Gestão e Saúde: duas realidades sobreponíveis?

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Contextualização: introdução da problemática

Com quase 40 anos, o Serviço Nacional de Saúde tem vindo a mostrar o seu valor na oferta de cuidados de uma forma universal. Contudo, existem muitas questões que se prendem com a sua acessibilidade e equidade. É neste sentido que se torna de maior importância a sua gestão equilibrada através de políticas de saúde e, de uma forma mais particular, a gestão adequada das instituições de saúde e do seu financimento.

Tomando isto como ponto de partida, apercebemo-nos das perspetivas divergentes que podem surgir neste contexto. De um lado, existe o Estado como entidade reguladora, função à qual acresce a responsabilidade pela alocação de recursos que permitam um olhar para o futuro, para uma população com melhores indicadores de saúde. Num outro, as Administrações das Unidades de Saúde, que pretendem eficácia e eficiência, procurando gerir o seu orçamento na tentativa de prestar melhores cuidados. Por último, a população, que é a razão pela qual todos iremos trabalhar, e que muitas vezes acaba por ser esquecida, que pretende ver as suas expetativas satisfeitas, independentemente dos gastos que estas representam.

Sendo assim, este texto surge como uma tentativa de consciencialização para a realidade vivida na saúde em Portugal, contexto este que teremos de enfrentar a partir do momento em que passarmos a constituir uma equipa clínica ou, de forma alternativa, encararmos esta temática de um ponto de vista mais macro, por via da saúde pública.

Níveis de gestão

Em saúde, distinguem-se três patamares de gestão: Políticas de Saúde, Unidades de Saúde e Clínica.

Com certeza, percebemos a diferença que podemos fazer ao nível da clínica. Melhores decisões logísticas e terapêuticas terão de ser tomadas no sentido de garantir um benefício individual para o doente que se encontra diante de nós. Ainda assim, não podemos obliviar as necessidades de todos os outros doentes que esperam por tratamentos semelhantes. Assim, a nossa obrigação é ter conhecimento, do ponto de vista financeiro, do que representa cada ato médico, e ponderá-lo cada vez que o prescrevemos (embora se possam questionar se isto não nos desvia da conceção puramente médica da medicina).

Contudo, numa alternativa não muito explorada, existe a possibilidade de fazer a diferença a um outro nível. Os cargos de administração hospitalar tendem a ser ocupados por profissionais com formação de base em gestão. Todavia, é clara a falta da componente médica nos seus currículos. Neste sentido, perguntamo-nos (ou eu pergunto-me) de que forma pode existir gestão em saúde sem o conhecimento do valor do doente, das suas necessidades reais.

Por outro lado, o mesmo seria contestado se um médico ocupasse estes lugares sem que tivesse em sua posse conhecimento dos princípios básicos de economia ou gestão.

Masters in Business Administration (MBA) como formação complementar

É desta forma que introduzo uma possibilidade no percurso académico de um estudante de Medicina.

Nos Estados Unidos da América, são cada vez mais as universidades com esta preocupação, e é com isto que justificam a criação de um double-degree que combina, ao longo de cinco anos, o curso de Medicina e um MBA.

A ideia por detrás deste conceito não seria que os médicos se afastassem da prática clínica. Ao invés disso, seria uma tentativa de capacitar o profissional de saúde a lidar com os aspetos económicos que se relacionam com a sua carreira. Ainda assim, muitos são os que decidem subir na escada de tomada de decisão e procurar um lugar no executivo das instituições de saúde.

Infelizmente, um entrave é colocado no contexto português. Não existe nenhuma instituição que ofereça esta formação conjunta, o que obriga à difícil tarefa de conciliar os dois cursos ou, em alternativa, a sua realização em diferido. Apesar de tudo, esta é uma decisão que vem a ser tomada por um crescente número de profissionais de saúde, que veem esta possibilidade como um meio de alcançar novas oportunidades no mundo do trabalho.

Perspetivas e Considerações Finais

A admissão do médico na gestão é um passo importante e com ele espera-se uma modificação nos princípios de organização e gestão dos serviços em saúde, colocando o doente como ponto central de um sistema, atualmente focado em números e no retorno do investimento.

Embora esta atitude possa parecer um desfoque do papel estritamente médico, os estudos que têm vindo a ser feitos apontam para uma melhoria dos cuidados de saúde quando as cadeiras nos conselhos de administração são partilhadas com médicos-gestores. E é com esta perspetiva que iremos avançar, de forma a tornar o Serviço Nacional de Saúde um sistema cada vez mais eficaz, almejando a perfeição inatingível que caracteriza a sempre insatisfeita espécie humana.

Miguel Palas, 4º Ano

Ilustração por Ricardo Sá, 4º ano

Nosso Senhor a Judiar Connosco

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Aquilo que me agarra à Medicina é a sua inutilidade quase tão óbvia como irónica, naquilo que é o seu combate eterno, contra a morte.

Luta como um miúdo franzino no pico da sua ira contra um matulão, ignorando a certeza que tem de que vai ser derrubado, uma e outra vez, até não mais se conseguir voltar a erguer. Mesmo com essa noção continua a bater...  Tão forte, tão cega, tão segura de si...Não deixa de lutar.

A Medicina é uma inocente, é uma irónica e é uma arrogante. Não se convence que jamais vencerá a guerra, e saboreia e festeja cada vitória em pequenas batalhas. Sempre com essa ilusão quase insolente de que alguma vez conseguirá a vitória derradeira.

