O Netter É Arte?

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 Seria impossível sobrevalorizar a importância que o Atlas de Anatomia Humana, de Frank Henry Netter, teve para a formação de muitos de nós. As imagens minuciosas, detalhadamente legendadas, que permitiram a tantos uma compreensão mais clara e aprofundada da densa matéria que é a anatomia.

    Muito pensarão que será também possível defender este manual como uma obra de arte. Não apenas tecnicamente útil ou esteticamente bela, mas um feito artístico. Afinal de contas, como não? Tão sublimes as imagens, tão complexa a representação, tão brilhante o conteúdo.

    Brilhante, complexa, sublime? É razoável afirmá-lo. Mas arte?

    Em 1938, Robin George Collingwood publicou Os Princípios da Arte. Constituiu, na sua altura, um marco significativo para a teoria estética e, ao contrário do que seria de esperar, dedica boa parte desta obra a explorar o que não é arte.

    A arte não é uma forma de entretenimento, nem de magia (isto é, não visa despertar uma emoção predeterminada, como propaganda patriótica ou uma dança de guerra) mas, mais importante que isto, não é uma imitação ou representação. Collingwood argumenta que estas se encontram no domínio da técnica e que, ainda que uma obra de arte possa ser uma obra técnica, o contrário não é necessariamente verdade.

    Afirma que a arte se baseia na expressão de emoções, e que a identificação desta finalidade não pode ser separada da atividade artística, ao passo que numa técnica, a identificação da finalidade não depende do processo de produção (por exemplo, o sapato é identificado sem ser necessário recorrer à atividade de fabrico).

    Conclui que a genuína obra de arte reside na emoção do artista, e que a externalização é uma questão de técnica – por outras palavras, apenas uma obra onde o artista exprime as suas emoções é considerada arte.

    Posto isto, podemos concluir que Netter não foi nunca um artista, apesar de se identificar como tal, mas um mero ilustrador. As suas obras são, portanto, feitos técnicos magníficos com um enorme legado, mas não obras de arte. É uma conclusão razoável, mas talvez haja algo mais por trás disto.

    Permanecem várias questões: apesar de técnicas, Netter exprimiu emoções através das suas ilustrações? Será que via no corpo humano não apenas um objeto de representação, mas também uma fonte de inspiração? Qual era a sua motivação para desenhar?

    O próprio parece esclarecer-nos no prefácio da 1ª edição da sua seminal obra: “Clarificação de um assunto é o objetivo e finalidade da ilustração. Independentemente de quão maravilhosamente pintado, quão delicadamente e subtilmente realizado seja um assunto, é de pouco valor como ilustração médica se não for útil a tornar claro uma questão médica”.

    Estas citações parecem pender fortemente na direção da técnica ilustrativa, e não da arte. Netter mostra entender como o seu papel reside na representação da verdade tal como ela é, não da realidade como ela é percecionada ou muito menos na expressão das emoções que ela desperta em si. Ainda mais, reveste-se de uma função pragmática - a clarificação de assuntos médicos complexos.

    E, no entanto, muitos dos seus objetos de desenho não são exclusivamente as condições médicas, mas a pessoa com a condição médica. O próprio afirmava, frequentemente, que não somos máquinas que necessitam de manutenção, mas seres humanos. Particularmente os seus desenhos de crianças parecem exprimir uma profunda empatia pela vulnerabilidade destes pequenos.

    Que devemos, então, fazer de tudo isto? Não pretendo, com esta reflexão, expor apenas a minha opinião pessoal sobre o assunto, nem não pouco apresentá-la como a única resposta razoável a esta problemática.

    A arte é um tema complexo, sob o qual se debatem filósofos e artistas há muitos séculos. Collingwood propôs uma perspetiva relativamente atual e bem fundamentada sobre o assunto, mas tem os seus críticos. Se há algo que não há na filosofia é consenso e muitas outras opiniões sobre o assunto podem ser consideradas.

    Gostaria apenas de apelar à reflexão profunda sobre esta temática, e mostrar como a alma e as motivações do ser humano são, muitas vezes, mais complexas do que inicialmente ponderamos. Nunca poderemos verdadeiramente compreender o que ia na alma de Frank H. Netter, nem tão pouco assumir que se absteve totalmente de transpor as suas emoções para o papel.

    No entanto, as suas obras permanecem um dos grandes feitos da anatomia moderna e, sem sombra de dúvida, não pecam por ausência de beleza. Seja arte ou técnica, seremos capazes de reconhecer o estado de prazer que a contemplação das suas imagens despoleta.

    Exceto quando chega a hora de estudar anatomia.

