentar mais comportamentos similares, partilhou nas redes sociais os seus resultados.

A publicação ficou-me na memória, e a inspiração passou.

Conseguiu cumprir o seu objetivo.

Fez-me entender que por mais que nos queixemos da falta de políticas económico-sociais desenvolvidas pelo governo no âmbito de proteção ambiental, as palavras não bastam (e o propósito da sua repetição até é questionável). Temos de ativamente participar para salvaguardar a subsistência do ambiente.

Nós próprios, com as nossas duas mãos, dispensando de 10 minutos no meio de 1440 do nosso dia, podemos reduzir o lixo das ruas, impedindo que atinja os oceanos, promovendo também a higiene e o aspeto estético das nossas cidades.

Então porque não nós as duas neste pequeno trajeto? Porque não aproveitar este saco que já encontrámos e utilizá-lo para recolhermos alguns plásticos que encontremos?  Decisão tomada, missão adotada.

Rapidamente um saco deixou de chegar, e ao encontrarmos um saco de compras no meio da estrada, começámos a separar o que eram beatas de cigarros, de tudo o que era plástico, para mais à frente separar e reciclar.

Num dia de pós-jogo, a rua estava recoberta de restos de humanidade festiva. Sejam plásticos de chiclete, pacotes de cigarros, batatas fritas, latas de refrigerantes e cerveja ou embalagens de refeições já preparadas. O resultado final foi este: três sacos cheios, uma rua um pedacinho mais limpa, e dois sorrisos. E que aventura. As sensações viajam entre a vergonha, o cansaço, a determinação, o bem-estar, o orgulho a frustração, a raiva, o desgosto. Andámos vergadas a apanhar coisas putrefactas enquanto outros passam por nós intrigados. Aparecem as cãimbras nas costas e nos joelhos. Reparamos na quantidade que já retirámos das ruas. Enche-se um saco, uma quantidade razoável, e sem dúvida a diferença já fizemos. Mas queremos mais. Queremos limpar a rua inteira, e aqui já não importa quem passe por nós, ou os seus julgamentos. Sabemos que estamos a fazer a coisa certa, e pode ser que uma destas pessoas que se cruze conosco ganhe coragem para fazer o mesmo. Enchemos o terceiro saco, apercebemos-nos do ponto ridículo ao qual o egoísmo, o egocentrismo, a indiferença chegaram.

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A altura chegou de valorizarmos a expressão “Ações falam mais alto que palavras.” Desprezar, descartar, ignorar não pode ser aceitável.  O nosso processamento tem ir além do nulo: já nem nos apercebemos, nem sequer integramos a informação. Mas o que é facto é que, se todos nós deitássemos igualmente garrafas de plástico no chão, invólucros de bolachas, flyers publicitários para o chão, neste momento estaríamos soterrados em tralha inútil, sem significado, sabotando a existência uns dos outros. “Eu só deixei cair um papel, um não faz diferença. Querias o quê? Me baixasse para o apanhar?”. E é gente assim que habita o planeta em 2019.

E no fundo o que é que custa? Seremos assim tão sedentários e preguiçosos que não podemos aguentar com o lixo na mão até encontrar um caixote? A preguiça e o facilitismo são sem dúvida dois traços característicos da nossa sociedade atual. Não estará na altura de olharmos para os nossos umbigos numa perspetiva de melhorar? De sermos adultos, aceitarmos os nossos erros passados e tomarmos as críticas de forma construtiva?  Vemos constantemente conquistas de outros diante dos nossos olhos e congratulamos, quase sentimos orgulho pelas resoluções dos outros, as nossas ânsias apaziguam-se por poucos momentos. Esquecemos é que de nada serve, ficar à espera que outros façam por nós.

Ora, caros leitores, uma coisa é certa: as nossas mãos são do tamanho que nós queiramos que elas sejam. E sendo assim, termino com um desafio. Que todos os que me acompanharam neste devaneio se aventurem e se determinem a fazer de uma caminhada da Faculdade até casa, uma coisa proveitosa.

Porque se queremos que alguma vez os nossos netos e bisnetos pisem esta terra, teremos de recolher muito lixo do caminho.

Catarina Cardoso, 2º ano

Médicos ou Políticos - Qual a melhor solução para a gestão de um sistema de saúde?

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Na Grande Reportagem da XXIX edição da revista RESSONÂNCIA, debruçámo-nos fundamentalmente sobre o financiamento dos sistemas de saúde. Agora, daremos continuação à discussão do tema, dedicando mais atenção à sua gestão e organização.

O SISTEMA DE SAÚDE PERFEITO?

Continuamos sem resposta para a pergunta “Qual é o melhor sistema de saúde?”. O Euro Health Consumer Index (EHCI) 2017 apresentou como título da sua nota introdutória “Sem sinais de um modelo-padrão de saúde europeu... e talvez isso seja algo positivo?”. Determinar o melhor sistema de saúde do mundo é tarefa impossível, na medida em que a seriação dos países sob a forma de ranking depende dos parâmetros que decidirmos avaliar e da ponderação que atribuirmos a cada um. Mesmo que fosse possível determiná-lo, seria necessário muito cuidado na transposição acrítica de conclusões para a realidade portuguesa. Cada país possui um contexto sócio-económico-cultural específico e, ao invés da uniformização, devemos procurar a individualização e personalização das políticas de saúde a cada um.

Porém, isto não implica que não podemos aprender com outros países e introduzir no nosso sistema alguns dos aspetos que são consensualmente tidos como contribuidores para o sucesso de alguns modelos de gestão de saúde. Existem vários relatórios de rankings (como é exemplo o EHCI) que, apesar de terem um valor relativo, nos permitem comparar o nosso Sistema Nacional de Saúde (SNS)  com outros sistemas estrangeiros que estão sistematicamente melhor pontuados e nos apresentam as explicações mais claras para esses resultados. A edificação, gestão e remodelação de um sistema de saúde devem seguir a melhor evidência disponível, sendo evitáveis discussões que se cinjam a argumentos de cunho ideológico ou que não tenham sustentação empírica.

O EHCI é considerado como uma avaliação altamente credível dos sistemas de saúde europeus, afirmando medir não o melhor sistema de saúde em si, mas aquele que é mais consumer friendly. Avalia seis parâmetros: direitos dos utentes e informação; acessibilidade (incluindo os tempos de espera para tratamento); outcomes; alcance dos serviços fornecidos; prevenção; e fármacos. Dada a robustez e pertinência deste ranking, vejamos em maior detalhe as suas conclusões.

No cômputo geral, o EHCI conclui que os sistemas Beveridge apresentam melhores outcomes e operacionalidade em pequenos países, como a Islândia, Dinamarca e Noruega. Os sistemas Bismarck tendem a surgir no topo do índice, enquanto que os sistemas Beveridge de países com populações elevadas surgem no meio da lista.