De facto, este jogo de marionetas que vivemos, sempre sem cabo de segurança, é uma lição engraçada. A maior de todas. Para não sermos arrogantes, talvez... Se calhar é Nosso Senhor a judiar connosco... Para se rir da nossa infantilidade, e para nos fazer ver o nosso ridículo.

Vejam bem, que o Mundo, sendo o que é, e a vida, sendo a estrela cadente que é e que se vai fugaz, cabem em tantos olhares (observadores atentos e pensativos) quantos queiramos. E parece sempre diferente. E vai-se a ver sempre igual. Como uma estrela cadente que, num ápice surge e se esfuma para sempre na calada da noite, sem muitas vezes termos tido tempo de a apreciar como merecia.

E aí está a Medicina, a travar desde o início dos tempos a única guerra que jamais poderá vencer. A mais brava guerreira nessa luta ingrata. Tiramos-lhe o chapéu e, por ela, daremos sempre o corpo às balas.

"E vamos pegar o Mundo,

Pelos cornos da desgraça.

E fazermos da tristeza,

Graça."

Fernando Tordo, in Tourada (Letra de José Carlos Ary dos Santos)

Rúben Simões, 3º Ano

Ilustração por Renata Costa

Como Mudar o Mundo… em 40 Milhões de Passos (2ª parte)

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(veja a 1ª parte aqui)

2ª Parte – Os Países

Que fazer com o Espólio?

Vitória! O injurioso povo germânico foi completa e totalmente derrotado! Não mais a nossa pátria viverá assombrada pelo espetro do inimigo! Este magnífico ano de 1918 viverá para sempre como a data em que a nossa liberdade foi definitivamente ganha e os nossos adversários esmagados!

E agora?

Logo desde início, após a [gloriosa] e [heróica] vitória, os Aliados não se entenderam muito bem sobre o que fazer com a derrota da Alemanha. Reunidos em Versalhes, parlaram e debateram…

Os americanos, com Woodrow Wilson e os seus 14 Pontos, queriam uma “paz sem vitória”, pautada pela reconciliação: “Vitória implicaria paz forçada sobre o perdedor, os termos do vencedor impostos sobre o vencido. Seria aceite em humilhação, sob coação, com sacrifício intolerável, e deixaria um ferrão, um ressentimento, uma memória amarga sobre a qual os termos de paz assentariam não permanentemente, como se estivessem sobre areias movediças. Apenas uma paz entre iguais perdurará.

Os franceses, que sofreram o maior número de danos em vidas e recursos, pretendiam uma Alemanha fraca e inferior, pois, como dizia o primeiro-ministro George Clemenceau: “A não ser que a Alemanha seja castigada de maneira a que não deixe margem para dúvida ou disputa, a não ser que seja convencida pela terrível lógica dos eventos que a glória do seu povo nunca será alcançada por meios bélicos, a não ser que a sua capacidade de guerra após a Guerra seja sensatamente diminuída, uma renovação do conflito, após uma trégua inquieta e malévola, parece inevitável.

O mesmo afirmava ainda: “A América está longe, protegida pelo oceano. E nem Napoleão conseguiu tocar a Inglaterra. Vocês estão ambos abrigados, nós não.

Já os britânicos procuraram alcançar um meio termo entre a leniência americana e o revanchismo francês (a palavra vem de revanche, francês para vingança), tentando também aumentar o Império e manter o balanço de poder: uma Alemanha saudável como contrabalanço para o poderio dos franceses e como barreira contra os comunistas russos.

Quando perguntaram ao primeiro-ministro David Lloyd George, ao regressar ao Reino Unido, como tinha corrido a Conferência de Paz de Versalhes, respondeu apenas: “Não mal, considerando que estava sentado entre Jesus Cristo e Napoleão.

Em Concreto…

No fim de contas, os resultados foram chatos, para dizer o menos. Principalmente, para os alemães: uma série de perdas territoriais, pesadas reparações monetárias que devastaram a economia, a redução do exército, a desmilitarização do Reno (a zona mais industrializada) e, o mais humilhante de tudo, a culpa…

Os governos Aliados e Associados afirmam, e a Alemanha aceita, a responsabilidade e da Alemanha e seus aliados por causar toda a perda e destruição a que os governos Aliados e Associados e os seus cidadãos foram sujeitos, como consequência da guerra imposta sobre estes, pela agressão da Alemanha e seus aliados.

Esta é a cláusula 231 do Tratado de Versalhes - uma das mais controversas do tratado. Ostensivamente, seria apenas um pretexto para impor reparações, e não para humilhar a Alemanha.

No entanto, os alemães nunca a esqueceriam. Nunca a poderiam esquecer. A culpa, as reparações, a perda de território para os seus grandes inimigos… os franceses… e os polacos, que consideravam inferiores. Além disto, a desmilitarização! Ver-se incapaz de exercer controlo sobre o seu próprio território! E tudo, tudo isto, sem sequer ter sido convidada a estar presente nas negociações do tratado! A indignação! A injúria!

Nem sempre Boa Semente cai em Terreno Fértil - Bigode

Talvez Versalhes não tenha tornado a ascensão de Adolf Hitler inevitável, mas é certo que este usou o tratado, e o desejo ardente de o reverter, como um dos principais temas da sua campanha e ideologia.

A Kriegsschuldfrage, a “questão da culpa da Guerra”, veio de mão dada com o Dolchstoßlegende, o “mito da punhalada pelas costas” - uma noção propagandista, divulgada pelos elementos da extrema-direita alemã, de que o exército na Grande Guerra não havia sido derrotado, e que tinha, antes, sido atraiçoado por civis pouco patrióticos em casa, nomeadamente os socialistas e os judeus.