Fontes consultadas:

  • Kenny, Anthony. A New History of Western Philosophy - Volume 4: Philosophy in the Modern World. Oxford University Press, 2008.

  • Frank, Netter H. Atlas of Human Anatomy. Elsevier, 2014.

  • Netter, Francine Mary, and Friedlaender, Gary E. “Frank H. Netter MD and a Brief History of Medical Illustration.” Clinical Orthopaedics and Related Research, U.S. National Library of Medicine, 17 Jan. 2014.

  • Dominiczak, Marek H. “An Artist Who Vastly Enriched Medical Education: Frank H. Netter.” Clinical Chemistry, Sept. 2013.

António Velha, 2º ano

Ilustração por Miguel Silvestre, 5º Ano

Pseudo-pleasure

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como as redes sociais afetam o nosso comportamento

Social media: forms of electronic communication through which users create online communities to share information, ideas, personal messages, and other content

Segunda-feira. Nove da manhã. Entro na enfermaria, enfrentando mais uma semana de aulas. Sento-me numa cadeira da sala de espera. Os corredores vão sendo lentamente ocupados por batas brancas; os utentes do hospital curiosos como sempre quando nos vêem. Observo os meus colegas cabisbaixos com telemóveis nas mãos, à espera dos respetivos assistentes. “É incrível”, penso, “como as pessoas são obcecadas com as redes sociais”. Volto a olhar para o meu telemóvel, leio os meus e-mails e notificações. Curioso como faço exatamente o mesmo que condeno, e nem me apercebo.

Lembram-se porque é que criaram a vossa conta de Facebook?

Há cerca de dez anos, numa viagem fora de Portugal, uma prima distante perguntou-me “Devias adicionar-me no Facebook. Sabes o que é?”. Depois de ter dito que não, ela explicou-me o conceito. Fiquei pasmada: eis uma ideia tão revolucionária, uma rede onde podíamos partilhar a nossa vida com pessoas que estão longe de nós. Quando voltei a casa, uns dias depois, sentei-me no escritório e passei uma tarde a criar e a aperfeiçoar a minha conta. Penso que fui das primeiras pessoas a criar uma conta no meu grupo de amigos, e por isso, durante algum tempo, tentei convencer todas as pessoas que conhecia a juntarem-se a esta nova rede social. Assim começou. E assim continuou durante anos.

Hoje, em contrapartida, é enorme a procura de soluções que bloqueiam aplicações viciantes como o Facebook e o Instagram. Confesso que já procurei diversas opções para bloquear o meu “screen time”, ou tempo de ecrã, sem grande efeito. Mas porque é que será tão difícil controlarmos a utilização destas aplicações?

Todos sabemos que as redes sociais foram desenhadas com objetivo de serem viciantes. Fazem-nos sentir a necessidade de verificarmos constantemente se alguém interagiu com nossa fotografia ou publicação, ou se o nosso colega já leu aquela mensagem que deixámos na conversa de grupo há umas horas.

Os criadores destas plataformas utilizam várias maneiras de atrair e manter a nossa atenção. Alguns exemplos são:

  • Endless scrolling, uma funcionalidade que faz com que continuemos a ver publicações de forma infindável. Esta estratégia não nos permite reagir aos nossos próprios impulsos, levando, por isso, a que passemos mais tempo simplesmente a fazer scroll.

  • Os likes e comentários, que criam uma sensação de comunidade e companheirismo, de forma a que nos sintamos validados com a interação com outros utilizadores.

  • Push notifications, juntamente com a cor vermelha das notificações (que contrasta com o azul ou branco de fundo), que estabelece uma certa urgência ao alerta e nos incentiva a verificar as nossas notificações.

Estas técnicas quasi-pavlovianas são relatadas por engenheiros e developers, que antigamente trabalhavam para empresas como o Facebook e a Google.

O ex-presidente do Facebook, Sean Parker, admitiu em 2017 que o principal intuito desta plataforma social é de atrair a população, com recurso a libertações de dopamina em resposta ao seu uso. Acrescenta ainda que “é um loop de feedback de validação social (…) porque estamos a explorar a vulnerabilidade da psicologia humana”.

Também Justin Rosenstein, o engenheiro do Facebook que inventou o “like”, descreve a sua criação como [“bright dings of pseudo-pleasure”].