Em maior detalhe, o EHCI 2017 atribuiu os primeiros cinco lugares gerais nestas categorias aos seguintes países: Holanda, Suíça, Dinamarca, Noruega e Finlândia (por ordem decrescente). A Holanda destaca-se por ocupar o top 3 do ranking desde 2005 e ter surgido na primeira posição até 2017 (no EHCI 2018, a Suíça passa a ocupá-la). Por outro lado, Portugal surge na 14.ª posição neste ranking.

QUAL É O SEGREDO DO SISTEMA DE SAÚDE HOLANDÊS?

Vejamos brevemente o sistema de saúde holandês. É caracterizado por múltiplos fornecedores de seguros de saúde maioritariamente privados, sem fins lucrativos e em competição, separados dos hospitais e prestadores de serviços, também privados e sem fins lucrativos, sendo os cidadãos obrigados a ter um seguro de saúde. Estas entidades podem apenas recolher lucro sob a forma de suplementos, são altamente reguladas e não podem rejeitar doentes, fornecendo o Estado suplementos a indivíduos com condições crónicas ou de elevado risco, que de outro modo não teriam acesso a cuidados de saúde.

No entanto, apesar desta arquitetura financeira, o EHCI sugere que no cerne deste ranking está o facto de as decisões operativas de saúde serem tomadas, em elevado grau, pelos profissionais de saúde, com o consentimento e informação do utente e de serem relativamente independentes dos políticos, dos burocratas e das agências financiadoras.

Por outro lado, um dos principais problemas do sistema holandês é a sobreutilização do inpatient care (tratamento que requer admissão hospitalar). Neste aspeto, Portugal é o segundo país com menor percentagem, um dado positivo que indica que os procedimentos são tendencialmente menos invasivos e há menos complicações dos mesmos.

Perante as notórias discrepâncias entre os sistemas de saúde holandês e português, e tomando por base o relatório Um Futuro para a Saúde, da Fundação Calouste Gulbenkian, decidimos enumerar seis principais fatores que carecem de abordagem e correção mais urgente, bem como algumas propostas nesse sentido.

1. POR UMA MAIOR SUSTENTABILIDADE DO SISTEMA DE SAÚDE

Atualmente, Portugal vive um período de instabilidade no que toca à gestão e financiamento dos serviços de saúde. Estima-se que a dívida do SNS a fornecedores, prestadores de serviços e credores tenha ascendido aos 2,9 mil milhões de euros. Simultaneamente, o subfinanciamento do SNS, a burocracia e a elevada centralização de poderes de gestão têm impedido uma alocação racional dos recursos e ajustada às necessidades dos doentes e utilizadores dos serviços de saúde.

Várias tendências futuras, como o aumento da população envelhecida (com pluripatologias e polimedicada) e da prevalência de doenças crónicas (como a diabetes, as doenças cardiovasculares ou as doenças oncológicas), constituem um peso crescente para a sustentabilidade do sistema.

Para garantir a mesma, será necessário:

  • Promoção de uma população saudável, consolidando a resiliência e robustez dos indivíduos, comunidades e sociedade em geral, e admitindo a centralidade da promoção e proteção da saúde como forma de evitar o recurso aos cuidados de saúde por doença;

  • Redução da morbilidade, particularmente a que se encontra associada às doenças crónicas;

  • Procura de melhoria contínua da qualidade com base na melhor evidência;

  • Promoção de redes sólidas de cuidados de saúde informais, nomeadamente famílias, vizinhos e comunidades;

  • Conceção de um sistema de cuidados de saúde centrado nas pessoas, eficiente e adequado aos objetivos;

  • Garantia da alocação de recursos humanos adequados, qualificados e que trabalhem em equipa;

  • Desenvolvimento de um enquadramento regulador flexível, eficiente e descentralizado para novos equipamentos médicos, terapêuticas e práticas médicas, na medida em que a regulação no seu estado atual é vista como consumidora de recursos, ineficiente, burocrática e castradora da inovação.

2. POR UM MAIOR EMPODERAMENTO DOS CIDADÃOS EM MATÉRIA DE SAÚDE

Uma melhoria nos cuidados de saúde e nos outcomes em saúde passará, primariamente, pelo aumento da participação ativa dos cidadãos e de todos os setores da sociedade. É premente que os doentes e pacientes sejam empoderados, e que todos os cidadãos possam ser co-produtores de saúde. Há que subverter a visão paternalista da Medicina e do Estado, bem como à atitude passiva que se desenvolveu nas relações entre estas entidades - possivelmente um resultado da elevada sotisficação e complexidade da Medicina e dos sistemas de saúde, intimidando e afastando cidadãos mais leigos.

Neste sentido, há que incentivar o autocuidado, a autonomia na realização de escolhas e a educação e literacia em saúde. As intervenções a estes níveis passarão por:

  • Disponibilização e posse de informação pessoal sobre a saúde (registo eletrónico);

  • Acesso a informação sobre a qualidade e os custos dos serviços de saúde, com envolvimento ativo na tomada de decisão médica;

  • Realização de programas de literacia em saúde;

  • Promoção de iniciativas concertadas dos cidadãos, sociedade em geral e profissionais de saúde;

  • Representação dos cidadãos em órgãos de gestão de instituições de saúde.

Os paradigmas em saúde estão a mudar e não há como ignorar a tendência para a Medicina personalizada, humanista, centrada no doente e baseada em equipas multidisciplinares de profissionais.

3. POR UM SISTEMA DE PRESTAÇÃO E GESTÃO DE CUIDADOS DE SAÚDE DESCENTRALIZADO E REGIONALIZADO

Uma iniciativa com enormes retornos será a transmissão dos cuidados de saúde a entidades como as regiões, autarquias e sociedade civil em geral. Esta medida teria impactos positivos a vários níveis. Financeiramente, os cuidados de saúde informais poupam 7,5 milhões de euros ao nosso SNS todos os anos (tenhamos em conta que uma prestação pública e descentralizada de cuidados os torna mais flexíveis) e estima-se uma potencial redução dos gastos em custos administrativos na ordem dos 25% caso se aplicassem as seguintes medidas:

  • Promoção da responsabilidade local, delegando mais autoridade e competências nas organizações locais do SNS, propiciando uma redução de pesos desnecessários ou duplicados de regulamentação e de supervisão;

  • Transferência de financiamento das funções de supervisão e regulação para as entidades que apoiam a implementação e a prestação de serviços (supervisão de proximidade);

  • Aumento da responsabilização em todas as decisões clínicas e de gestão, com consequente melhoria dos processos de decisão, beneficiando assim o funcionamento e a eficiência de todo o sistema.