O período em que o armistício se deu também não poderia ter sido mais propício ao desenvolvimento de um mito revisionista (reinterpretação de eventos históricos) como este: a 29 de outubro, pouco antes de a Guerra acabar, iniciou-se uma pequena revolta de marinheiros em Kiel. Nada de extraordinário, correto?

Pois bem, a agitação civil propagou-se por toda a Alemanha, até que se deu uma revolução total – a 9 de novembro foi proclamada uma república e o Kaiser abdicou. A liderança passou para o SPD (Sozialdemokratische Partei Deutschlands), o Partido Social Democrático da Alemanha, que assinou o armistício no dia 11. O partido dos socialistas, a assinar os papéis da derrota… a extrema-direita não tardou em distorcer este facto.

Após muita confusão com milícias nacionalistas (os Freikorps), unidades paramilitares (como a Stahlhelm), comunistas (o KPD e os espartaquistas) e aristocratas (os Junkers), os líderes do SPD conseguiram evitar uma guerra civil e adotar a constituição de Weimar, em agosto de 1919, pacificando a Alemanha… por agora…

Nem sempre Boa Semente cai em Terreno Fértil – Barbicha

Não só na Alemanha se viveu no limite durante o pós-guerra. A Guerra Civil Russa seguia a todo o vapor, entre os bolcheviques e os brancos – também esta começada como consequência direta da 1.ª Guerra Mundial.

Lenine foi enviado para a Rússia pelos alemães, da mesma maneira que se enviaria um frasco contendo uma cultura de tifoide ou de cólera para ser despejado no abastecimento de água de uma grande cidade, e funcionou com pontaria certeira.

Esta frase é de Winston Churchill. Foram os alemães que, de facto, em 1917, retiraram o ideólogo comunista Vladimir Lenine do seu exílio na Suíça e o transportaram para a Rússia. Ora, neste país, as coisas iam de mal a pior… um czar incompetente, uma família real sob o aparente controlo do místico Rasputine, fome, pobreza, tragédia por todo o lado, e tudo isto no meio de uma gigantesca guerra… o centro nunca iria aguentar.

Reação e Revolução

As revoltas e os motins eram coisa já comum na Rússia, bem como as suas brutais repressões, mas nenhuma tinha ainda destronado a autocracia do czar… ainda.

A Revolução de Fevereiro (que na verdade foi em março, porque a Rússia ainda usava o calendário juliano e não o atual gregoriano) em 1917, começou com uma série de protestos em Petrogrado (a capital, atual São Petersburgo). Com os dias, os protestos descambaram em revolta, os soldados enviados para a suprimir amotinaram-se e juntaram-se aos protestantes e o czar viu-se obrigado a abdicar da sua soberania.

Foi proclamada a República Russa, com Georgy Lvov, e mais tarde Aleksandr Kerensky, como primeiros-ministros. Entre uma série de soluços, tropeções e um quase golpe de estado pelo general Kornilov, o governo de Kerensky falhou redondamente a melhorar a situação civil e, como se não bastasse, insistiu em continuar a guerra. O povo sentiu-se traído… os bolcheviques, um grupo de socialistas revolucionários liderado por Lenine e por um certo Leon Trotsky, viram a sua oportunidade e entraram em ação…

Revolução 2 – Agora mais Vermelho

Com uma plataforma de “Paz, terra, pão” ganharam uma torrente de apoio popular, especialmente das classes trabalhadoras, que já se começavam a organizar em concelhos chamados de Sovietes (o nome lembra alguma coisa).

É neste ambiente que tem lugar uma segunda revolução - a Revolução de Outubro (que foi em novembro). Os Guardas Vermelhos (unidades paramilitares dos bolcheviques) encontraram pouca ou nenhuma oposição, o governo de Kerensky fugiu de Petrogrado e a República Soviética Russa foi proclamada.

No meio da confusão pós-revolucionária, os bolcheviques tomaram o poder, iniciaram a instauração de um sistema marxista-leninista e levaram a cabo uma campanha de terror e repressão. O heterogéneo movimento anti-bolchevique organizou-se, vagamente, sob a forma do Exército Branco, que se oporia ao Exército Vermelho dos primeiros.

Vendo uma oportunidade, muitos povos procuraram escapar ao domínio russo no meio do conflito e, de uma forma ou outra, acabaram envolvidos nas hostilidades. Apareceram no mapa a Polónia, a Finlândia, os estados Bálticos, a Mongólia e, entre outros estados mais efémeros, a Bielorrússia, a Geórgia, a Arménia, o Azerbaijão e a Ucrânia, esta última palco de grandes tragédias e baralhadas com separatistas, anarquistas e afins.

Lutar-se-iam, então, 5 anos de guerra civil brutal, com atrocidades cometidas por ambos os lados, desde os portões de Varsóvia ao mar do Japão, e a vitória acabaria nas mãos dos bolcheviques. Mas a que custo? O mundo ficaria mais vermelho, não só pelas cores das bandeiras, mas também pelo sangue de 10 milhões de vítimas, principalmente civis.

Criar Extremismos a régua e lápis

Para além dos Impérios Russo e Alemão, outras duas grandes e velhas monarquias, até mesmo mais antigas e dignas que as primeiras, cairiam sob a pressão da Grande Guerra…

O primeiro, o Império Otomano, reinado pelos magníficos sultões turcos da casa de Osmã já desde 1299, estava agora nos seus últimos suspiros. Era, desde há um século, conhecido como o “homem doente da Europa”, e bastou-lhe apenas um último empurrão, um último conflito destrutivo, para se desmoronar. Em 1914, veio esse mesmo conflito e, com a sua resolução, veio o colapso que levou à queda do último sultão, à criação de um estado nacional e secular turco, ao genocídio atroz de 1,5 milhões de arménios (é complicado) e à repartição do Médio Oriente.