Existe, em sobreposição, uma tendência de esboçar uma vida perfeita aos amigos e seguidores online. É muito fácil olhar para os nossos murais, cheios de publicações premeditadas e fotografias editadas, e questionarmo-nos porque é que nós não conseguimos viver assim. Ignorando completamente o facto de que as pessoas revelam online apenas uma versão filtrada de si mesmas. Os adolescentes, sendo o principal mercado destas plataformas, passam uma grande quantidade do seu tempo a idealizar e projetar uma imagem perfeita online. Será que estamos a instigar as pessoas a criar uma versão falsa online, em vez de as encorajarmos a aceitar a sua individualidade? E não estaremos nós próprios, inevitavelmente, a ficar dependentes da opinião dos outros para cada fotografia ou publicação que lançamos para o mundo virtual?

Apesar destas questões, decerto que a maior parte das pessoas crê que o seu uso das social media é moderado, e que não lhes causa dano significativo, argumentando ainda que estas plataformas permitem uma maior aproximação com os seus familiares distantes e amigos. É o meu caso.

Um estudo de 2018 refere que o uso excessivo de smartphones (e, infira-se, de social media) advém da necessidade humana de contacto e maior afinidade com os outros. Ainda relatam que apesar dos efeitos negativos do vício a redes sociais, o recurso às mesmas surge a partir de um mecanismo natural e evolutivo da espécie humana: a necessidade de vigiar o outro e ser vigiado em resposta.

Por fim, penso que é importante lembrarmos que todas as grandes revoluções tecnológicas foram alvos de fortes críticas. Tal como os telemóveis e computadores, também a televisão, os livros e a própria escrita foram, no seu tempo, vistos como inovações deletérias para o desenvolvimento da sociedade. Hoje, podemos afirmar precisamente o contrário; é indiscutível o avanço permitido por todas estas tecnologias, incluindo as mais recentes. E se uma geração interpreta o uso de redes sociais como sendo uma regressão da comunicação entre pessoas, uma outra geração, a nossa, floresce com o seu uso.

Nuzhat Abdurrachid, 5º ano

Ilustração por Susana Xu, 3º Ano

Existem terapeutas musicais?

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- Acho que vais gostar deste. – afirmou a minha mãe, entrando no meu quarto sem bater à porta (como sempre) e pousando um livro em cima da minha secretária.

Olhei para o livro, curiosa. Normalmente, quando a minha mãe me diz que vou gostar de um livro, acerta. Conheço a autora: Jodi Picoult. A escritora norte-americana tem-se tornado uma das minhas predileções mais recentes. Contudo, desconheço o título: Uma Melodia Inesperada.

- Depois quero saber o que achaste. – Continua à minha mãe, saindo do quarto tão depressa quanto entrou.

Não vou descrever aqui a história pormenorizada do livro (que recomendo), apenas comento que uma das personagens principais era terapeuta musical. Este conceito revelou-se uma novidade para mim. Existem terapeutas musicais?

Claro que é fácil acreditar que a música pode aliviar a ansiedade ou a tristeza ou o stress quando nós próprios já experimentámos isso. Quantos de nós não ouvimos músicas deprimentes quando estamos tristes porque sentimos que isso nos ajuda a lidar com a nossa tristeza? Ou colocamos música melancólica em viagens compridas de autocarro só para podermos olhar pela janela e pensar na vida? Ou ouvimos música animada em momentos mais aborrecidos para tentarmos levantar o nosso ânimo? Quem não ouve o Bailando e não pensa de imediato na Noite da Medicina e não dá por si a sorrir com isso?

No entanto, a ideia de existirem profissionais que se dirigiam aos hospitais e aos lares e às escolas para realizar terapias com música suscitava-me alguma confusão. Fui lendo o livro com interesse, acompanhando a terapeuta musical à medida que ela acompanhava um velhote catatónico num lar de idosos, uma adolescente deprimida e diversos recém-nascidos, ao mesmo tempo que me perguntava se esta nova prática teria muita adesão nos Estados Unidos da América.

O livro descreve particularmente bem a interação entre a terapeuta musical e uma adolescente deprimida; a forma como a personagem utiliza a música para interagir com uma rapariga que se isolou de tudo e de todos, como utiliza diversos instrumentos para que ela se possa expressar ou simplesmente libertar toda a frustração que existe dentro dela e como, aos poucos, a rapariga começa a ver aquelas sessões como um escape e não como uma obrigação.

Quando recebi o email com o novo desafio proposto pela Ressonância, decidi naquele momento que iria pesquisar sobre este assunto.