No fundo, esta alteração teria por base uma promoção dos profissionais de saúde como agentes da mudança e de melhoria, que passariam a desempenhar novos papéis, nomeadamente de gestão, assumindo um papel reforçado na organização dos seus serviços (detalharemos mais adiante este ponto).

4. POR UM SISTEMA DE SAÚDE BASEADO NOS RESULTADOS

Um sistema de saúde deve basear-se na procura continuada de melhoria da qualidade (segurança, eficácia, foco no doente, atendimento atempado, eficiência e equidade), apostando em serviços de tratamento precoce, sempre fundamentado namelhor evidência científica disponível, procurando atingir melhores outcomes e reduzir eventuais desperdícios. Nos Estados Unidos da América, por exemplo, estima-se que 30-40% da despesa nacional em cuidados de saúde constitua desperdício e que mais de um ⅓ do mesmo se relacione com custos administrativos excessivos.

O EHCI propõe ainda, com base no caso holandês, sistemas de financiamento baseado na performance - performance-based financing (PBF) systems - nos quais os serviços recebem um valor orçamentado com base nos outcomes que apresentam. Com isto, seria evitada a inequidade que se verifica na distribuição dos recursos, com benefício dos hospitais urbanos (particularmente os universitários) e com prejuízo das unidades de cuidados nas regiões rurais e do interior do país.

5. POR UM SISTEMA PREPARADO PARA ENFRENTAR AS DOENÇAS CRÓNICAS

Outro ponto particularmente relevante é a incidência e a mortalidade pelas doenças crónicas de longa duração. Os números disponíveis para os países ocidentais de elevado rendimento sugerem que cerca de 5% dos doentes absorvem 40% dos recursos de cuidados de saúde, enquanto 10% absorvem mais de metade. No Reino Unido, por exemplo, 70% da despesa total em cuidados de saúde e cuidados sociais corresponde ao tratamento e aos cuidados de saúde de pessoas que sofrem de doenças de longa duração.

Estes custos irão exacerbar-se com o envelhecimento da população e o aumento da esperança média de vida, pelo que se torna urgente procurar soluções que zelem pela sustentabilidade financeira do SNS a este nível, tais como:

  • Introdução de novos mecanismos financeiros e de incentivos baseados nos resultados, promovendo uma maior custo-eficácia (como os PBF systems);

  • Criação e fortalecimento de redes de especialidades e de novos modelos de serviços que prestem cuidados de saúde integrados, domiciliários e de proximidade no âmbito das doenças crónicas;

  • Maior enfoque na prevenção e na promoção da saúde, ao invés da doença.

Em aparência, é mais fácil despender dinheiro a curto prazo para atuar sobre a patologia do que abordar a sua etiologia (por vezes, com causas socioeconómicas muito profundas). Contudo, vários estudos demonstram que a prevenção de várias doenças, particularmente as crónicas, é mais custo-efetiva que o tratamento das mesmas em fases avançadas.

6. POR UM SISTEMA MODERNO E QUE ABRACE AS NOVAS TECNOLOGIAS

Por fim, deve fazer-se uso de novas tecnologias e avanços científicos, tanto a nível da prática clínica como a nível organizacional, tais como os registos de saúde eletrónicos e o eHealth que, segundo o EHCI 2017, terá também contribuído para a excelente posição da Holanda. Eis algumas propostas a este nível:

  • Desenvolvimento do Registo de Saúde Eletrónico - registo integrado de todas as informações relacionadas com a saúde de um dado doente, podendo ser consultado e gerido por ele. Também reduz a burocracia e auxilia a prática médica, reunindo num local toda a história clínica do doente;

  • Utilização de telemóveis para monitorização e aconselhamento dos doentes;

  • Maior articulação entre o SNS e as unidades de investigação e produção científica, como forma de garantir que a inovação é mais rapidamente integrada nos serviços médicos.

Ainda assim, há que ter cuidado com o tecno-otimismo - a crença de que novas tecnologias solucionarão os problemas - e ter sempre em conta possíveis custos humanos e financeiros, bem como as consequências das mesmas.

OS CAMINHOS ADIANTE: COOPERATIVAS DE SAÚDE

Ultimamente, tem ganho notoriedade internacional o modelo de cooperativas de saúde (health cooperatives). As cooperativas representam um modelo de gestão preconiza a posse conjunta e democrática dos cuidados de saúde pelos trabalhadores, consumidores ou outras entidades envolvidas. Competem no mercado como qualquer outra empresa, mas não envolvem o pagamento de dividendos a acionistas, existindo um reinvestimento dos lucros na melhoria dos serviços e garantindo a sua sustentabilidade. Ao invés de existir uma preocupação com o aumento dos retornos financeiros a curto ou médio-prazo, procura-se um planeamento e sustentabilidade a longo-prazo.

O surgimento deste modelo de gestão baseia-se em três objetivos:

  • Aproximar profissionais de saúde e utilizadores no sentido de conciliar a oferta e a procura de serviços;

  • Gestão de custos e riscos partilhada;

  • Prestação da melhor qualidade possível de serviços.

Perante os já descritos fatores geradores de insustentabilidade dos sistemas, as cooperativas de saúde têm demonstrado a sua enorme capacidade de se adaptar mais rapidamente a novos contextos sociais, económicos, culturais ou etiológicos, assumindo formas diferentes perante estas condicionantes, e evoluindo em resposta a novos problemas. Têm a capacidade de agregar recursos para responder a falhas dos mercados e outros pontos de menor qualidade, como inacessibilidade ou ausência de certos serviços ou produtos, e a prestação de cuidados grupos que poderiam ser, de outra forma, excluídos.

A responsabilidade pela sua gestão pode ser feita de várias formas:

  • Cooperativas de trabalhadores (médicos, enfermeiros, farmacêuticos e outros profissionais de saúde), com o objetivo de lhes permitir o controlo e gestão dos serviços, maior independência nas decisões clínicas e uma menor sujeição a pressões externas, nomeadamente de poderes administrativos centralizados (ex.: as cooperativas Asisa e Assistència Sanitària, em Espanha)

  • Cooperativas de produção, ao nível farmacêutico (ex.: em Espanha, Bélgica e Itália)

  • Cooperativas de utilizadores, que gerem serviços de auxílio perante dificuldades de acesso aos cuidados ou exclusão de determinados grupos (ex.: no Japão, Singapura e Canadá)

  • Cooperativas mistas, envolvendo múltiplas entidades (ex.: cooperativas sociais italianas, ou a cooperativa Scias em Espanha)

Segundo dados de 2016 das Nações Unidas, este modelo de gestão abrange 76 países, regista um total de 3300 cooperativas e mobiliza cerca  de 15 biliões de dólares. Segundo o The Cooperative Health Report, da autoria da IHCO (International Health Cooperative Organisation) e EURICSE (European Research Institute on Cooperative and Social Enterprises) em 2018, as cooperativas de saúde têm aumentado de importância nas últimas duas a três décadas em todos os países que as desenvolveram como reação à exigência crescente de serviços de saúde, que não estava a ser devidamente colmatada por parte das autoridades públicas.