Este último ponto é particularmente importante porque tem uma influência duradoura até aos dias hoje. Tudo por meio e palavra de dois diplomatas: Mark Sykes e François Georges-Picot. Entre 1915 e 1916, juntaram-se, desenharam uma linhas nuns mapas, e selaram o destino da região para os 100 anos seguintes.

Muito resumidamente, com uma única linha reta, definiram uma Síria e Líbano sob influência francesa e um Iraque, Jordânia e Palestina sob influência britânica, sem qualquer preocupação com os habitantes ou as suas etnias.

Entre curdos, árabes e uma mescla de religiões e credos, juntaram-se pessoas que queriam estar separadas, separaram-se pessoas que queriam estar juntas, e no meio de tudo, Jerusalém – talvez a cidade mais contenciosa de todo o mundo.

O Tema que precisa de muita cautela

A Palestina é particularmente problemática, porque já antes do acordo de Sykes-Picot, os britânicos tinham prometido este território, não só aos sionistas (aderentes ao movimento que defendia a autodeterminação do povo judaico e criação de um estado-nação para esta etnia) para a criação do estado de Israel, mas também aos árabes, na pessoa do xarife de Meca e rei do Hejaz, Hussein ibn Ali al-Hashimi, juntamente com a independência árabe e criação de um estado pan-arábico, que incluiria a Palestina, caso ele se revoltasse contra os otomanos (o que fez sem hesitar).

Perto do final da guerra, os britânicos tomaram a sua decisão: emitiram a declaração de Balfour, apoiando a criação de uma pátria nacional judaica (“national home for the Jewish people”) na Palestina. Quando ficaram com ela, sob a forma do Mandato Britânico da Palestina, permitiram a imigração em larga escala de judeus, e a estabilidade interétnica mantida pelos otomanos durante séculos foi quebrada, gerando tensões e conflitos que se mantêm muito mediáticos e mortíferos até aos dias de hoje.

Quanto ao xarife e seus árabes, o ressentimento vivido pela quebra da promessa foi de pouca dura. O seu reino foi, não muito tempo depois, conquistado pelo emir do Négede, Abdulaziz ibn Saud, que representava uma corrente ultraconservadora e fundamentalista do Islão – o wahabismo. Tornou-se emir dos dois reinos e, em 1932, declarou o reino da Arábia Saudita, que perdura até aos dias de hoje e é, também, muito mediático em seu próprio direito.

Uma Casa dividida

O outro império colapsante, o Império Austro-Húngaro, era um dos grandes poderes da Europa central, reinado pela casa dos Habsburgos desde 1276. Mas nem 800 anos de legado imperial resistiram aos ventos do nacionalismo, e este não tardaria a ser dissolvido com o fim da Guerra, minado pela pressão do separatismo dos seus inúmeros povos e etnias: romenos, eslovacos, eslovenos, polacos, croatas, checos, ucranianos, bósnios e muitos outros. Antes da Guerra limitavam-se a pedir mais autonomia, mas agora, com o sistema a quebrar, passaram a desejar, e mesmo a declarar a independência total.

As consequências económicas foram desastrosas para a região. Antes do colapso, o Império era uma única unidade económica, relativamente autossuficiente, e em crescimento, com cada região especializada em determinados produtos e serviços. Com a dissolução e a quebra na movimentação de bens, pela fragmentação em vários estados-nação, a prosperidade acabou.

Confusões à parte, os Aliados pretendiam a autodeterminação dos vários povos do Império, que cada um seguisse o seu destino (ideia que no Médio Oriente foi mesmo muito bem aplicada). Surgiram a Jugoslávia e a Checoslováquia. A Roménia anexou os territórios etnicamente romenos da Transilvânia. A Áustria ficou reduzida a um pequeno estado-nação sem acesso marítimo. A Hungria, após uma breve revolução comunista, foi obrigada a assinar o tratado de Trianon. Um tratado que traria algumas consequências (in)esperadas.

Mais um Tratado, mais um País Amargo

O objetivo deste tratado era limitar a Hungria apenas às zonas etnicamente húngaras. A entidade que era o Reino Húngaro, anteriormente parte integral do Império, via-se agora a perder o acesso marítimo, cerca de dois terços do seu território e população, a maior parte dos seus recursos naturais, e minorias húngaras que ficariam espalhadas pelos países vizinhos.

À semelhança de Versalhes, foi ditado e não negociado e, à semelhança de Versalhes, gerou um ressentimento que se fez sentir não só na 2ª Guerra Mundial, quando a Hungria foi um dos países colaboradores dos Nazis, mas até mesmo nos dias de hoje…

Os memoriais a Trianon não são raros pelo país e a reversão do tratado é um assunto querido da extrema-direita que, com tendências revisionistas, coloca frequentemente a Hungria numa posição de vítima da História para justificar os seus preconceitos. Mais um testamento às consequências que têm decisões apressadas, culpabilizantes e unilaterais…

Ganhar também pode ser complicado

Não só do lado dos derrotados, mas também no lado dos vencedores, se fez sentir uma onda de ressentimento no período pós-guerra. Nem a Itália, nem o Japão, combatentes do lado dos Aliados, resistiram à amargura do conflito, e ao desejo de corrigir o que consideravam errado.