A musicoterapia define-se como o uso clínico da música por um musicoterapeuta certificado para auxiliar os pacientes a alcançarem determinados objetivos individuais que incluem o alívio e controlo da dor, diminuição de sintomas de depressão e ansiedade, promover a reabilitação motora, a comunicação e o desenvolvimento cognitivo, entre outros.[1]  A musicoterapia inclui diversas atividades tais como composição de letras e de músicas, cantar, improvisar, aprender a tocar um novo instrumento, escutar simplesmente, analisar e discutir letras e até “tocar a fingir”. As sessões de musicoterapia são mais frequentemente individuais (apesar de também poderem ser em grupo), pois o objetivo é que cada sessão seja o mais adaptada o possível ao indivíduo.[2]

Foi com espanto que descobri que existe mesmo uma World Federation of Music Therapy, criada em 1985, e um Dia da Musicoterapia que se celebrou a 1 de Março de 2018.[3] Descobri que a musicoterapia já é utilizada em locais tão diferentes como a África do Sul, a Austrália, o Canadá e a India e em populações tão diferentes como as crianças, os idosos e os doentes psiquiátricos.

Todavia, uma dúvida essencial não deixava a minha mente: Funciona?

Novamente, voltei á minha pesquisa e descobri resultados muito interessantes…

  1. Comunicação funcional – A musicoterapia tem-se revelado particularmente eficaz em promover a comunicação em pessoas profundamente dementes (seja com Demência de Alzheimer ou outras demências). Crê-se que uma das explicações para isto é que a linguagem seja uma função adquirida mais recentemente pelo nosso cérebro, enquanto que a música e a comunicação não verbal são capacidades mais ancestrais e que podem mais facilmente ser reestabelecidas através desta terapia. Em diversos estudos de menores dimensões, a música revelou-se como um dos poucos estímulos a conseguir despertar reações por parte dos pacientes e levá-los a interagir com o ambiente à sua volta. [2]

  2. Cuidados Neo-Natais – Um dos principais locais onde a musicoterapia é aplicada é nas Unidades de Cuidados Intensivos Neonatais (UCIN). O som de ventiladores, bombas de infusão e de oxigénio, o ruído de macas e o murmúrio de vozes exaltadas são sons típicos que os recém-nascidos prematuros ouvem durante os primeiros dias de vida numa UCIN. Estes sons são quase impossíveis de desligar. No entanto, vários estudos apontam para que a música possa acalmar os bebés pré-termo e os seus pais. Tem-se verificado que a música diminui a frequência cardíaca dos bebés pré-termo, diminui o tempo de choro, aumenta o tempo de sono e pode melhor os hábitos alimentares e o desenvolvimento cognitivo dos mesmos.[4] Para além disto, também se pensa que a música possa servir como elemento de distração para os recém-nascidos, fazendo com que estes se foquem na música e se abstraiam da dor que sentem.[2]

  3. Geriatria – A musicoterapia tem uma vasta utilização na população geriátrica. Serve como elemento de motivação para a prática de atividade física, serve como um elemento capaz de reavivar memórias (todos sabemos que há músicas que guardamos profundamente associadas a lugares, pessoas, momentos, etc.), serve como um promotor da capacidade cognitiva não só por promover a aquisição de novas capacidades como por voltar a acionar capacidades que já possuíamos… E a lista continua. [2]

  4. Psiquiatria – A musicoterapia também é utilizada em diversas patologias do foro psiquiátrico e o mais incrível é que tem demonstrado eficácia em promover o relaxamento, a comunicação, expressão do próprio, capacidade de reflexão e processamento emocional. [2]

A lista de áreas onde a musicoterapia é aplicada continua, assim como as diversas formas em como a música pode auxiliar os pacientes. Existem vários websites e artigos que podem ser consultados.

Contudo, tendo terminado a minha pesquisa intensiva, sinto que ainda há muitos poucos estudos bem desenhados (estudos longitudinais aleatorizados, duplamente cegos e com placebo) e de grande escala que nos permitem tirar conclusões válidas sobre a eficácia que a musicoterapia aparenta ter. Mesmo aqui encontramos um desafio muito importante. Como é que podemos ter um ensaio com placebo duplamente cego para a musicoterapia? O grupo placebo seria um grupo que não escutaria nem tocaria música. Os pacientes deste grupo saberiam que não estavam a fazer musicoterapia, impossibilitando o caráter duplamente cego do estudo. Deixo parar no ar a pergunta de como poderíamos ultrapassar este obstáculo, por forma a podermos contestar ou confirmar muitos destes resultados aparentes.

Aguarda-nos um futuro de novas terapias, algumas menos convencionais que outras, de novas formas de aliviar o sofrimento e de estabelecer contacto com os nossos pacientes e, enquanto estudantes de medicina, temos que estar preparados para encarar estes desafios, saber informar-nos sobre os mesmos e saber informar os nossos pacientes.