Na prática, as cooperativas fornecem cuidados variados e extensos, produzindo simultaneamente outcomes positivos, como são exemplo as clínicas comunitárias do  Saskatchewan, Canadá, em que o envolvimento dos consumidores nos serviços de apoio domiciliário produziu um aumento da qualidade dos cuidados. Para mais exemplos, remetemos um relatório da Universidade de Saskatchewan, que pode ser consultado aqui.

CONCLUSÃO

Os cuidados de saúde são um dos traços definidores da era contemporânea. É extraordinária a forma como em cerca de 100 a 200 anos nos libertamos de tanta tragédia e ignorância nesta área e passámos a viver vidas melhores, mais longas e mais plenas. Com todo este avanço, veio também uma complexidade crescente na forma como estes cuidados são criados, administrados e financiados, pelo que esta faceta fundamental da vida atual parece agora intransigente para a maioria da população.

Para bem ou para mal, não existe uma forma perfeita de gerir esta complexidade. Devemos estar cientes daqueles que são os princípios e ideais norteadores da prestação dos cuidados de saúde e, perante estes, lutar por um sistema de qualidade, moderno, e capaz de fazer frente aos desafios do presente e do futuro. Lutar pela sustentabilidade e descentralização dos cuidados, para que os profissionais de saúde efetivem um verdadeiro e duradouro impacto nas suas comunidade. Lutar pela informação e empoderamento e dos cidadãos e dos doentes, para que tomem controlo dos seus destinos e se tornem membros ativos da sociedade civil.

Reforçamos, uma vez mais, a principal conclusão do EHCI 2017: a necessidade de remover os políticos e burocratas do processo operativo de tomada de decisão em saúde e devolvê-la aos médicos, gestores e profissionais de saúde no terreno, a nível local, permitindo que não só estes, mas também os doentes se tornem agentes na forma como os seus cuidados de saúde são administrados e fornecidos.

Para mais informações, recomendamos a consulta de forma aprofundada as fontes acima elencadas, que, apesar da sua extensão, primam pela sua excelente qualidade. Além destas, recomendamos as análises do Commonwealth Fund, os relatórios Health Systems in Transition e as revisões da OECD Reviews of Health Care Quality, consultáveis nos websites do Commonwealth Fund, do European Observatory on Health Systems and Policies, e da OECD, respetivamente.

Particularmente em relação à descentralização dos sistemas de saúde, dado ser um tópico de grande relevância mas de alguma complexidade, remetemos o seguinte relatório  do European Observatory on Health Systems and Policies, intitulado Decentralization in Healthcare, que explora de forma bastante completa e aprofundado este assunto, e pode ser consultado aqui.

Finalmente, deixamos um último recurso em complemento à Grande Reportagem, que enumera uma série de argumentos e contra-argumentos relativamente às várias formas de financiamento dos sistemas de saúde, consultável aqui.

BIBLIOGRAFIA

  1. Björnberg, A. (2018). Euro Health Consumer Index 2017. Stockholm: Health Consumer Powerhouse.

  2. Björnberg, A., Phang, A. Y. (2019). Euro Health Consumer Index 2018. Stockholm: Health Consumer Powerhouse.

  3. Crisp, L. et al (2014). Um Futuro para a Saúde. 1st ed. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian.

  4. Un.org (2018). Healthcare cooperatives: a reliable enterprise model for health and wellbeing. United Nations.

  5. Borzaga, C. et al (2018). Cooperative Health Report 2018. International Health Cooperative Organisation & Euricse.

  6. Leviten-Reid, C. (2009). The Role of Co-operatives in Health Care: National and International Perspectives. Saskatoon: Centre for the Study of Co-operatives, University of Saskatchewan.

  7. Saltman, R. B., Bankauskaite, V., Vrangbaek, K. (2007). Decentralization in Healthcare. Maidenhead: European Observatory on Health Systems and Policies Series.


António Velha, 3º ano

Vasco Lobo, 3º ano

PÁRA-ME DE REPENTE O PENSAMENTO…

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“Aqui não há malucos, aqui há doentes... doentes da cabeça”

Uma das frases mais icónicas e que melhor resume o documentário de Jorge Pelicano.

“Pára-me de repente o pensamento” dá-nos a oportunidade de conhecer a realidade de um hospital psiquiátrico, longe dos clichés e extravagâncias de Hollywood. Trata-se de um retrato intímo da vivência diária dos doentes do Hospital Conde de Ferreira, que nos conduz numa viagem pela experiência da doença psiquiátrica, em particular o mundo interior da esquizofrenia, lado a lado com os doentes.

Ao longo deste documentário, temos o privilégio de ouvir os relatos e conhecer através da câmara do realizador a perspectiva de cada individuo sobre a vivência da sua doença, uma experiência pessoal e única, e a percepção sobre as enfermidades dos que o rodeiam, numa atitude de escuta e compreensão que gera uma dinâmica de apoio e solidariedade inestimável.

A incrível capacidade de transmitir a realidade, sem manipulações, onde muitos mitos sucubem à veracidade da lente perspicaz de Jorge Pelicano, torna este documentário uma valiosa referência para a desmistificação da doença mental.

Testemunhamos durante esta obra, a inestimável sabedoria dos doentes, com diálogos de uma profundidade largamente contrastável com as conversas dos dias de hoje, num ritmo calmo e atento, sem pressas nem segundas intenções. Vemos doentes que nos explicam a sua doença e auxiliam os demais residentes do Conde de Ferreira a compreenderem e aceitarem a sua própria aflição, numa atitude de estima e preocupação, longe do estigma implantado na sociedade portuguesa.

Em suma, experiencia-se um sentido de humanidade e empatia naquela que é uma experiência heterógenea.

E temos no centro desta nossa viagem um pintor e poeta da geração de Orpheu, Ângelo de Lima, interpretado pelo actor Miguel, ao torno do qual esta obra se desenvolve. Além de um grande artista, que captou as atenções do movimento modernista e em particular de Fernando Pessoa, temos um ser humano que viveu uma longa porção da sua idade adulta entre hospitais psiquiátricos.