A primeira, desiludida com os seus ganhos após tantas perdas, deprimida por crises económicas e com tumulto civil por todo o país, cairia para o fascismo nem 4 anos após a vitória na Guerra. Benito Mussolini, convidado pelo próprio rei a formar governo depois de um golpe de estado falhado, viria a dar forma ao movimento fascista e a instaurar o primeiro regime deste tipo em todo o mundo.

O segundo, apesar de ter assegurado o espólio alemão do Pacífico como pretendia, e de ter alcançado um lugar na mesa de negociações de Versalhes, viu negada a sua proposta de igualdade racial, apresentada durante a conferência. Os japoneses, alienados por esta recusa e com o nacionalismo em alta, entrariam num período de estatismo e militarização, com erosão gradual da democracia ao longo dos anos 20 e 30. Culminou tudo num expansionismo agressivo, baseado num desejo ardente de ser tornar o grande superpoder asiático.

Ambos estes estados acabariam por se alinhar ideologicamente durante a 2ª Guerra Mundial… e o resto já sabemos como se viria a dar.

Epílogo

Acabaram as Guerras?

A 1.ª Guerra Mundial nunca poderia, de forma alguma, ter sido a “guerra para acabar todas as guerras”. Arrogante ou ingénuo foi quem o pensou na época. Não digo que não se tenha tentado – a Liga das Nações, criada após o conflito para promover a paz e a cooperação internacional, é exemplo disso.

Muitas das condições para uma nova tragédia, maior e pior, estavam já estabelecidas naquele vagão de comboio, quando a caneta tocou o papel da folha do armistício, pela mão de Matthias Erzberger, no dia 11 do 11, há 100 anos. Talvez, em tempo útil, consigamos aprender alguma coisa e tirar conclusões.

Fútil ou justificada?

Olhamos para todo o sofrimento humano e somos levados a pensar que a Guerra foi uma tragédia fútil, sem razão para ter acontecido… e, no entanto, ainda que tantas mortes tenham sido evitáveis e desnecessárias, com uma inspeção mais próxima, começam a ver-se razões em demasia. Ganância? Competição por recursos? Luta ideológica entre os autocratas militaristas e as democracias liberais (do lado das quais estava a Rússia czarista)? Insegurança e medo do vizinho?

Ou talvez todas estas e mais algumas – uma rede complexa de fatores em jogo que nos impede de atribuir culpas, e que empurraram o mundo, e os seus habitantes, para o abismo.

Ainda assim, os sacrifícios da Guerra têm, até aos dias de hoje, uma ressonância particularmente forte em países como o Canadá, a Austrália e a Nova Zelândia. As suas tropas lutaram batalhas como Vimy Ridge e Gallipoli, e ainda hoje são relembradas como os “baptismos de fogo” destas nações, parte importante das suas identidades nacionais e uma fonte de orgulho patriota.

Os espetros dos soldados ainda hoje se podem ver - as filas de cruzes brancas, pelos campos de França. Algumas têm nome… muitas não. Ainda que os seus corpos tenham há muito retornado à terra, o seu sacrifício permanece. Os memoriais, as celebrações, as remembranças. Tudo um esforço para que não os esqueçamos. Nunca.

The Poppies grow…

No meio da destruição, da tragédia e da morte, nos campos enlameados da Flandres, deu-se um fenómeno muito particular… cresciam papoilas. Uma das poucas coisas que conseguia prosperar na terra de ninguém.

Esta simples flor tornou-se um símbolo dos soldados e da Grande Guerra. Um símbolo de sacrifício e de tragédia, de luta e de angústia, de perseverança e de coragem, de que, até mesmo nas horas mais negras, um rasgo de esperança consegue florescer.

O mundo nunca voltaria a ser o mesmo. Para melhor ou para pior, tanto a vida nas trincheiras de combate, como as decisões nos corredores de Versalhes, tornaram o mundo aquilo que ele hoje é. Quatro anos de guerra que mudaram tudo, e viriam a estabelecer as fundações para mudanças ainda mais profundas.

Não esqueçamos isto, para não perdermos a noção de onde viemos… e de quem nos trouxe a onde estamos. Celebrar a memória, e não esquecer.

Lest we forget…

António Velha, 3º Ano

Ilustração por Eduarda Costa, 5º ano

Como Mudar o Mundo… em 40 Milhões de Passos

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Prólogo

O Disparo que mobilizou Exércitos

As notícias não tardaram a espalhar-se: um arquiduque e a sua esposa, assassinados. Por um nacionalista bósnio… não, sérvio, mas na Bósnia. O herdeiro de um grande Império, Francisco Fernando, estava morto, caído nas ruas de Sarajevo pela arma de Gavrilo Princip. Com um tiro, tudo começou a desmoronar-se.

Desde os tempos de Napoleão, em 1815, que os grandes poderes da Europa se tinham conseguido entender. Foram 100 anos de relativa estabilidade, ainda que com alguns soluços, com uma guerra aqui e ali. Nada de mais.

Mas desta vez foi diferente. Ao fim de um século, a torre de pedra, erguida sobre a destruição das Guerras Napoleónicas, tinha-se transformado num castelo de cartas. O balanço de poder entre as superpotências tinha-se alterado, um complexo sistema de alianças defensivas estava estabelecido e os desentendimentos começavam a acumular-se. O ambiente no virar do século estava tenso… e bastou um disparo, uma brisa, para trazer tudo abaixo.

Em julho, há 104 anos, uma crise que podia ter sido resolvida, precipitou-se sem igual. A diplomacia e a comunicação empancaram, rivalidades antigas vieram ao de cima, decisões precipitadas foram tomadas… e o dominó começou a cair. As nações europeias foram empurradas para o conflito por uma rede de alianças e manobras políticas. Um mês depois do dito disparo, o mundo, peça a peça, estaria em guerra.