Continuo fascinada pela musicoterapia e tão curiosa como da primeira vez que li as palavras “terapeuta musical”. Aguardo, impacientemente, para ver o que o futuro nos trará nesta área.

Fontes:

  1. Florida Hospital for Children. (2018). Music Therapists. [online] Disponível em: https://www.floridahospital.com/children/experience/who-you-meet/music-therapists [Acedido a 13 Set. 2018].

  2. Music Therapy Association of BC. (2018). How Does Music Therapy Work?. [online] Disponível em: http://www.mtabc.com/what-is-music-therapy/how-does-music-therapy-work/ [Acedido a 13 Set. 2018].

  3. World Federation of Music Therapy. (2018). World Federation of Music Therapy (WFMT). [online] Disponível em: https://www.wfmt.info/ [Acedido a 13 Set. 2018].

  4. Novotney, A. (2013). Music as medicine. [online] http://www.apa.org. Disponível em: http://www.apa.org/monitor/2013/11/music.aspx [Acedido a 13 Set. 2018].

Inês Abreu, 4º ano

Ilustração por Ricardo Sá, 4º Ano

TAUROMAQUIA

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A tauromaquia tem-nos sido apresentada como ordem do dia, abrindo jornais televisivos, dando mote a diversas publicações, despoletando diferentes pontos de vista e sendo rastilho para as já habituais ácidas e intolerantes discussões patrocinadas pelas redes sociais.

Acredito que tudo tenha voltado a ser tema de conversa quando, no verão passado, no dia seis de julho, a Assembleia da República chumbou uma proposta do partido Pessoas-Animais-Natureza (PAN) que pretendia a abolição das corridas de touros em Portugal. O projeto teve os votos contra do Partido Social Democrata (PSD), Partido Socialista (PS), Partido Centro Democrático Social- Partido Popular (CDS-PP) e Partido Comunista Português(PCP) e os votos a favor do PAN, Bloco de Esquerda (BE) e Verdes. E o que pensam os portugueses? Entendo que estão divididos, opinião que acaba por ser corroborada através do anúncio dos (diria, caricatos) resultados do orçamento participativo português. Se não, vejamos, como projetos aprovados no concurso de âmbito nacional encontramos a proposta número 433, “Tauromaquia para Todos”, integrado na categoria “Cultura”, representando uma fatia de 50 000 euros, mas, para incitar e alimentar a discussão, também verificamos que foi aprovado o projeto número 761, “Portugal sem Touradas”, no domínio da “Educação, Desporto e Juventude”, com um investimento de 200 000 euros. O primeiro defende “a criação de um programa de difusão de informação e conhecimento sobre a cultura tauromáquica de Portugal”, já o segundo, pretende “desmistificar os princípios em que a atividade se autojustifica e contribuir para a construção de um pensamento crítico face à mesma no seio da sociedade portuguesa”. Sendo o orçamento participativo português “um processo democrático deliberativo, direto e universal”, esta escolha acaba por ser representativa da dicotomia de opinião do povo português e algo que tem por base objetivos que colidem.

A mais recente controvérsia sobre o tema, à data da redação deste artigo (e acredito que esta novela não acabará por aqui), é-me apresentada como mais uma “salgalhada parlamentar”. O Governo, através da proposta de Orçamento do Estado para 2019, propõe a redução do IVA de 13 para 6% para a maioria dos espetáculos, tendo como exceções o cinema, os espetáculos de música ao ar livre e as touradas, para as quais mantém os atuais 13%. O BE e o PAN, por recusarem as touradas, pretendem um IVA mais alto; o PCP, o CDS/PP, o PSD e, pelo menos uma parte, a própria bancada do PS, contrariando a opinião do primeiro-ministro, propõem a redução do IVA das touradas para os 6%. Toda esta “contenda” foi exacerbada quando, no debate do Orçamento do Estado para 2019, Graça Fonseca, atual ministra da Cultura, recusou a descida do IVA incidente sobre a tauromaquia de 13 para 6%, dizendo que “não é uma questão de gosto, é uma questão de civilização”. A juntar a estas polémicas, sendo também curioso mas incongruente, segue-se o facto do Governo manter a taxa reduzida para as prestações de serviços de artistas tauromáquicos e propor, para os ingressos nos espetáculos onde estes intervêm, o IVA a 13%.

Pessoalmente, não consigo conceber a redução do IVA para uma taxa inferior em espetáculos tauromáquicos do que, por exemplo, para assistir a um espetáculo de música ao ar livre, a realização de uma visita ao Jardim Zoológico, a um Aquário ou até a ida a uma consulta veterinária.