Diagnosticado com esquizofrenia paranóide em tenra idade, cerca de 20 anos, Ângelo foi um dos mais famosos residentes do Hospital Psiquiátrico Conde de Ferreira, e mais tarde do Rilhafoles, posteriormente designado Hospital Psiquiátrico Miguel Bombarda, onde viriam a falecer tanto Ângelo como o médico que o acompanhou e apelidou este hospital.

É a minha humilde opinião que o mais impactante soneto de Ângelo de Lima tenha sido o que deu nome a este documentário. Uma construção poética que nos conduz na alucinante jornada do pensamento deste artista e nos faz compreender a frase que o Dr Miguel Bombarda usou para a descrever: “O fundo mental deste doente é de um formidável desequilíbrio”.

“Pára-me de repente o Pensamento...

Como que de repente refreado

Na Douda correria em que levado...

Anda em busca da paz, do esquecimento...

Pára surpreso... escrutador... atento

Como pára... um cavalo alucinado

Ante um abismo... ante seus pés rasgado

Pára... e fica... e demora-se um momento...

Vem trazido na douda correria

Pára à beira do abismo e se demora

E mergulha na noite, escura e fria

Um olhar d’Aço que na noute explora...

Mas a espora da dor seu flanco estria...

E ele galga... e prossegue... sob a espora”

Se lermos atentamente e nos deixarmos levar por estas palavras, quase conseguimos sentir a aflição do poeta, que perante a alucinante velocidade e descontrolo do seu pensamento, tem um período de breve acalmia rapidamente interrompida pelo continum sofredor do barulho da sua mente. Temos acesso a uma transmissão por via da arte da experiência de Ângelo com a doença que o assolou e que ele nos descreve nesta breve, mas profunda, composição.

É impossível chegar ao fim deste documentário e reter a mesma imagem do doente psiquiátrico que a indústria cinematográfica nos traz. É impossível ficar indiferente ao estigma e ao tratamento diferencial que damos às doenças psiquiátricas, à segregação que fazemos, consciente ou não.

Vemos um hospital isolado da cidade que o alberga, pelas suas altas grades, um remanescente da sua original arquitectura de 1883, mas que ainda hoje é um reflexo da visão comunitária do doente psiquiátrico.

Num país em que 1 em cada 5 portugueses sofre de uma doença de foro psiquiátrico, com a 2ª maior prevalência da União Europeia, torna-se ainda mais urgente desmistificar a doença mental.

O Estigma relacionado com a doença mental resulta maioritariamente do medo do desconhecido e de uma conjugação de falsas crenças e pressupostos, que geram ignorância e potenciam a incompreensão. É um fenómeno complexo profundamente enraizado na sociedade e responsável por atitudes e processos de marginalização e exclusão social. Quando as crenças negativas do estigma público são internalizadas pelo doente surge o auto-estigma, levando a uma perda de auto-estima e auto-desvalorização, que conduzem ao progressivo isolamento social, e que pioram o prognóstico destes doentes. Podemos constatar facilmente a existência dos mais variados estereótipos e conotações negativas atribuídos às afecções psiquiátricas, desde o doente sem sucesso ao doente violento e perigoso, desde o “maluco” ao instável sem cura.

E é aqui que o documentário de Jorge Pelicano poderá ser considerado uma autêntica obra de serviço público, de inegável importância na actualidade.

Uma obra que nos faz questionar o porquê das ideias pré-concebidas, dos estereótipos construídos em torno destes doentes, que nos levam a isolá-los em hospitais que criam o seu próprio “mundo” e se isolam do resto da cidade, que os isolam do mundo. Uma obra que desmistifica grande parte dos mitos e crenças, e contribui para a literacia do comum cidadão, para uma sociedade em que a doença mental não seja um tabu e muito menos uma vergonha ou uma origem de perigo.

A doença mental não existe num universo paralelo ao da doença física, não são duas realidades opostas, e ambas formam o continum necessário à saúde. E para que haja saúde plena é necessário integrar todos os indíviduos, respeitar e não estigmatizar.

Porque afinal de contas... “Aqui não há malucos, há doentes...”.

Maria H. Viegas, 3º ano

Ilustração por Eduarda Costa, 5º Ano

Michael Jackson - uma história de reis e deuses

Michael Jackson e Wade Robson ©HBO

Michael Jackson e Wade Robson ©HBO

Poetas dirão que um homem morre duas vezes: a primeira quando o seu corpo físico pára, a segunda quando a última pessoa que o conheceu dá o seu último suspiro. Certas (poucas) formas de perdurar além dessa lei incluem a arte e os feitos históricos, de modo que alguns atingem um estado de quase imortalidade, como Arquimedes, Júlio César ou Leonardo da Vinci. Com o tempo, Michael Jackson irá muito provavelmente juntar-se a eles.

Para a larguíssima maioria dos seres humanos nascidos entre as décadas de 70 e 90, a música de Jackson está, invariavelmente, integrada nas suas vidas, conjurando memórias de casamentos, discotecas e coreografias espontâneas em festas de Halloween. A voz era angelical, a dança era electrificante e o talento era inquestionável. Michael Jackson transcendia etnias, géneros, fronteiras e distâncias. Ser fã de Jackson era ser fã de um arranha-céus ou de uma corporação. Ou mesmo de um deus. No final dos anos 80 começaram as modificações corporais. Em 1993, a primeira criança falou.

Vi, há umas semanas, as quatro horas de Leaving Neverland. Para além das grotescas e minuciosas descrições de alegados actos sexuais, não há muito de especialmente revelador no documentário emitido em março pela HBO. Que Jackson era acompanhado por crianças que deviam estar na escola, e não misturadas com o jet-set internacional, era basicamente sabido e aceite por milhões de pessoas. Mesmo antes de clicar no play, sabia essencialmente o que iria ver. Há muito tempo que o público, dos fãs incondicionais aos apreciadores ocasionais, tem noção da sombra que envolve Jackson. O mundo, especialmente na América, conhecia a sua singular e heterodoxa auto-destruição há décadas. Simplesmente escolheu ignorá-la. Sobre o referido documentário, um jornal americano clamouNation in shock as documentary confirms everything they already knew about Michael Jackson’.

O problema é que ninguém quer o Michael Jackson de Leaving Neverland. Legiões de fãs afro-americanos aprenderam a compartimentalizá-lo quando viram a capa de Thriller, separando o génio dos facelifts, das rinoplastias e da pele cada vez mais clara. Simultaneamente, progenitores caucasianos deixaram-se encantar por uma alma gentil e infantil, o filho pródigo da América. O mesmo fascínio que levava pais a deixar os filhos menores dormir com o cantor, alegadamente cegos para abusos sexuais, era e é partilhado por milhões de pessoas, não tivesse Jackson abalado o mundo da música de uma forma que ainda hoje, 40 anos depois, soa revolucionária.