1ª Parte – As Pessoas

Em Frente, Marche!

A Humanidade está habituada à guerra (com g pequeno) desde sempre. Para bem ou para mal, morrer por uma causa maior que nós mesmos, seja um senhor, uma fé ou um país, sempre foi visto como heróico e glorioso. O verão de 1914 não foi diferente - os pelotões e batalhões marcharam para a guerra, motivados, entoando cantigas patriotas, em direção à aventura! Esta visão romântica permeou o início do conflito, aliada a um espírito de orgulho e otimismo. “A Guerra estará terminada pelo Natal”, diziam os líderes em casa e na frente de combate.

Mas foi então que os exércitos pararam… e afundaram em trincheiras. Construíram bunkers, instalaram artilharia e arame fardado. Os avanços tornaram-se escassos, as perdas começaram a acumular-se, o Natal de 1914 veio e foi…

Coloca-te nesta posição: és um jovem idealista em 1915, sentes que precisas de um propósito e queres ser algo mais. Ouves o chamamento para a guerra, e acedes. Com o nacionalismo à flor da pele, no início do século XX, sentes que estás a cumprir o teu nobre dever pelo teu país. Chegas à frente, e que encontras?

A Grande (Des)Ilusão

Uma paisagem cinzenta de nuvens e chuva, e acastanhada de lama. Uma terra de ninguém, preenchida de entulho e cadáveres, entre duas trincheiras, inundadas e frias no inverno e tórridas no verão. O barulho incessante da artilharia.

As batalhas eram ocasionais, com longos períodos de monotonia e desespero entre elas. Quando, finalmente, um setor entrava em ação, a experiência era aterradora – going over the top. Ondas de homens, apavorados e exaustos, tentando atravessar a terra de ninguém, para alcançar as trincheiras opostas, diretamente contra as posições inimigas, por entre o arame farpado, os bombardeamentos, os tanques, o gás venenoso, as metralhadoras, os lança-chamas, os biplanos, as linhas de fogo claras e as paredes de cadáveres sem fim… Mantém-te baixo e talvez não sejas o próximo, talvez sobrevivas para contar isto…

Mesmo parente esta armadilha de morte, os soldados entregavam-se ao destino e reuniam a coragem para saltar a trincheira e correr, fosse por patriotismo, camaradagem… ou pelas pesadas represálias que impunham a obediência, mesmo nestas condições únicas e terríveis, e perante táticas inflexíveis e mortíferas que raramente eram bem-sucedidas.

Materializaram-se alguns momentos singulares de verdadeiro heroísmo, mas a labuta diária do soldado raso tinha pouco de inspirador… e que há de heróico ou glorioso em carregar diretamente contra uma metralhadora, ser esmagado por um tanque, adoecer com a gripe espanhola, a febre das trincheiras ou sufocar em agonia num mar de gás mostarda?

O Inferno ascendido à Terra

Não apenas na frente ocidental, pelos campos da Flandres e de França, onde este tipo de combate se tornou a imagem da Guerra, mas também na gélida Rússia, nas montanhas dos Alpes, ao sol da Palestina, nas costas da Turquia e nos confins da Macedónia se fizeram sentir estes e muitos outros horrores.

A morte e o sofrimento sempre fizeram parte da guerra. Mas na Guerra, a Grande, a (infelizmente) 1.ª, o matar tornou-se mecânico, industrial... cruel. Tanto em casa, com economias de guerra desenhadas para produzir equipamento em massa e focar todos os trabalhos do país no conflito em jogo, como na frente, onde estes mesmos equipamentos foram utilizados para aniquilar, indiscriminadamente, ondas e ondas de… carne. Cannon fodder.

Assim foi para todos, igualmente: britânicos, franceses, russos, italianos, sérvios, belgas, americanos, canadianos, australianos, neozelandeses, portugueses, gregos, romenos, japoneses, albaneses, montenegrinos… e alemães, austríacos, húngaros, búlgaros, turcos, eslovenos, eslovacos, checos, croatas, polacos…

Pela primeira vez, os elementos do progresso e da revolução industrial foram aplicados de uma forma brutal e criativa. O avanço tecnológico posto à mercê do desenvolvimento de novos métodos de destruição. A vida humana descartada, atirada sem pudor para as lamas de Verdun, de Ypres e do Somme. Tudo por umas milhas de avanço…

Mas, eventualmente, a corrente mudou. Os alemães fraquejaram, vieram americanos, e os avanços aumentaram. Em todas as frentes, os Aliados começaram a progredir, e os Impérios Centrais não conseguiram dar resposta. Falou-se em rendições, armistícios… estaria para acabar?

Not With a Bang…

Acabou. Não com um estrondo, uma vitória decisiva ou uma batalha gloriosa, mas com um soluço, quase secreto, na floresta de Compiègne. À 11.ª hora do 11.º dia do 11.º mês de 1918, as bocas de artilharia calaram-se, após 4 anos, 3 meses e 14 dias de conflito. No vagão de comboio do marechal Ferdinand Foch, um delegado alemão assinou uma folha de papel, cabisbaixo, derrotado, ressentido…

O mundo saiu de um pesadelo. Uma nova realidade havia descido sobre o mundo e nada voltaria a ser o mesmo. O terror e miséria que muitos experienciaram não poderiam ser desfeitos, nem tão pouco esquecidos.