Quanto à discussão entre aqueles que defendem e os que recusam a corrida de touros “à portuguesa”, que inclui a atuação dos cavaleiros, pegas e toureio a pé, encontramos, fundamentalmente, como argumentos, por um lado, a defesa das corridas de touros enquanto elemento representativo da cultura portuguesa, a continuação da espécie do touro bravo que é usado quase exclusivamente em corridas de touros, a dinamização económica das regiões onde se promovem estes eventos, a melhor qualidade de vida que é proporcionada aos animais comparativamente aos que estão estabulados e a dignificação do touro, porque acreditam que, assim, atinge como que o apogeu da sua existência ao participar na tourada. Por outro lado, encontramos aqueles que defendem os direitos dos animais, lutando pela erradicação de qualquer atividade que põe em causa o bem-estar animal. Identifico-me com o segundo grupo. É inegável que a tauromaquia representa parte das nossas tradições, mas não me parece que possa ser entendida e defendida como parte da nossa cultura. Manter as touradas com o argumento de preservarmos as nossas tradições, a todo e qualquer custo, parece-me despropositado, assim como entendo que a cultura não poderá estar associada à violência gratuita infligida aos animais.

Sobre o argumento relativo à manutenção da espécie, admito que poderá ser difícil, mas se é tão característica do nosso povo, porque não promover a sua divulgação e valorização como achado autóctone? Desse modo, conseguir-se-ia mitigar ou contrariar as dificuldades económicas das regiões tipicamente tauromáquicas. Já quanto à qualidade de vida animal, não podemos escudar o fim miserável que é dado ao mesmo pela simples justificação da sua sobrevivência. Discutindo a alegada nobreza da luta entre os vários intervenientes das touradas, simplesmente não posso concordar que se trate de uma luta em que os opositores se encontram em pé de igualdade. Com efeito, o animal, naturalmente e por vontade própria não estaria ali, não lutaria e, certamente, não passaria por uma apertada, forçada e muito discutível forma de seleção artificial, onde são testadas tanto as qualidades de transmissão genética das fêmeas como a virilidade dos machos, entenda-se resposta agressiva a estímulos provocados por humanos.

A tourada não é um duelo, é uma luta desigual. Não é crível que o touro entrasse de livre e espontânea vontade dentro de uma carrinha transportadora, quisesse ser espicaçado ou ter os seus chifres embolados, bem como atravessar um corredor que, curiosamente, tem apenas uma saída, enfrentar uma arena ruidosa e luminosa (ou não), para depois ser enganado, provocado, espetado, magoado, esgotado e, possivelmente, abatido. Para mim parece-me óbvio o sofrimento do animal, sobrepondo-se este a qualquer outro argumento contrário. Vivemos no século XXI, num país com tantas e tão bonitas tradições das quais, enquanto Povo, podemos e devemos nos orgulhar, sendo, na minha opinião, dispensável e descabida a continuação desta tradição nos termos e condições em que se realiza atualmente.

Ora, como considero que nada melhor do que apresentar uma história verdadeira para poder ser representativa do ponto de vista de quem a defende, apresento-vos a minha. Quando criança, tinha por hábito ver, em família, sobretudo com o meu avô, as touradas que passavam na televisão. Ficávamos durante horas a fio entretidos, aproveitando para observar e comentar a prestação dos cavaleiros, forcados e de todos aqueles que participavam no que, à época, eu considerava ser um empolgante espetáculo. Com o avançar da idade, cresci e, claro, desenvolvi o meu sentido crítico, podendo dizer que hoje não compactuo com a manutenção do que se considera serem touradas “à portuguesa”, nas condições atuais. Por conseguinte e em coerência, defendo que aquelas devem ser erradicadas da televisão portuguesa. Não porque entenda que com o espectáculo se proporcione o aliciamento das crianças para a esfera tauromáquica, mas porque, ao contrário, podem ferir a sua sensibilidade e, sobretudo, pelo facto de, atualmente, não encontrar quaisquer argumentos que justifiquem o tratamento a que se sujeitam os animais.

Julgo que a realização das touradas à portuguesa, nas condições atuais, não se coadunam com aquilo que defendo como identitário do nosso Povo. Ainda assim, gostava que esta minha história pudesse servir de reflexão e discussão acerca do tema, como acontece dentro da minha própria família, mas nunca enquanto pretexto para alimentar o ódio, como, lamentavelmente, já o temos testemunhado entre quem defende e combate as touradas. Ou seja, também sobre este tema, é preciso mais tolerância.