Contudo, as acusações também perduraram. Os testemunhos de Leaving Neverland são poderosos, gráficos e convincentes. Wade Robson e James Safechuck, na altura entre os 5-10 anos, descrevem a proximidade com o cantor como algo hipnótico. Ambos defenderam Jackson contra as alegações de 1993, retiradas depois de a vítima receber quase 25 milhões de dólares. Em 2003, novas acusações, ilibação total. Os próprios Robson e Safechuck viriam a processar Jackson, em 2013 e 2014, tendo os casos sido rejeitados por falta de provas. Jackson morreu há quase uma década, sem um único crime provado. A sua família definiu o documentário como linchamento público e processou a HBO. Um novo documentário, Investigating Neverland, conta a história do ponto de vista da sobrinha do cantor, Brandi Jackson, que manteve uma relação com Wade Robson durante sete anos, algo não referido em Leaving Neverland. Entre críticas aos acusadores e ao documentário original, como uma incongruência na timeline, admitida até pelo realizador, a polémica subsiste.

Apesar do terramoto internacional gerado por Leaving Neverland, uns minutos nas redes sociais mostram uma cisão monumental e diversa no público. Se há os que olham para o documentário como uma revelação chocante ou uma confirmação do esperado, há em igual medida todos aqueles que ou defendem a inocência do cantor, frisando a falta de provas, a volatilidade dos acusadores e as absolvições, ou afirmam que se interessam apenas pela música, ou ambos. Jackson mantém a sua influência mística: uma estrela não comete crimes.

No entanto, já não estamos em 1993 e Leaving Neverland coloca-nos um dilema moral enquadrado na era do #MeToo. Acreditando nas acusações, deveria haver algum tipo de consequência. Boicotar Jackson é sinalizar às suas vítimas que as ouvimos, que iremos deitar abaixo um falso ídolo. De facto, estaremos a apoiar todas as vítimas de crimes sexuais, a passar a mensagem de que o seu sofrimento é mais importante para nós do que as vidas dos seus agressores, mesmo que estes sejam tremendamente ricos, poderosos e talentosos. Não podemos processar Jackson mas podemos apagar as marcas da sua passagem na Terra, agir como se apenas o criminoso tivesse existido. Só que aí começa o desafio. Poderemos prejudicar o seu legado e apagá-lo da nossa consciência colectiva?

A vida e obra de Michael Jackson caminham de mãos dadas nos últimos 60 anos da História. Juntas, fizeram dele um fenómeno cultural de ramificações imensuráveis, muito para além da música. Na dança, Jackson foi um big bang, catapultando os estilos negros e passos obscuros, como o icónico moonwalk, para a ribalta, uma revolução em expansão ainda hoje. Da estrela cubana do ballet Carlos Acosta ao inspirador contemporâneo do asiático Akram Khan, a influência de Jackson foi imensa. Por muito que queiramos aplicar uma cancel culture, pura e simplesmente não existe um precedente para um cenário com a magnitude de Michael Jackson. Sim, estações de rádio na Nova Zelândia, no Reino Unido e no Canadá pararam de emitir a sua música; The Simpsons deixou de emitir o episódio com ele; estátuas têm sido destruídas e celebridades têm condenado o ídolo que outrora amaram. Ainda assim, mesmo que todos os serviços de streaming do mundo removessem as suas canções, continuariam a existir mais de 60 milhões de cópias físicas de Thriller espalhadas pelo globo. A própria existência de Jackson foi considerada um dos 80 momentos que moldaram o século XXI, juntamente com a world wide web, a Declaração Universal dos Direitos Humanos ou a bomba atómica. Desde que o documentário foi anunciado, vendas e streamings voltaram a aumentar. Michael Jackson é demasiado massivo para ser cancelado. Mas ouvi-lo não parece correcto.

Incapaz de castigar o músico, a consciência do planeta precisa de algum apaziguamento. Não podendo nunca vir a ter a certeza sobre o que se passou no rancho de Neverland, as questões permanecem: Deveremos deixar de o ouvir? Apreciar a sua música faz de nós más pessoas? Bom, rever os nossos sentimentos em relação a outros casos pode ser útil. Alegações de assédio, má conduta e crimes sexuais pairam sobre centenas de celebridades. Kevin Spacey e Harvey Weinstein são agora nomes tóxicos em Hollywood. Deveremos erradicar a popular série House of Cards ou o filme de culto Pulp Fiction? Ignorar os contributos de Bill Cosby e R. Kelly para a indústria? Eliminar Dustin Hoffman, Louis C.K., Casey Affleck ou Bryan Singer? Deveremos cancelar todos os filmes, séries, canções, musicais, sitcoms e espectáculos com eles relacionados? Dylan Farrow, a filha de Woody Allen, acusou o pai de a ter violado em 1992, quando ela tinha apenas 7 anos. Roman Polanski fugiu dos Estados Unidos depois de ter sido acusado de drogar e violar uma rapariga de 13 anos em 1977. Deverei deixar de considerar Annie Hall e The Pianist como dois dos melhores filmes que já vi e nunca mais sequer falar deles?

É verdade que cinema e música não são exactamente comparáveis. Um filme é muito mais do que o seu realizador ou protagonista, envolve a colaboração de variadíssimas artes, ao passo que uma canção se pode dever em larga medida a quem a canta. Mas um crime sexual é imperdoável, é sujo, é vil. Tudo aquilo e todos aqueles associados ao criminoso partilham da sujidade e da vileza, em maior ou menor medida. Então onde colocar a linha? Quanto é que um indivíduo precisa de estar envolvido num trabalho para que dele seja considerado indissociável? Onde é que deixa de ser conveniente para o nosso entretenimento e passa a irritar a nossa moral?

Deveremos ignorar a pluralidade de We Are the World ou o dueto com Paul McCartney? E o trabalho dos Jackson Five?  O veterano produtor Quincy Jones foi instrumental na criação de Off the Wall, Thriller e Bad. Descartamos as suas contribuições para o mundo da música? Onde fica Drake, que colocou Jackson de novo no topo ao incluir voz póstuma em Don’t Matter to Me? Onde ficam Muse, Lady Gaga, The Weeknd, Bruno Mars, Tame Impala, Justin Timberlake, Céline Dion, Chris Brown e centenas de outros artistas que são quem são porque Jackson os influenciou?