Cerca de 20 milhões não voltariam a acordar… e para outros 20 milhões, o pesadelo continuaria no resto das suas vidas. A Guerra deixaria marcas indeléveis, feridas na alma que alguns conseguiriam, com o tempo, deixar sarar. Outros não teriam essa sorte…

Perdidos nos Campos da Flandres

Os jovens que atingiram a idade adulta no período da Guerra pertencem a um grupo chamado de Geração Perdida. Com a caixa de Pandora aberta, e o fatalismo produzido pela experiência marcial, não podiam, senão, sentir-se sem direção.

Muitos dos que regressaram da Guerra foram recebidos como alienígenas, numa sociedade repleta de preconceitos e incapaz de lidar adequadamente com a saúde mental dos retornados. Incapazes de se reintegrar, acabavam assombrados pelos danos físicos, e especialmente psicológicos, da sua experiência nas trincheiras.

O shell shock surgiu na altura para designar uma série de condições relacionadas com a perturbação de stress pós-traumático. Refere-se aos bombardeamentos de artilharia constantes, no panorama da Guerra. A ansiedade e o desamparo que a artilharia produziu nos soldados acabava por se manifestar, a longo prazo, sob a forma de condições físicas e psiquiátricas incapacitantes.

Uma condição particularmente chocante é o thousand-yard stare, um olhar distante e desapegado, uma manifestação da apatia e dissociação revelada pelos soldados, como mecanismo de defesa contra o terror vivido diariamente.

Terrível Inspiração

Mas talvez seja mais produtivo e iluminador ter um relato em primeira mão do que uma descrição em segunda. Muitos artistas que combateram na guerra conseguiram recanalizar a sua dor e sofrimento, produzindo obras que relatam as suas experiências e exprimem as suas emoções.

Sejam as perturbadoras pinturas de Otto Dix, as arrepiantes memórias de Louis Barthas ou Ernst Jünger, as gritantes fotografias de Ernest Brooks, ou os arrebatadores romances de Erich Maria Remaque, Stratis Myrivilis ou Ernest Hemingway (tendo este último popularizado o termo Lost Generation).

Até mesmo o famosíssimo John Ronald Reuel Tolkien foi um combatente na Guerra, tendo muito do que viveu influenciado a sua obra-prima: The Lord of the Rings. Entre os paralelos que se parecem estabelecer nesta obra, temos o próprio Frodo que, regressado ao Shire, depois da experiência traumática que foi a viagem para destruir o One Ring, se vê incapaz de recuperar a sua antiga vida e rotina.

Admirável Mundo Novo

Apesar de toda esta tragédia, a Guerra também produziu profundas mudanças positivas na sociedade. O hiper-patriotismo e o fatalismo do final da Guerra, acoplados a extenso desenvolvimento económico e tecnológico, produziram uma onda de dinamismo cultural e social, e fascínio pelo novo e moderno, com grandes alterações nos estilos de vida e nas normas culturais.

O cinema, o teatro e o jazz tornaram-se populares, o consumismo e a praticidade tornaram-se a norma em todos planos da sociedade, as mulheres ganharam o voto… os Roaring Twenties tinha chegado… e acabariam em 1929, um ano mais cedo, com o Crash de Wall Street e a Grande Depressão.

A devastante queda económica mundial que se seguiu teve um profundo impacto social, e em alguns países contribuiria para a ascensão de certas correntes mais extremistas… mas já nos estamos a adiantar.

Radicais e Radicandos

Ainda a propósito de artistas, há também outros dois muito relevantes, talvez mais famosos do que qualquer um dos anteriores… que fizeram das suas experiências de guerra uma motivação que os levaria a enveredar por, e depois definir, a retórica do nacionalismo extremo, da intolerância e do ódio.

Um jornalista pacifista e socialista, e um pintor pacato, ainda que falhado. Radicalizados pela guerra, fizeram dos seus escritos Manifestos, e criaram uma nova e perigosa ordem política. Benito Mussolini e Adolf Hitler.

O que motivou estes dois, e muitos dos que os seguiram, foi, acima de tudo, o ressentimento (o mesmo que aquele delegado alemão no vagão de comboio sentiu ao assinar uma folha de papel, 100 anos atrás). Uma sensação de raiva e injustiça… e um desejo de vingança. Vingança que se materializaria 20 anos depois… os ecos da 1.ª Guerra Mundial, sentidos na sua irmã mais nova. Mais catastrófica.

Ainda restam muitas Questões…

O que radicalizou estes e outros homens? De onde veio tanta raiva e ressentimento? Fascismo, comunismo, anarquismo… estas e outras ideologias tornaram-se proeminentes após a Guerra – o que contribuiu para a sua ascensão? E o que podemos aprender com tudo isto?

António Velha, 3º Ano

Ilustração por Eduarda Costa, 5º ano

(continuação da 1ª parte a lançar na próxima sexta-feira dia 16 de novembro)


A vida de um Harrisoniano

A vida de um Harrisoniano_ Beatriz Aranha Martins.JPG

Somos médicos mas ainda não trabalhamos. Já não somos estudantes, porém ainda estudamos, mais do que nunca.

Vamos, todos os dias, como se de um emprego se tratasse, mas sem hora de chegada bem definida. Os dias são todos iguais e apenas os distinguimos com base no horário da biblioteca: encerra à segunda-feira de manhã e ao domingo. Na memória da rotina destes últimos meses, apenas uma imagem, pois é sempre a mesma a mesa que ocupo: um pequeno monte lá ao fundo, para lá de um grande vidro; cá dentro, mesas e cadeiras meticulosamente arrumadas e mais ou menos pessoas. Já nos conhecemos uns aos outros, já sabemos qual a mesa reservada para cada um de nós.