Já agora, outro testemunho, após a reunião em que ficou decidido que escreveria um texto sobre a tauromaquia, rumei a casa. Era já hora de jantar. Durante a refeição, aproveitei para conversar com as minhas colegas de residência sobre como tinha corrido o meu dia e escutei o que me diziam sobre o seu. Já no final do jantar, deu-se uma grande coincidência, para quem acredita em coincidências, ou acasos, para os que neles não acreditam, quando uma das minhas colegas perguntou se podia mudar de canal televisivo, “passar para a RTP1”, porque ia dar a tourada. Fiquei perplexa com o pedido e manifestei-me contra as touradas organizadas nos moldes atuais. Revelei-lhes que, a propósito, iria escrever um texto sobre a tauromaquia. Trocámos ideias sobre o tema, designadamente o método de escolha das ganadarias, a eventual manutenção das touradas mas noutros moldes que não impliquem o sofrimento e morte do animal, manter a pega dos forcados, acabar com a lide a cavalo ou alterar a forma como é realizada atualmente. Sugeri, escutei, discordei e concordei. No final, as opiniões de umas não se impuseram às demais e, curioso, não chegámos a mudar de canal.

Quanto ao futuro, se me perguntarem se acredito que as corridas de touros irão acabar, respondo que não sei mas espero que sim, defendendo a minha perspetiva. Aliás, se em 1836 as touradas foram proibidas em Portugal, por Decreto, com o argumento de serem “um divertimento bárbaro e impróprio das nações civilizadas, que serve unicamente para habituar os homens ao crime e à ferocidade”, não vejo porque não poderão voltar a ser banidas.


Raquel Morgado, 2º ano

Ilustração por Carolina Daniel, 4º Ano

Transformers - Realidade ou Ficção

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Assim que soube que o Dan Brown tinha publicado um novo livro, apressei-me em arranjar forma de o ler. Sendo um dos meus autores preferidos, com uma capacidade fora do comum para criar suspense, elaborar plot twist inesperados e abordar temas controversos, Dan Brown tem uma enorme capacidade para nos prender às suas histórias e nos deixar a ler até altas horas da madrugada.

Sendo sincera, A Origem não é o melhor dos seus livros. Sendo ainda mais sincera, fiquei até ligeiramente desiludida com o mesmo. Contudo, aborda uma temática muito interessante: tecnologia vs espécie humana. A história retrata um super computador, Winston, com capacidade de pensar por si próprio e tomar decisões, entre inúmeras outras caraterísticas algo assustadoras para um computador. O criador de Winston, Edmund Kirsch, apresenta-nos ao longo do livro a sua fantástica teoria futurista que demonstra que, daqui a poucas dezenas de anos, irá acontecer uma de duas coisas:

  1. Ou a tecnologia irá eliminar a espécie humana…

  2. Ou a tecnologia e a espécie humana irão fundir-se numa só.

Fiquei a pensar nesta teoria futurista e pareceu-me algo ridículo que não houvesse outras opções para além destas duas. Certamente, a espécie humana pode imaginar um futuro sem a tecnologia… Ou não?

Entretanto, em meados de Outubro, saíram os resultados do estudo “Happy Kids: Aplicações Seguras e Benéficas para Crianças” do Católica Research Centre for Psychological, Family and Social Wellbeing (CRC-W), da Universidade Católica Portuguesa. Segundo este estudo, com 1986 respostas consideradas válidas dadas por pais, 51% das crianças com menos de 8 anos de idade utilizam aplicações. Para além disto, o estudo afirma que “As crianças mais jovens (0-2 anos) são as que mais usam apps, sobretudo porque estas são um valioso recurso para os pais as manterem entretidas fora de casa (ex. no restaurante) ou quando precisam de trabalhar em casa ou de fazer tarefas domésticas.”

Comecei a considerar tudo isto mais seriamente. Eu tenho primos mais novos a viver em Nova Iorque e em Moçambique que com 2 anos já sabem utilizar o skype e ligar aos meus avós. Eu presencio as chamadas que às vezes fazem, à revelia dos pais. No pouco que convivo com os meus primos americanos, vejo que são completamente viciados em jogos no tablet e que, aos 2 anos, sabem utilizar este instrumento melhor que eu, que tenho 10 vezes a idade deles. Como será que irão os meus primos evoluir no futuro? E as restantes crianças?

Nas últimas décadas, temos assistido a uma evolução  da tecnologia acompanhada de melhorias na nossa qualidade de vida como nunca antes se tinha assistido. Todavia, a nossa dependência pela tecnologia no dia a dia não só aumentou exponencialmente como o fez de forma sorrateira. Aos poucos, estamos a viver em simbiose com a tecnologia e nem nos apercebemos. Será que a teoria futurista de Edmond Kirsch não é tão ridícula assim? Irá a tecnologia vencer-nos? Ou seremos nós a juntar-nos a ela?