Depois de Leaving Neverland, a alma da música de Michael Jackson está conspurcada para sempre. Para muitos, para lá de qualquer redenção. Mas ele permanecerá embebido nas vidas de milhões de pessoas. O que sentirão daqui em diante é impossível definir e, francamente, é uma descoberta que cada um deve fazer por si. Vou arriscar e dizer que o mais provável é que ultrapassemos Leaving Neverland. Uma geração e o documentário será esquecido. Aconselho todos a vê-lo na mesma mas creio que a maioria, com o tempo, vai analisar os factos, contrapô-los com os seus sentimentos e decidir que consegue continuar a aproveitar a música de Jackson, ainda que possa nunca mais ouvir P.Y.T. (Pretty Young Thing) da mesma forma.

Mesmo as vítimas têm emoções contraditórias: ‘He helped me tremendously. He helped me with my career, he helped me with my creativity. And he also sexually abused me. For seven years.’ diz Robson no início do documentário. ‘He was one of the kindest, most gentle, caring, loving people I knew.’ acrescenta Safechuck. Isto é o aspecto mais extraordinário na vida de Jackson: tinha um lado que apenas podemos descrever como bom, ao mesmo tempo que era, provavelmente, um monstro. E isso é algo que a mente humana tem muita dificuldade em compreender. Talvez se vivêssemos numa sociedade onde a justice culture fosse tão voraz quanto a cancel culture, fosse mais simples separar as águas e entender a dualidade do ser humano.

Todavia, esta questão transcende Michael Jackson e denota um perigo emergente. Leaving Neverland deixa-nos com a preocupação de estarmos a contribuir para uma cultura de tolerância e silêncio para com o abuso sexual de cada vez que ligamos o rádio. Afinal de contas, o artista não existe sem o seu público. Bing Crosby era violento com os filhos mas todos os anos ouvimos White Christmas; histórias das indiscrições sexuais de bandas como The Beatles, The Rolling Stones, Led Zeppelin ou The Who não são difíceis de encontrar. Estaremos a entrar numa era em que um nicho da humanidade pode existir sem limitações? O mundo choca-se e pergunta-se como pôde permitir que Jackson atingisse um estatuto tão estratosférico que a sua marca no mundo se tornou permanente, ao mesmo tempo que endeusa figuras como Beyoncé, algo que até a própria fomenta.

A civilização humana é uma civilização intrinsecamente do espectáculo, atraída pelas câmaras, pela fama e pela ostentação como traças pela luz. O maior legado de Jackson é um exemplo sem paralelo de como a indústria do entretenimento prioriza o lucro acima do sofrimento e explora uma sociedade cega e alucinada que, em pleno século XXI, procura orientação e valores não numa universidade ou numa igreja mas num Coachella habitado por super-humanos que cantam e dançam.

José Durão, alumnus

O Netter É Arte?

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 Seria impossível sobrevalorizar a importância que o Atlas de Anatomia Humana, de Frank Henry Netter, teve para a formação de muitos de nós. As imagens minuciosas, detalhadamente legendadas, que permitiram a tantos uma compreensão mais clara e aprofundada da densa matéria que é a anatomia.

    Muito pensarão que será também possível defender este manual como uma obra de arte. Não apenas tecnicamente útil ou esteticamente bela, mas um feito artístico. Afinal de contas, como não? Tão sublimes as imagens, tão complexa a representação, tão brilhante o conteúdo.

    Brilhante, complexa, sublime? É razoável afirmá-lo. Mas arte?

    Em 1938, Robin George Collingwood publicou Os Princípios da Arte. Constituiu, na sua altura, um marco significativo para a teoria estética e, ao contrário do que seria de esperar, dedica boa parte desta obra a explorar o que não é arte.

    A arte não é uma forma de entretenimento, nem de magia (isto é, não visa despertar uma emoção predeterminada, como propaganda patriótica ou uma dança de guerra) mas, mais importante que isto, não é uma imitação ou representação. Collingwood argumenta que estas se encontram no domínio da técnica e que, ainda que uma obra de arte possa ser uma obra técnica, o contrário não é necessariamente verdade.

    Afirma que a arte se baseia na expressão de emoções, e que a identificação desta finalidade não pode ser separada da atividade artística, ao passo que numa técnica, a identificação da finalidade não depende do processo de produção (por exemplo, o sapato é identificado sem ser necessário recorrer à atividade de fabrico).

    Conclui que a genuína obra de arte reside na emoção do artista, e que a externalização é uma questão de técnica – por outras palavras, apenas uma obra onde o artista exprime as suas emoções é considerada arte.

    Posto isto, podemos concluir que Netter não foi nunca um artista, apesar de se identificar como tal, mas um mero ilustrador. As suas obras são, portanto, feitos técnicos magníficos com um enorme legado, mas não obras de arte. É uma conclusão razoável, mas talvez haja algo mais por trás disto.

    Permanecem várias questões: apesar de técnicas, Netter exprimiu emoções através das suas ilustrações? Será que via no corpo humano não apenas um objeto de representação, mas também uma fonte de inspiração? Qual era a sua motivação para desenhar?

    O próprio parece esclarecer-nos no prefácio da 1ª edição da sua seminal obra: “Clarificação de um assunto é o objetivo e finalidade da ilustração. Independentemente de quão maravilhosamente pintado, quão delicadamente e subtilmente realizado seja um assunto, é de pouco valor como ilustração médica se não for útil a tornar claro uma questão médica”.

    Estas citações parecem pender fortemente na direção da técnica ilustrativa, e não da arte. Netter mostra entender como o seu papel reside na representação da verdade tal como ela é, não da realidade como ela é percecionada ou muito menos na expressão das emoções que ela desperta em si. Ainda mais, reveste-se de uma função pragmática - a clarificação de assuntos médicos complexos.

    E, no entanto, muitos dos seus objetos de desenho não são exclusivamente as condições médicas, mas a pessoa com a condição médica. O próprio afirmava, frequentemente, que não somos máquinas que necessitam de manutenção, mas seres humanos. Particularmente os seus desenhos de crianças parecem exprimir uma profunda empatia pela vulnerabilidade destes pequenos.

    Que devemos, então, fazer de tudo isto? Não pretendo, com esta reflexão, expor apenas a minha opinião pessoal sobre o assunto, nem não pouco apresentá-la como a única resposta razoável a esta problemática.

    A arte é um tema complexo, sob o qual se debatem filósofos e artistas há muitos séculos. Collingwood propôs uma perspetiva relativamente atual e bem fundamentada sobre o assunto, mas tem os seus críticos. Se há algo que não há na filosofia é consenso e muitas outras opiniões sobre o assunto podem ser consideradas.

    Gostaria apenas de apelar à reflexão profunda sobre esta temática, e mostrar como a alma e as motivações do ser humano são, muitas vezes, mais complexas do que inicialmente ponderamos. Nunca poderemos verdadeiramente compreender o que ia na alma de Frank H. Netter, nem tão pouco assumir que se absteve totalmente de transpor as suas emoções para o papel.