As férias parecem-nos um conceito abstrato. Não as tivemos e não compreendemos como é que alguém se pode dar a tanto luxo. Fosse julho, agosto ou setembro, o ar condicionado era frio e pedia um casaco. As nossas vidas pararam no tempo. Ignoramos o mundo que progride, focando-nos no estudo.

Por breves momentos, na pausa do lanche ou do almoço, voltamos a nós, voltamos a ser quem somos, tentando recuperar a alegria da juventude e da possibilidade de comunicação.

Tal como de manhã vamos chegando, ao poucos, à tarde, vamos partindo, uns mais cedo que outros.

Toc toc toc. Ouvem-se os passos a aproximar-se:

- A sala encerra daqui a cinco minutos.

Fingimo-nos surpresos com tal afirmação e tentamos aproveitar os últimos minutos de estudo. Como é que um dia pode ter passado tão depressa?

Arrumamos. Saímos lentamente como se aquele lugar nos pertencesse. Despedimo-nos. Amanhã é outro dia

Filipa Isabel Gomes

Ilustração por Beatriz Aranha Martins, 4º ano

Ele, e o Fascismo, Não!

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Trinta e três anos depois de 21 anos de Ditadura Militar no Brasil, o mundo assiste a uma possível transição de regime que, contrariamente ao que se deu em 1964, edifica-se por uma transição legal para a ditadura.

Uma transição que se semeou em 2016 com a destituição da legítima Presidente do Brasil Dilma Rousseff e criou raízes com a negação do direito, direito reivindicado também pelo Comité de Direitos Humanos da Organização das Nações Unidas, por parte do Tribunal Superior Eleitoral, da candidatura de Lula da Silva, ex-presidente do Brasil, que liderava a intenção de voto, meses antes das eleições.

Um mês depois da celebração de mais um ano da Proclamação da Independência do Brasil, no passado dia 7 de outubro de 2018, viveu-se um dia de luto internacional mascarado de verde e amarelo. Nas eleições presidenciais brasileiras o candidato da extrema-direita, Jair Bolsonaro, do Partido Social Liberal, liderou a eleição com 46% da votação, seguido da segunda mais votada candidatura com 29,3% da votação de Fernando Haddad do Partido dos Trabalhadores.

Verificou-se uma polaridade eleitoral, com os Estados do Nordeste, estados com menor índice de desenvolvimento humano e com maior número de beneficiários do Bolsa Família (programa financeiro de apoio a famílias mais carenciadas) a votarem maioritariamente em Haddad, impedindo que tudo ficasse definido na 1ª volta e garantindo assim a necessidade de uma segunda votação, que se realizará no próximo dia 28 de outubro.

O confronto travar-se-á entre um mestre e professor de economia e Bolsonaro que assume nada perceber sobre este tema; entre um compromisso de isentar o imposto de renda, a quem recebe até cinco ordenados mínimos, e a intenção de aumentar esta mesma renda;  entre quem apresenta políticas várias contra a violência e quem quer banalizar o porte de arma, entre Haddad que defende a necessidade de políticas de combate à violação e de promoção da saúde integral da mulher e Bolsonaro que defende a proibição da Interrupção Voluntária da Gravidez em caso de violações; entre um candidato que defende a igualdade profissional e salarial e quem levianamente afirma que “as mulheres devem ganhar menos porque engravidam”...

No país que se rege pela Ordem e Progresso, a maioria dos eleitores mostrou preferência na escolha para Chefe de Estado de alguém que se manifesta a favor da tortura, que levianamente insinua violações sexuais, que defende massacres militares, que despreza as diversas identidades de género e orientações sexuais e que fomenta a violência e o desrespeito pelas mulheres e minorias. Um candidato cuja campanha eleitoral se pautou de ataques pessoais, de ofensa à liberdade individual, de proclamação da submissão das minorias face às maiorias e que proliferou tantas notícias falsas. O mundo, nestes últimos meses tem assistido a uma nova novela brasileira em que o protagonista edifica o seu monólogo sobre as vozes abafadas dos actores que ele exige que sejam secundários.Que motivos levarão a que conscientemente se defenda um candidato com esta postura? Será justificação suficiente um descrédito pela Democracia ou estará o povo brasileiro tão alienado que não enxerga as reais e possíveis consequências do seu voto?   

É um sinal de alerta mundial, quando está iminente a eleição de um político autoritário, racista, machista, homofóbico, proclamador de um discurso de incentivo ao ódio, um adorador da ditadura e defensor dos valores mais retrógrados, para o cargo de Presidente de um dos maiores Países, tão rico em recursos naturais como culturalmente.

É um sinal de alerta para nós europeus, que em paralelo com o crescente movimento global nacionalista que já conquistou os Estados Unidos da América e marcha agora pelo coração da América Latina, assistimos a um ganhar terreno da extrema-direita na Europa. Desta expansão, é exemplo o apelo dos líderes da extrema-direita italiana Matteo Salvini, e francesa, Marine Le Pen, de criação de uma “frente da liberdade” de partidos soberanistas, no início do mês de outubro, no mesmo dia em que apresentaram juntos a campanha eleitoral para as Eleições Europeias que se realizará no próximo dia 23 de maio.

As próximas semanas serão decisivas para a História da Democracia no Brasil e no Mundo. Mais do que estarmos perante a eleição de um candidato em particular, estamos perante a não eleição de alguém que pode fazer retroceder na história séculos de progresso social. Que todos os cidadãos conscientes e todos os outros candidatos à presidência se unam e consigam fazer ouvir o Grito que há 196 anos criou tormentas nas calmas águas do riacho do Ipiranga.

Eva Borges, 4ºano

Ilustração por Ricardo Sá, 4º ano