Inês Abreu, 4º ano

Ilustração por Sofia Pessoa Jorge

De Cigarro Aceso

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Vejo-a sentada na mesa do canto do café e sei que me vou apaixonar. Está com um caderno à sua frente, a escrevinhar alguma coisa que anseio ler e, de vez em quando, levanta a cabeça e encosta-se à cadeira para pensar. Na realidade, não parece pensar em absolutamente nada, parece apenas pausar um vazio para se ocupar de outro.

Não quero que repare que estou aqui há mais tempo do que devia, pelo que saio e volto a entrar, dirigindo-lhe um aceno casual, ao qual imediatamente me responde com um sorriso e um aceno da mão que segura gentilmente o cigarro aceso. Desta vez não me convida para sentar, pelo que pego no copo e saio.

Ainda me lembro quando me prometi que não ia ceder aos seus encantos… quando ma apresentaram, só conseguia concentrar-me nos seus olhos e no quanto desejava perder-me neles, sabendo que seria um erro. Mas, em vez de ouvir a voz da razão, lá me deixei cair no poço interminável que é a paixão.

Não a percebo. Talvez por isso ela me tenha na palma da sua mão.

Quando chego a casa, pergunta-me porque não me juntei a ela, mas há uma semana fi-lo sem convite e limitou-se a virar a cara e a mandar-me embora…

Mais um dia, combinamos encontrar-nos no sítio habitual. Chego à margem do rio uns minutos antes, porque sempre gosto de a ver chegar. Cabelo ao vento e a olhar para o chão, apaga o cigarro mas prepara logo o seguinte. Detesto que o faça. Olho para as costas dela e vejo uma mochila, pelo que sei que trouxe vinho a mais, como sempre, mesmo que lhe tenha pedido que pare de o fazer.

Senta-se ao meu lado, sem uma palavra, e abre a primeira garrafa. Quando ma oferece, já vai a meio. Reparo nas nódoas negras nas pernas dela e tento não dar a entender que me preocupo, porque sei que ela não gosta. Quer que a deixe ser um furacão em paz.

Tem os olhos vermelhos, de novo. Esteve a chorar. Mas sorri quando vê o fumo branco sair da sua boca e segue-o com o olhar. Tão simples.

Pergunto-lhe o que estamos ali a fazer, mas ela manda-me calar num sussurro e deita-se a olhar o céu.

Toco-lhe no cabelo. Não diz nada, pelo que continuo. A minha mão desliza pela pele dela e demora-se em cada recanto. Repouso-a no seu pescoço. Continua sem dizer nada, pelo que continuo. Sinto a seda do seu casaco e afasto-o do caminho, deixando os meus dedos envolver-lhe a cintura. Aproximo-me e obrigo-a a encarar-me. Reparo nas flores brancas que saem da mochila, mas não ligo. Deixo a minha mão sentir a pele dela e sinto a sua respiração mais forte, impaciente.

Sem aviso, puxa-me para ela e beija-me como se nunca mais me fosse ver. Sinto o calor dela junto a mim e prendo-me a este momento. Sinto o sabor a vinho e incomoda-me, mas não digo nada, bem como finjo não cheirar o tabaco. Nenhum destes vícios me pertence, porque o meu único vício é ela.

Afasta-me repentinamente e senta-se de costas viradas para mim. Já sabia. Murmura qualquer coisa e levanta-se. Eu limito-me a sentar-me, calmamente, e a reparar que a garrafa já está vazia. Reparo que começou a chorar e sei que quer que me vá embora, mas não vou. Abraço-a com força, combatendo a sua vontade de me bater até ela se agarrar a mim e se esconder no meu casaco. Parou de chorar claro, nunca choraria à minha frente. Não lhe pergunto se está bem, porque sei que me vai ignorar, por isso limito-me a ficar ali até ela me virar costas e ir embora.

Vejo-a a afastar-se e, por um momento, desejo decifrar o enigma que ela é, mas depois recordo-me que não me importo de ser usado por ela e que talvez um dia ela faça sentido. Bem sei que amanhã a vou ver sentada no café e me juntarei a ela, quer ela me convide ou não, e sei que ela estará a fumar para morrer.

Mas o que eu não sei é que foi a última vez que a vi. O que eu não sei é que devia ter prestado atenção às flores.

Por tudo isto, limito-me a murmurar:

“Até amanhã, Alaska.”


Raquel Moreira, 2º ano

Ilustração por Susana Xu, 3º Ano