    No entanto, as suas obras permanecem um dos grandes feitos da anatomia moderna e, sem sombra de dúvida, não pecam por ausência de beleza. Seja arte ou técnica, seremos capazes de reconhecer o estado de prazer que a contemplação das suas imagens despoleta.

    Exceto quando chega a hora de estudar anatomia.

Fontes consultadas:

  • Kenny, Anthony. A New History of Western Philosophy - Volume 4: Philosophy in the Modern World. Oxford University Press, 2008.

  • Frank, Netter H. Atlas of Human Anatomy. Elsevier, 2014.

  • Netter, Francine Mary, and Friedlaender, Gary E. “Frank H. Netter MD and a Brief History of Medical Illustration.” Clinical Orthopaedics and Related Research, U.S. National Library of Medicine, 17 Jan. 2014.

  • Dominiczak, Marek H. “An Artist Who Vastly Enriched Medical Education: Frank H. Netter.” Clinical Chemistry, Sept. 2013.

António Velha, 2º ano

Ilustração por Miguel Silvestre, 5º Ano

Pseudo-pleasure

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como as redes sociais afetam o nosso comportamento

Social media: forms of electronic communication through which users create online communities to share information, ideas, personal messages, and other content

Segunda-feira. Nove da manhã. Entro na enfermaria, enfrentando mais uma semana de aulas. Sento-me numa cadeira da sala de espera. Os corredores vão sendo lentamente ocupados por batas brancas; os utentes do hospital curiosos como sempre quando nos vêem. Observo os meus colegas cabisbaixos com telemóveis nas mãos, à espera dos respetivos assistentes. “É incrível”, penso, “como as pessoas são obcecadas com as redes sociais”. Volto a olhar para o meu telemóvel, leio os meus e-mails e notificações. Curioso como faço exatamente o mesmo que condeno, e nem me apercebo.

Lembram-se porque é que criaram a vossa conta de Facebook?

Há cerca de dez anos, numa viagem fora de Portugal, uma prima distante perguntou-me “Devias adicionar-me no Facebook. Sabes o que é?”. Depois de ter dito que não, ela explicou-me o conceito. Fiquei pasmada: eis uma ideia tão revolucionária, uma rede onde podíamos partilhar a nossa vida com pessoas que estão longe de nós. Quando voltei a casa, uns dias depois, sentei-me no escritório e passei uma tarde a criar e a aperfeiçoar a minha conta. Penso que fui das primeiras pessoas a criar uma conta no meu grupo de amigos, e por isso, durante algum tempo, tentei convencer todas as pessoas que conhecia a juntarem-se a esta nova rede social. Assim começou. E assim continuou durante anos.

Hoje, em contrapartida, é enorme a procura de soluções que bloqueiam aplicações viciantes como o Facebook e o Instagram. Confesso que já procurei diversas opções para bloquear o meu “screen time”, ou tempo de ecrã, sem grande efeito. Mas porque é que será tão difícil controlarmos a utilização destas aplicações?

Todos sabemos que as redes sociais foram desenhadas com objetivo de serem viciantes. Fazem-nos sentir a necessidade de verificarmos constantemente se alguém interagiu com nossa fotografia ou publicação, ou se o nosso colega já leu aquela mensagem que deixámos na conversa de grupo há umas horas.

Os criadores destas plataformas utilizam várias maneiras de atrair e manter a nossa atenção. Alguns exemplos são:

  • Endless scrolling, uma funcionalidade que faz com que continuemos a ver publicações de forma infindável. Esta estratégia não nos permite reagir aos nossos próprios impulsos, levando, por isso, a que passemos mais tempo simplesmente a fazer scroll.

  • Os likes e comentários, que criam uma sensação de comunidade e companheirismo, de forma a que nos sintamos validados com a interação com outros utilizadores.

  • Push notifications, juntamente com a cor vermelha das notificações (que contrasta com o azul ou branco de fundo), que estabelece uma certa urgência ao alerta e nos incentiva a verificar as nossas notificações.

Estas técnicas quasi-pavlovianas são relatadas por engenheiros e developers, que antigamente trabalhavam para empresas como o Facebook e a Google.

O ex-presidente do Facebook, Sean Parker, admitiu em 2017 que o principal intuito desta plataforma social é de atrair a população, com recurso a libertações de dopamina em resposta ao seu uso. Acrescenta ainda que “é um loop de feedback de validação social (…) porque estamos a explorar a vulnerabilidade da psicologia humana”.

Também Justin Rosenstein, o engenheiro do Facebook que inventou o “like”, descreve a sua criação como [“bright dings of pseudo-pleasure”].

Existe, em sobreposição, uma tendência de esboçar uma vida perfeita aos amigos e seguidores online. É muito fácil olhar para os nossos murais, cheios de publicações premeditadas e fotografias editadas, e questionarmo-nos porque é que nós não conseguimos viver assim. Ignorando completamente o facto de que as pessoas revelam online apenas uma versão filtrada de si mesmas. Os adolescentes, sendo o principal mercado destas plataformas, passam uma grande quantidade do seu tempo a idealizar e projetar uma imagem perfeita online. Será que estamos a instigar as pessoas a criar uma versão falsa online, em vez de as encorajarmos a aceitar a sua individualidade? E não estaremos nós próprios, inevitavelmente, a ficar dependentes da opinião dos outros para cada fotografia ou publicação que lançamos para o mundo virtual?

Apesar destas questões, decerto que a maior parte das pessoas crê que o seu uso das social media é moderado, e que não lhes causa dano significativo, argumentando ainda que estas plataformas permitem uma maior aproximação com os seus familiares distantes e amigos. É o meu caso.

Um estudo de 2018 refere que o uso excessivo de smartphones (e, infira-se, de social media) advém da necessidade humana de contacto e maior afinidade com os outros. Ainda relatam que apesar dos efeitos negativos do vício a redes sociais, o recurso às mesmas surge a partir de um mecanismo natural e evolutivo da espécie humana: a necessidade de vigiar o outro e ser vigiado em resposta.

Por fim, penso que é importante lembrarmos que todas as grandes revoluções tecnológicas foram alvos de fortes críticas. Tal como os telemóveis e computadores, também a televisão, os livros e a própria escrita foram, no seu tempo, vistos como inovações deletérias para o desenvolvimento da sociedade. Hoje, podemos afirmar precisamente o contrário; é indiscutível o avanço permitido por todas estas tecnologias, incluindo as mais recentes. E se uma geração interpreta o uso de redes sociais como sendo uma regressão da comunicação entre pessoas, uma outra geração, a nossa, floresce com o seu uso.

Nuzhat Abdurrachid, 5º ano

Ilustração por Susana Xu, 3º Ano